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Paulo Saldanha

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: As histórias que eu ouvi contar


Paulo Cordeiro Saldanha *
 
Como na poesia de Casimiro de Abreu “Eu me lembro! Eu me lembro! _Era pequeno, e brincava na Praia; o mar bramia”...

Aqui não há oceano, nem mar, a não ser o Mamoré. Mas, confesso, eu me lembro das conversas que ouvia. Cada um na sua rede– meu Pai Paulo e meu Tio João Saldanha– ficavam conversando; às vezes ouviam músicas, às vezes analisavam o momento político da região, às vezes contavam casos.

A morte do Pedro Paulo me foi conhecida assim:
a viagem transcorria sem novidades quando algumas pessoas, de forma desesperada no meio do rio, num barco de bandeira brasileira acenavam para aquele que subia. O comandante orientou no sentido de que buscassem amarrar uma a outra embarcação, pois certamente necessitavam de ajuda.

Encostaram numa das laterais do barco e viram uma cena horripilante: um homem agonizava, arfante, sua respiração era entrecortada, porque a cada inspirada, em busca da vida, visando a introduzir o ar nos pulmões, uma golfada de sangue lhe saltava de uma cavidade aberta na altura do pescoço, próximo da clavícula; mais adiante um animal morto, também sangrava.
 
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Pedro Paulo tinha um olho perfurado, um golpe, como já disse, na altura do pescoço e o músculo do braço superior direito devidamente dilacerado... nada se poderia fazer, haja vista os dois cortes – o do olho– lhe tinha atingido o cérebro, posto que foram observados pedaços escorrendo pelo buraco ocular; –aquele do pescoço o tinha atingido e perfurado de forma irreversível.

O sangue brotava como se fora uma fonte inesgotável de líquido vermelho. Já havia sangrado demais!. Ao lado do morto, Hermínio, o cozinheiro, parceiro do Pedro Paulo naquela tragédia, assustado, olhos abertos, semblante desesperado. Estava em estado de choque!

Alguém cuidou da melhor apresentação do defunto, limpando-o; antes de o colocarem numa rede, envolto em lençóis e cobertores.

Só a partir dai é que foram conhecer a história real do acidente.

- É que o tamanduá bandeira, ali ao lado, ia atravessando o rio, do lado boliviano para o brasileiro; era cedo, bem cedo, em torno das 5,30 da manhã, com o dia já clareando. O turno do Pedro Paulo terminava e o do Hermínio, o cozinheiro, iria iniciar. Ambos viram o animal nadando e quiseram levá-lo para o Zoológico do quartel de Guajará, como presente.

O tamanduá, na defensiva, ao ser laçado, conseguiu virar a canoa utilizada e partir para cima do Pedro Paulo, atingindo-o, já dentro dágua, retirando o músculo do braço, depois furou o olho dele e, em seguida, o perfurou na altura do pescoço. Vendo o Pedro Paulo inerte nadou em direção do Hermínio, porém, conseguiram içar o Cozinheiro, através de cordas, para bordo.
 

O Urbano Paes de Azevedo, já de posse de uma espingarda 22, matou o animal com mais de 15 tiros, pois enfurecido com as balas, ameaçava subir a bordo. Até parecia que estava possuído pelo demônio! O Pedro Paulo foi recolhido  ainda com vida. O animal morto foi
colocado na embarcação.CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: As histórias que eu ouvi contar - Gente de Opinião

Assim o Pedro Paulo, excelente marinheiro, simpático e trabalhador deixava mulher viuva e filhos menores órfãos.

Noutro dia a história versava sobre a Cobra Grande da Foz do Pacaas Novos. Dom Rey, o Bispo Prelado de Guajará-Mirim, a viu sobre as pedras que, na baixa das aguas, aparecem bem no encontro das águas do Rio Mamoré com o Pacaas Novos. Era descomunal! O Bispo a considerou com mais de 12 metros de comprimento. Achava-se inerte, adormecida sobre as pedras da curva do rio, com aquele barrigão enorme demonstrando que se fartara em cima de uma capivara ou de uma paca bem graúda.

O Bispo, sem máquina fotográfica, não permitiu que um mais afoito atirasse na Sucuri. Gravaram apenas no cérebro a tal figura disforme, o Monstro da Foz do Rio de aguas escuras.

Depois, muito tempo depois, o Comandante Tito Hugo Lôbo teria registrado idêntica visão, ao passar, num entardecer, pelo mesmo local. Alguém, meses passados, também teria avistado aquele monstro, a Cobra Grande da Boca do Pacaas Novos. Mas confesso: eu jamais a vi.

Nasciam a lenda e outras histórias mirabolantes. Mesmo assim, não deixo escapar a chance de contar essas narrativas. Porém me reservo o direito de, aqui e acolá, ser tentado a inventar o algo mais, como fazem contadores de “causos”, para ganhar um prestigio perante a plateia de plantão.

Mas continuo fiel às histórias que ouvi, em nome da credibilidade, em memória daqueles que já morreram e repassaram esses fatos para mim.

*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras- AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER
 
                       
 

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