Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Paulo Saldanha

Escrever é como achar o meu caminho


  
Paulo Cordeiro Saldanha*


Quero escrever, liberar palavras que nem o vento poderá deter, nem apagar. Desejo expressar a minha força e as minhas fraquezas; o meu lado selvagem e a parte lírica das minhas vivências; as inseguranças e a minha sensibilidade, que me elevam; enfim, a multidão que me habita e os demônios que tentam (sem o conseguir) me fossilizar, enfraquecendo-me.

Escrever para mim é como dominar os espaços e percorrer os meus horizontes, de mãos dadas, ora com a felicidade, ora com a minha solidão. Ir e voltar lá do infinito e, após, beber água límpida da fonte, subir aos céus abençoando as pessoas e a natureza.

Escrever para mim é como cantar a mais linda canção de ninar, segurando o dedinho da criança tonta de sono, que, mesmo assim, esboça um sutil sorriso, não desejando dormir, senão depois de ouvir, em toda a extensão, a música que tanto lhe agrada.

Escrever para mim é como receber a visita de um anjo, que ia noutra direção, mas me viu, parou e me enxergou como um homem do bem, cuja ansiedade precisa ser estancada, mediante a psicografia de frases que, ao interromper a sua caminhada, me foram assopradas, me fazendo crer que seriam simples inspiração.

Escrever para mim é como levar um presente à criança ou ao idoso, abandonados na Casa que os acolheu, e ver refletido esse gesto em verdadeiros sinais de alegria que se estampam no rosto de quem se julgava só.

Escrever para mim é como distribuir o alimento que faltava, numa mesa limpa, porém, cheia de escassez, compensada apenas pela plenitude de amor e de esperança naquele lar reinante.

Escrever para mim é como receber o agasalho que diminui o frio do corpo e da alma; é receber no quarto úmido o cobertor que aquece e que neutraliza o isolamento físico de quem anda em busca de aconchego e calor.

Escrever para mim é como gritar com tanta força o amor que guardo dentro do peito, para distribuir na intensidade e na cadência tão contritas, tão eloqüentes, enquanto pulsa e me palpita esse fértil coração.

Escrever é como recolher a bênção maternal; é a recordação do beijo na mão e na fronte da Mãe que já não vive, mas que está naquele gesto perenemente gravado na história do amor filial, que não se acaba.

Escrever para mim e ir caminhando em direção à vida e, lá na curva do caminho, dar um adeus às recordações, boas ou amargas, procurando esclarecer com o balançar das mãos que um dia voltarei devidamente abençoado com outras vitórias.

Escrever é inspiração. É percepção do entorno, onde o escritor se fixa como indivíduo e como ente social. Escrever é retratar a vida, a natureza, o semelhante, a sociedade, enfim, o universo a sua volta, num horizonte de tempo.

Escrever é situar perante aqueles da sua geração, e das posteriores, a lucidez ou a loucura do seu tempo, a lógica e a dialética, a tese, antítese e a síntese, segundo o seu olhar.

Escrever é tentar demonstrar que o narrador, muitas vezes, um visionário, busca colocar como se fosse uma verdade, a hipótese que gostaria que acontecesse.

Escrever, enfim, é a explosão dos meus devaneios, meu grito de guerra, a minha saudação de amizade, o aperto de mão e o abraço mais afetuoso; é a forma que encontrei para estar em comunhão com o próximo, se aqui ao meu lado, se lá bem distante. É a maneira mais sincera que pude descobrir, para expressar meus sentimentos de tristeza e de saudade, de desculpas e de perdão, de alegria e de felicidade.

 

Gente de Opinião

Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha

*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
AMAZÔNIAS
/ RondôniaINCA / OpiniaoTV / Eventos
Energia & Meio Ambiente
/ YouTube / Turismo / Imagens da História


 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

        Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Os 100 anos da igrejinha

Os 100 anos da igrejinha

         Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof

Gente de Opinião Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)