Sexta-feira, 30 de dezembro de 2022 - 10h46

Eu sei que muitos têm N histórias para contar sobre a experiência de ter
tido um encontro com o Edson Arantes do nascimento, digo Pelé, o rei do
Futebol, o atleta do Século XX.
Ocorre que, uma vaidade besta tomou conta de mim, quando eu achava que esse
defeito eu já o tinha exorcizado das minhas perspectivas. Ledo engano! Ela
voltou forte, intensa, voluntariosa e uma inevitável vontade de compartilhar uma
vivência eis que se me surgiu diante da infausta noticia sobre a viagem do
ídolo para outras moradas do Senhor.
Em 1993 fiz parte do grupo que, sob o patrocínio das marcas
CREDICARD/MASTERCARD fomos encaminhados à Barcelona na Espanha para um
congresso em que havia de tudo: visitas, palestras, encontros de trabalho,
turismo, resultando, enfim, em conhecimento e em aprendizado de geografia e de
história.
Passaportes tirados, a capital paulista, o aeroporto internacional,
embarque, localização dos assentos, quando já acomodados, no telão do 777 da
VARIG (ainda não agonizante) apareceu a figura e a voz do vice-presidente dos
patrocinadores.
–Senhores parceiros, boa
noite, temos a honra de lhes dar as boas vindas... está a bordo deste Boeing
uma celebridade que honra as duas marcas CREDICARD/MASTERCARD, e que, assim
como os senhores e senhoras elevam a nossa parceria, esse personagem honra e
glorifica o cenário sul-americano e porque não dizer o universo empresarial do
mundo...
Brincando disse a minha mulher: –já descobriram que eu estou aqui...
E observei que todos questionavam quem seria a figura escolhida como
divulgador internacional da dística CREDICAR/MASTERCARD. Sussurros eram
ouvidos, apesar dos sons que as turbinas emitiam.
Continuando esse executivo: –assim que o avião nivelar, atingindo o vôo
cruzeiro essa celebridade virá para cumprimentá-los. E o vice-presidente
despediu-se polidamente.
Cerca de 18 minutos, eis que apresenta-se o Edson Arantes do Nascimento,
elegantemente vestido num blazer azul, ostentando no bolso o emblema das
patrocinadoras do congresso.
E 240 pessoas dentro do avião se levantaram para aplaudir o ídolo abrindo
sorrisos largos, de contentamento, alegria e radiante surpresa.
As sorridentes comissárias, apoiadas pela equipe das empresas de cartões,
foram distribuindo fotos do garoto-propaganda, que as ia autografando e
dialogando com os passageiros.
Quando chegou na minha vez, ao lado da minha mulher brinquei com o Pelé:
–Pelé nós temos muitas
coisas em comum, né?
–O Futebol, a nossa
nacionalidade e o quê mais? Devolveu o grande atleta.
–Somos jogadores
internacionais, Pelé!
–Em que País você jogou?
–Na Bolívia, lhe disse
assim de pronto. Era só atravessar o rio Mamoré.
–Aonde fica?
–Em Rondônia, devolvi.
–Ah, sei, joguei em Porto
Velho, num amistoso lá em Porto Velho.
Minha mulher torceu o nariz, como a me lembrar: –você querendo se
comparar ao rei do futebol. Quanta pretensão!
O Pelé, soberano humilde, me perdoou pelo majestoso acinte e riu do meu
chiste, enquanto autografava para meus filhos Delman e Dayan nas fotos
presenteadas, com uma dedicatória que ambos guardaram por muitos e muitos anos.
Dez ou onze horas depois chegávamos a Barcelona.O Pelé desceu rápido e o
grupo em seguida. Foi quando observei “um enxame abençoado” de repórteres,
jornalistas e fotógrafos disputando entrevistas com perguntas e mais perguntas.
–Já descobriram que estou
chegando, veja, mulher, a quantidade de profissionais da imprensa mundial,
querendo entrevistar-me?
–Te manca, cara! Cresça e
apareça! Veja o nosso ídolo ora fala em inglês, ora em português, ora em
espanhol.
Sempre sorridente, com paciência divinal esse brasileiro continuava
encantando o mundo. Equipes de TV, de rádio, de jornais, qual gladiadores,
quase no tapa, disputavam a chance e o melhor ângulo para entrevistar o gênio
do futebol mundial. Ele, desde 1958 já fulgurava como a nossa maior referência,
a quem rendíamos a maior reverência.
À noite, num cassino acarpetado, rica decoração e espelhos de cristais,
lugar destinado ao festivo jantar, num espaço aonde dançarinos se apresentavam,
um Pelé especialista em danças espanholas, chamado ao palco pôde demonstrar
toda a sua versatilidade num Flamenco perfeito que deu a dimensão de outro
talento que possuía. Nós já conhecíamos o Pelé goleiro, ator, compositor,
poeta, cantor e músico...
Dignificou-se como homem, cidadão, atleta, gestor público como ministro
dos Esportes, mantendo íntegra Sua Majestade.
Terá sido um profeta visando a anunciar a vinda de um Messias do futebol?
Particularmente, acho difícil vir ao planeta outro deus de todos os estádios...
E ele viverá por todo o sempre eternizado nas nossas lembranças, nos nossos
cérebros e nos nossos corações.
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