Segunda-feira, 29 de agosto de 2016 - 09h16
Fiquei de luto mais uma vez! Desta vez por conta do meu ipê, o amarelo, aquele de outras crônicas anteriores, que em uma vez a cada primavera e há muitos anos vinha me comovendo, enternecendo e maravilhando.
Suas raízes devem ter ficado bambas, fracas, debilitadas, adoecidas, a partir da grande cheia de 2014. Inundação das “brabas”! Tremenda alagação!
Sempre, desde 1998, eu vinha premiando as pupilas dos meus olhos com a visão majestática daquele amarelo dourado que despontava entre agosto e setembro. Aliás, eu da janela ficava “chocando”, esperando o surgimento da cor mais eloqüente do reino vegetal, uma mistura do ouro com a gema do ovo, matiz que só o artista maior dos mundos é capaz de reproduzir!
Mas aquela alagação de 2014 foi de uma contundência tal que derrubou o ipê de minha predileção. Que pena!
Olho na antiga direção onde ele pontificava e um vazio debochadamente me aplaude de lá para cá, de forma provocativa, com escárnio e ironia, querendo tripudiar, como a dizer: “Estás vendo, Paulo? Não adianta chorar, esse ipezinho de meia tigela foi fraco e não suportou a inclemência de uma “cheiazinha” também de meia pataca (palavra antiga que traduzia a crítica a uma moeda popular existente na época de meu pai).
O certo, todavia, é que meu coração e os meus olhos estão enlutados, pois perdi um amigo, uma espécie de irmão, um camarada que todo ano me abraçava bem apertado e nutria a minha emoção com o esplendor de suas pétalas tão vivas, que seduziam e acariciavam os meus sentimentos.
Caiu de fraqueza, debilidade provocada pela própria Natureza, e seu tronco acabou impedindo o trânsito na estrada interna, sendo necessário o despedaçamento daquele corpo que durante anos a fio fazia renascer a esperança mediante o esplendor que espraiava em todo o derredor.
Eu estava ausente quando um som estrondou no entorno, sinalizando a queda de um ente para mim tão querido. Foi derrubado, já fraco que estava, pelo vento forte que soprou do Sul de forma acintosa e mortal.
E o meu ipê preferido, aquele favorito, o meu ipê tão querido, tombou como um bravo. Foi corroído a partir da planta dos seus pés, aquelas raízes nem sempre tão profundamente fincadas no solo fraco, estrutura que acabou vencida pela ação inclemente do tempo em que ficou sob o impacto das águas do legendário rio Pacaás Novos.
E eu, agora mais pobre, não poderei mais admirar a cabeleira dourada do meu ipê; e nem ele, qual mocinho tão guapo, vaidoso da sua adônica beleza, não poderá mais concorrer para extasiar e emocionar aqueles espíritos como o meu, que se comove com a sedução que emerge do chão e das entranhas da abençoada terra amazônica, em cujo ventre vicejam árvores como o meu ipê que nasceu e cresceu para pontificar, encantar e comover.
Os seus pedaços me fazem recordar o esquartejamento de um nacionalista como se tivesse praticado um ato de lesa majestade, e estão ali no meu itinerário ao meu trabalho como a me lembrar de que há culpas não resolvidas, porquanto embora admirando-lhe demais, talvez pouco tenha expressado em palavras a intensidade da minha paixão pela árvore considerada símbolo nacional.
Dar-te-ei, meu irmão, meu camarada Ipê, companheiro de tantas primaveras, um destino glorioso: haverás de pontificar na chegada da minha casa nem que seja através de um fragmento do que fostes, emoldurando uma placa em homenagem a uma mulher tão especial para mim.
Como és ressuscitável, não ficarei admirado se, qual Lázaro, emergires novamente do solo dadivoso, transformando-te em portentosa árvore; e haverás de brilhar no firmamento regional, para alegria minha e de tantos olhos que haverão de te contemplar.
Espero viver o suficiente... Que assim Deus me ajude!
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