Quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 - 11h20
Corria à boca pequena, atemorizando mulheres e crianças, a informação de que no Triângulo, o primeiro bairro (ainda que pequeno) implantado em Guajará-Mirim, a PORCA - mistura de homem com suíno - fazia mal a crianças que se aventurassem a adentrar nos seus limites geográficos.
E apareceram pessoas descrevendo a figura do abominável ser, que praticava o mal; e mais, indicaram o personagem que se metamorfoseava, igual ao lobisomem, na tal fera enfurecida. O personagem desfilava na cidade, freqüentava casas das famílias, cujos chefes eram seus compadres e onde compartilhava das mesas na hora do almoço ou do jantar.
Nesses encontros os meninos ficavam ressabiados, desconfiados e cochichando temerosos...
É possível que ele soubesse do medo que sobre ele se espraiava, qual rastilho de pólvora. Longa cabeleira, barba branca, proeminente pança, dentes descuidados e unhas bastante compridas.
Em sociedade, apresentava-se sempre de forma simpática, afetuosa e lhana. Mas que amedrontava, amedrontava, sim! Principalmente aos desinformados e as crianças de então, com relativa capacidade para imaginar cenas fantasmagóricas.
Enquanto as narrativas transitavam pelo imaginário popular local, aquele homem ia liderando uma família saudável, bem orientada e progressista.
Já adulto descobri que o personagem espalhou, ele mesmo, a tal mensagem, visando a inibir visitas de curiosos, pois não desejava tornar absolutamente escancarada a atividade quimbandista da pesada, que, no seu terreiro, ele desenvolvia.
Dom Rey não lhe interessava ter como adversário! Mas, o Capitão Alípio, sempre atento, o binoculava com zoom...
Mas a lenda da Porca teve longa existência, enquanto durou aquela eternidade.
A exemplo do que corria no imaginário de outras cidades, o curupira também desafiava os nossos questionamentos e receios, na já considerada Pérola do Mamoré (?) e a primeira lembrança que me ocorre é aquela dos pés dele serem voltados para trás. Mas, se quisermos ter boa vontade com o Curupira, veremos que ele foi, na verdade, o primeiro ecologista das florestas brasileiras.
Defendia as árvores e os animais selvagens, criando artimanhas contra os destruidores, devastadores do meio ambiente. E isso há quantos anos antes!... quando a palavra ecologia nem pensava em nascer e, quase ninguém se preocupava com a biodiversidade. Considerado uma entidade de baixa estatura, um anão das matas, possuindo cabelos avermelhados e também longos (hoje copiado por idosos que desejam parecer mais jovens), foi-me apresentado por minha Avó, tentando impedir as minhas incursões em direção ao Curri (do Velho Perez) e ao banho no Poção, onde, por não ter respeitado a ordem, quase morri afogado.
Minha avó tão contundente afirmava que o Curupira roubava as crianças, as encantava e só as devolvia 7 anos depois, isso se a sucuri de 20 metros não as engolisse antes.
O certo é que o Curupira em 1560 foi narrado, como habitante florestal, por José de Anchieta, o jesuíta.
Sabe-se que ele traduz a ideia de que é um duende gozador e mordaz, pois arma ardis para tumultuar a vida de caçadores e predadores, assoviando de forma intensa para assustá-los, criando ainda cenários falsos, para confundir os invasores da mata.
Há quem diga ainda que, até na lenda, nossos personagens vagam em cima da corrupção e do suborno, posto que caçadores e lenhadores mais sagazes depositam prendas em lugares estratégicos para “engabelar” o Curupira, que se deixa, candidamente, corromper por presentes bajuladores.
Meu pai escreveu sobre o Mapinguary e deixou através da crônica “um Encontro na Selva”, em seu livro Histórias, Fatos e Lendas do Guaporé, um memorável tête-à-tête do Inocêncio (prático dos melhores da antiga Empresa de Navegação do Guaporé), com o monstro das matas, lá pelas bandas do rio Mequéns ou Corumbiara.
Os indios me ensinaram que costumam amedrontar seus filhos e netos com a indicação de que vão, acaso desrespeitados por eles, entregá-los ao IAM ou ao MAPINGUARY. IAM, seremos nós, os homens brancos, igualados à fera das matas mais fechadas.
Mas, de certa forma, pelas ações e reações dos considerados “civilizados” (que jamais fomos) os nativos têm até razão...
Disseram-me eles que o Mapinguary pode tomar de assalto uma aldeia e pegar uma ou mais crianças, após o que, vai arrancando os pedaços de braços e pernas, saboreando com requinte de sadismo a sua refeição. Já o homem branco, ao invadir uma comunidade indígena poderá despedaçar crianças, jovens, mutilando-as ainda vivas, com terçado, praticando uma crueldade que indio nem sonha.
Enquanto isso. eu, que vivo a maturidade, desejo encontrar-me, ainda que em sonho, com um Mapinguary e com o Curupira, pois pretendendo socializá-los, em nome dos livros que almejo escrever, buscarei neles a inspiração exigida. Todavia, com a Porca nem quero conversa, pois mantenho inalterado o temor que, sobre ela, acha-se impregnado no instinto da criança que um dia, já bem distante, pude ser. E fui!
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Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha
*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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