Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Paulo Saldanha

EPILEF E O GALO


O Epilef era, e é, um homem espiritualizado, carismático, muito bem formado, voltado para a sua família.

A esposa, professora, sonhava com o primeiro filho ou a primeira filha. Aliás, aqueles dois são tão cúmplices que seus sonhos são sonhados juntos e na mesma dimensão.

Naquele tempo na cidade, andando pelas ruas, galináceos eram encontrados assim como, cavalos, bovinos, cachorros e cabras, não necessariamente nessa ordem.

Epilef, brasileiro com sangue libanês, guardava as pilhas das lanternas para lançá-las contra os cachorros que, à noite latiam acordando os moradores da vila.

Crianças jogavam futebol improvisando traves no meio das ruas, ainda com poucos automóveis, porém com algumas bicicletas, lambretas e vespas. Vizinhos gritavam de uma casa para a vizinha da residência em frente, sem se preocuparem se, ao lado, um idoso roncava ou um bebê adormecido poderia assustar-se com aqueles berros intermitentes.

Ocorre, que o Epilef acalentava ódio mortal contra um galiforme criado ao léu, maior abandonado, um animal delinquente, aparentando possuir distúrbios neuro-vegetativos, um mendigo das redondezas, meio sujo e descuidado, que escolhera reinar justamente no entorno da casa do nosso personagem e que escolhia os horários mais inoportunos e inconvenientes para cantar de galo.

            –Ainda mato esse bicho e o transformo numa canja aguada e o sirvo como se fosse de galinha... Assim, revoltado Epilef ou falava com os seus botões ou dialogava com sua eterna namorada e doce esposa.

Um dia, ela lhe deu a auspiciosa noticia, dizendo-se grávida de uma criatura que viria (e veio) para abençoar aquele casamento.

Epilef emocionou-se, derramou algumas lágrimas, emoção que passou para a mulher, que ampliou aquela comoção, no excelso instante em que se beijavam e se abraçavam.

A criança nasceu, linda, rosada, um olhar perscrutador, olhando, ora para um lado, ora para o outro, como se estivesse procurando mais alguém que poderia ser visto ali no canto agradecendo a Deus pela chegada da primeira neta. Sim, era uma menina, linda, linda, como o raiar de um dia.

Entrementes aquele galo continuava rodando a periferia do lar que logo receberia a sapeca filha daquele casal.

            –Ainda mato esse galo, filho de uma égua, prometia o Epilef, no instante em que o viu, cacarejando como se fosse uma galinha, ali no lixo da rua. E o homem, com o semblante carregado olhou para a ave com ganas “galicidas”. O galo levantou a cabeça e o olhou de forma desafiadora.

            –Pois que venha, com sua fúria, oh! representante dos humanos. Vou lhe dar uma sova que você haverá de falar fino... E saiu rebolando de forma provocadora e debochada. Aquele galo gostava de tripudiar!

Nessa tarde, com a criança dormindo no berço, após mamar, o Epilef, ouvido atento esperou o cantar do galo afrescalhado, que, dando uma trégua, não compareceu no território dominado pela família ampliada. Fora cantar e espalhar os resíduos noutra freguesia.

Passaram-se os dias e o danado do galo não retornava para infernizar a vida do Epilef, que acabou esquecendo-se da “fera enfurecida e maldosa”.

Porém, num sábado ensolarado, precisamente às 13 horas e 47 minutos aquele bicho infernal, trazendo uma comitiva de galinhas novatas, eis que resolveu transformar-se no trovador da cidade e cantou, cantou e cantou de forma descarada, quase na janela aonde um bebê dormia, sonhando com anjos enquanto esboçava um terno sorriso. Epilef dormia a sua merecida sesta e acordou com um sobressalto, pegou a chumbeira, pulou o alto muro da residência e olhou com profunda e insana raiva para a fera não enjaulada e mirou no olho esquerdo do brutamonte e disparou. Bateu catolé a espingarda 12, pequena demais para o assassinato improvisado, porém nenhum cartucho mortífero por não ter sido deflagrado, logicamente não atingiu o objetivo.

E o pior, é que o galo, mesmo assustado, saiu do perímetro zombando da falta de aptidão para uma guerra por parte do nosso herói. E levou o seu séquito junto. Mas, no outro dia, no mesmo horário, como se fosse um galo inglês, pontualmente cantou, e cantou e cantou... Chico Buarque e Cauby Peixoto haverão de me perdoar por me valer da música Bastidores “como é cruel cantar assim/E num instante de ilusão, ainda mais forte”...    

Epilef novamente pulou o muro e munido com uma vassoura foi distribuindo pancada a esmo, à torto e à direita, sem alcançar aquele monstro. E assim, tão descontrolado, ele foi correndo atrás daquele “dragão” que, muito trêmulo, foi contornando a calçada do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ingressou na Av. Presidente Dutra, virou à direita e retornou pela Av. Costa Marques, torcendo para acontecer o que, de fato, ocorreu: ver o Epilef cansado, extenuado, colocando os bofes para fora, respiração entrecortada, pedindo arrego para os enfermeiros do Nosocômio enquanto ao lado, colocando os miúdos também para fora, o galo exausto pedia clemência e absolvição, implorando perdão. Deitaram-se, sem forças, na calçada, em silêncio, o homem e o galo, tentando uma comunicação apenas com o olhar.

O insolente galo, olhos vidrados, suado, olhando para o seu algoz, clamando por misericórdia e, talvez, prometendo não tumultuar o sono dos familiares do Epilef tentou negociar uma saída honrosa.

Mas, não mereceu indulgência, pois, embora extenuado, Epilef cravou os dentes, procurou a cabeça do desafiante e, humilhado pela canseira a si imposta, foi apertando gradativamente o pescoço da fera ferida que acabou sendo, sem choro nem vela, encaminhado para as profundezas do inferno terrestre, consoante fora imaginado e decidido.

E a multidão se dividia ora aprovando a cena tragicômica, ora reprovando a ausência de um julgamento justo, que pudesse privilegiar os direitos galináceos não assegurados por aquele fervoroso Pai e dedicado esposo, profissional bancário e talentoso Executivo dos melhores que conheci.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

        Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Os 100 anos da igrejinha

Os 100 anos da igrejinha

         Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof

Gente de Opinião Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)