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Paulo Saldanha

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: Mário Róvere Monte


 
Ele possuía um monte de virtudes, um monte de amigos, um monte de energia, um monte de simpatia e um montão de irreverências. 

Nascido em Xapuri, no Acre, em 05 de maio de 1919, integrante de uma família de oito irmãos, foi o único que não se bacharelou. Desejou ser piloto de avião. Os pais o impediram. Revoltou-se! Acabou tornando-se gerente de seringal e, um dia, aportou em Guajará-Mirim, em 1948, já casado com Dona Maria de Lourdes Dias Monte. Suas duas filhas Valderez e Antonieta chegaram com o casal. Aqui nasceram a Loura, a Marília, a do Céu e o Mariozinho. 

Se tiveram dificuldades na chegada, jamais aquele lar perdeu a característica que o consagrava: alegria, generosidade para com terceiros, mercê da excelente formação humanitária que pontificava como característica da personalidade do Mário Monte. 

Entre ele e Dona Lourdes, além da cumplicidade, uma enorme paixão era acalentada, com direito a indisfarçável ciúme que ele sentia dela. Na visão da Valderez, “o temperamento e comportamento dos dois eram um paradoxo em relação ao vocabulário e reações: ela uma lady e ele um irreverente”. 

Com efeito, a voz suave e compassada de Dona Lourdes era ouvida, como mensagem de alerta ao marido, quando um palavrão, inadvertidamente ou não, era colocado como substituto de uma interjeição. 

__O quê? Beleza interior? Não sei por quê! Ninguém anda mostrando o “avesso”! Ele sempre repetia esse bordão. 

Exemplo de coragem e de franqueza; solidariedade e boemia. Para desconforto da esposa, também generosa como ele, porém preocupada com a família (a maioria filhas mulheres) costumava levar para a sua casa homens bêbados, sofridos e com fome. Ali mandava servir uma sopa bem sortida para eles. Às ponderações da mulher respondia: 

- Não é você que adora fazer o bem? 

Quando chegou a Guajará-Mirim o objetivo era trabalhar com o cunhado Walter Dias, porém, os temperamentos de ambos eram diferentes. Embora se respeitassem, não combinaram trabalhando juntos. O desemprego o atingiu e passou a negociar nos rios Guaporé e Mamoré, vendendo tecidos e camisas, entre outros artigos. As roupas e os tecidos adquiria na Loja “Pernambucanas”.

À medida que ia encontrando necessitados, esquecia do comércio e ia doando a mercadoria. O resultado já se imagina... 

Certa vez envolveu-se numa campanha política, salvo engano, em favor do Aluizio Ferreira; depois da vitória ofereceram-lhe o cargo de Delegado de Polícia, bem ao seu feitio, agradeceu e respondeu com um daqueles palavrões muito conhecidos. Conseqüência: Mais tempo desempregado. 

Já escrevi anteriormente sobre o Caralambos Vassilakis e ele foi um dos seus benfeitores, razão da gratidão que sempre o envolveu e aos filhos, pois o “seu” Vassilakis um dia lhe disse que o respeitava e o observava há muito; e se referiu conhecedor do seu potencial de trabalho e da sua honestidade. 

- Não desejo vê-lo passar dificuldades, meu amigo! E abriu crédito no seu armazém com prazo indeterminado. 

A contrapartida seria recolher o apoio para eleger alguém que o Vassilakis queria ver vitorioso. Carismático como só ele sabia ser, conseguiu realmente muitos votos. A partir daí, veio o emprego no BASA. 

Para os filhos sempre filosofava em cima do livre arbítrio: 

- ”quem quisesse ir pelo caminho errado estava liberado, que ele e a Mãe sofreriam; mas aquele que trilhasse o vício e o lado perverso da vida, sofreria muito mais, porque o mundo é uma escola”. Ele sabia que se aprende em cima dos bons exemplos, mas também por conta do próprio sofrimento. 

Quem freqüentava a casa dos Monte observava a disciplina das meninas que auxiliavam nas tarefas domésticas diárias, de forma bem distribuída. Porém ele era mais liberal que a mulher. Com o único varão, o Mariozinho, era mais exigente e rigoroso. 

O “seu” Mário Monte, ao lado do Felipe Azzi, foi o mensageiro que me deu a feliz noticia de que eu havia sido aprovado no concurso externo do BASA realizado em dezembro de 1963 e, naquele dia, ambos me levavam a boa nova de que eu seria colega dos dois. Abraçou-me sorridente e me convidou para ir até o gabinete do gerente Walmen Hoffman de Souza. Eu sorri comovido. Estávamos em junho de 1964. 

Lembro-me de que atuava de forma firme e idealista como fiscal do BASA. Era duro, porém se valia da ternura para defender os interesses do “Patrão”. Não possuía inimigos! Aliás, o único foi uma arraia que o ferrou, deixando-o gritando por umas 24 horas e licenciado dos serviços por mais de 30. 

Saudades? É evidente que o Mário Monte, ao deixar tantos amigos e uma família tão rica no aspecto espiritual, só saudades dele sentimos. Abandonou a vida aqui na terra no dia 13/08/81, mas ficou eterno nos sentimentos de pessoas que o amaram e respeitaram, reconhecendo-lhes as virtudes que, ele, só ele, de forma espontânea, tão bem cultivava, no fértil terreno da sua personalidade. 

Fonte: Paulo Saldanha

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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