Porto Velho (RO) segunda-feira, 23 de setembro de 2019
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Paulo Saldanha

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: O CIRCO DO CHARUTO


CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: O CIRCO DO CHARUTO - Gente de Opinião

 

A cidade recebeu antes outros circos. Depois também. Mas, em fins dos anos 50 o Circo do Charuto brilhou aqui nas terras guajaramirenses.

E tinha teatro com a encenação de peças que emocionavam. O Ébrio, Coração Materno, por exemplo, fizeram chorar; outras, rir.

Trapezistas dos melhores encantavam a petizada e a juventude. Mulheres se apaixonavam pelos artistas. E os rapazes deliciavam as pupilas dos olhos ante a formosura das garotas que se apresentavam no palco, no trapézio ou no picadeiro.

Aquela corrida de motocicleta dentro do globo de alumínio jamais saiu da minha imaginação...

Mas o Charuto –aquele charuto– era o máximo! Palhaço principal atuava nas peças dramáticas, também. Artista pleno, quase semi-deus! A primeira vez que ele veio a Guajará integrava o Circo Show. Era apenas funcionário. Na segunda vez, já envergava o título de proprietário.

Lembro-me que noutra vinda o circo fora implantado numa das quinas do Grupo Escolar Simon Bolívar. Ali em frente da hoje Capitania dos Portos. Certamente aportara em período das férias, pois do contrário iria tumultuar a vida estudantil.

Fora do circuito, pessoas vendiam pastéis, refrescos, tortilhas, empanadas, croquetes, cafés, chicha, etc.

No entorno, outros vendiam pipocas, balões e um manancial de objetos que faziam a delicia da meninada. Até o “seu” Juca, dono do Rala-Rala estendia o seu expediente para faturar um pouco mais.

Porém, emoção pura só era alcançada debaixo da enorme lona que cobria a área onde ficavam as arquibancadas e o picadeiro, espaço dos Acrobatas, malabaristas e trapezistas. Havia até cadeiras especiais, cujo preço elevado, em relação ao das arquibancadas favorecia o conforto dos mais abastados.CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: O CIRCO DO CHARUTO - Gente de Opinião

“A Louca do Jardim”, “Conde de Monte Cristo”, “O Ébrio” e “Coração Materno” foram peças que deliciaram o povo presente! Lágrimas nessa ocasião eram derramadas! As comédias, é evidente faziam rir!

Na apresentação do Ébrio não teve quem não chorasse! O enredo seria a vida de um homem que perde a família, a fortuna (até a dignidade) e a bebida passa a ser a sua companheira e algoz, como nos versos da canção mais conhecida do cantor Vicente Celestino.

O ator principal, –creio que se chamava Walter- tinha linda voz e se apresentou com esmero. No instante em que ele cantou: “E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então: O falso lar que amava e que a chorar deixei/Cada parente, cada amigo, era um ladrão; Me abandonaram e roubaram o que amei/Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar: Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição. Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar/Este ébrio triste e este triste coração/Quero somente que na campa em que eu repousar/Os ébrios loucos como eu venham depositar/Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo/E suas lágrimas de dor ao peito amigo”...

A voz tremida, a mão trêmula, o ar de desespero, o cenho contraído, parecia que tinha lágrimas nos olhos, sofrimento atroz transferido para a plateia, que ficara com o próprio semblante coletivo tão carregado...
Explode coração...

O povão também chorou.

Na peça “Coração Materno”, emocionante foi a mão ensanguentada com a qual o personagem do ator, à pedido da amada, lhe presenteou o coração –parecia que estava ainda pulsando– da mulher que lhe dera à vida.

...“Chega à choupana o campônio/Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar/Rasga-lhe o peito o demônio/ Tombando a velhinha aos pés do altar/Tira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração

E volta à correr proclamando: "Vitória, vitória, tens minha paixão".

Na minha visão de menino ingênuo, imaginava que, de fato, uma faca tinha retirado do torax o coração da genitora do filho corrompido por uma paixão doentia..

 
Tive ganas de reimplantar o órgão no peito da mulher, ali caída numa ponta do palco, onde “jazia morta”, mortinha da silva. Naquele tempo eu sonhava com a medicina. Um dia fiz o Curso de Direito.

Tragédias à parte, valeu viver aqueles momentos em que da fantasia que rolava no picadeiro, muitas almas se enterneciam com a arte que brotava tão intensa através da lúcida apresentação da troupe do Charuto, o bom Charuto Velho de Guerra.

*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha
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