Porto Velho (RO) sábado, 16 de novembro de 2019
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Montezuma Cruz

Mulheres morrem no parto em Porto Velho; prioridade do PPSUS em 2020


Mulheres morrem no parto em Porto Velho; prioridade do PPSUS em 2020 - Gente de Opinião

Quatro horas de reunião indicaram ao Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS)* prioridade à mulher gestante em 2020. 

Acompanhei na semana passada a reunião anual da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa de Rondônia (Fapero) para eleger pesquisas financiadas. 

Em 90% dos casos investigados no município de Porto Velho, 26 gestantes morreram no parto [cesariano ou natural] em 2017 e 12 em 2018, vítimas de diabetes, hipertensão e infecção urinária. As que morrerem este ano irão constar na estatística que será fechada em abril do próximo ano. 

Numa sala do Campus 2 das Faculdades São Lucas, no Areal, o relato ilustrado com audiovisual chamou atenção: as vítimas de má gestação e de parto merecem análise minuciosa e pesquisa que possa conduzir a maioria das mulheres a dias melhores.

Coordenadora de assistência de atenção integral à saúde, Aline Vilela. - Gente de Opinião
Coordenadora de assistência de atenção integral à saúde, Aline Vilela.

Esse relato foi trazido à reunião pela coordenadora de assistência de atenção integral à saúde [órgão da Sesau], Aline Vilela. 

A dor das Cleusas, Marias, Lourdes, Josefas, Rosas, Tânias, e outras mais, passa quase despercebida pela sociedade. Quem fica sabendo da vida [e da morte delas] é a Agevisa, a Sesau, a Maternidade Mãe Esperança e, às vezes, Instituto Médico-Legal (IML). 

Muitas gestações terminam antes do atendimento, fator que complica e causa transtornos a essas mulheres, sobretudo, às redes estadual e municipal de saúde. 

O PPSUS é patrocinado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Suas reuniões anuais são feitas em todos os estados. 

O drama das mulheres e a saúde mental das pessoas foram conhecidas durante oficina no Campus 2 das Faculdades São Lucas, com ativa participação de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz-RO, dos centros médicos e biológicos da Universidade Federal de Rondônia (Unir), hospitais e instituições privadas de ensino.

 

O que “pega”?  

Em 2018, apenas 5% das gestantes fizeram o exame neonatal até seis dias, e neste ano, 6,6%. Já o neonatal tardio, de 7 a 27 dias, aumentou de 1,9% para 2,3%. E o pós-natal, 28 a 364 dias, foi insignificante em 2018 (4,3%); em 2019 estacionou 4,5%, até agora. 

Esse quadro precisa mudar, mas a mulher deve fazer sua parte, acenando desde a barranca do rio, no Baixo Madeira à periferia da capital. Só assim será possível socorrê-las a tempo.

 

830 POR DIA, NO MUNDO 

Em 2016, 1.829 mulheres morreram no Brasil por causas relacionadas ou agravadas por gravidez, parto ou o puerpério (período pós-parto de 42 dias). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), isso equivale a cinco mortes diárias. No mundo, 830 mulheres morreram por dia por essas causas. 

Esse tipo de óbito preocupa tanto as autoridades de saúde que tem uma classificação internacional específica: morte materna. Segundo dados do Indicadores de Desenvolvimento Global do Banco Mundial de 2016, para cada 100 mil nascidos, 69 mulheres morreram no parto ou no puerpério no Brasil. Em países desenvolvidos, a taxa é de dez mortes por 100 mil bebês vivos, e no Japão são apenas seis mortes. 

 

MENINAS-MÃES 

Se há 40 anos, a permissividade amazônica chocava a sociedade, atualmente a dor das famílias é o que conta. Dor e, em algumas situações, uma inadmissível frieza de quem – pais, mães e companheiro dessas mulheres – poderia detectar o risco a que elas se submetem. 

No relatório da atenção básica aparecem casos de gravidez de meninas a partir de 11 anos de idade e na faixa até os 19. Somam-se a isso, a falta de agentes de saúde e, muitas vezes, de antibióticos em áreas ribeirinhas, fronteiriças e até na cidade.

Diretor científico da Fapero, Andreimar Soares e a coordenadora nacional do PPSUS, Marge Tenório. - Gente de Opinião
Diretor científico da Fapero, Andreimar Soares e a coordenadora nacional do PPSUS, Marge Tenório.

Quarenta por cento dos atendimentos no município (34 mil Km²) são feitos pelo programa de saúde na família. O estado é dividido em sete regiões, das quais, só a Madeira-Mamoré tem os melhores equipamentos hospitalares. 

Daí a importância da pesquisa do PPSUS apoiada pela Fapero. “Quando a população entender que a ciência pode diminuir a fila do SUS, ela será nossa aliada”, disse a coordenadora nacional do PPSUS, Marge Tenório. 

Na oficina de prioridades, a coordenadora explicou a metodologia do PPSUS com a apresentação de um trabalho de pesquisa e audiovisual elaborado por ela e pelos consultores técnicos José Eloy dos Santos e Giliana Betini. 

São eixos temáticas que visam à saúde materno-infantil; doenças crônicas não transmissíveis; doenças infecto-contagiosas, desenvolvimento de tecnologia e inovação; e gestão do trabalho e vigilância em saúde. 

Já no sul do Estado de Rondônia, a situação foi amenizada, lembrou a coordenadora Aline Vilela. “No terceiro ano de planificação, a média e alta complexidade no Hospital Regional de Cacoal passaram a evitar viagens longas de pacientes a Porto Velho”. 

Para o diretor científico da Fapero, Andreimar Soares, cenários adversos exigem ações conjuntas. “Temos vontade de fazer a diferença, as respostas dos pesquisadores nos fará enfrentar os problemas”, disse. 

Soares propõe um olhar para a ciência e a inovação com articulação e inovação. Para tanto, defendeu o papel da Fapero como fundamental, pois desta maneira, não se perde a continuidade das boas ações e iniciativas que o meio acadêmico aguarda enquanto fomento. 

O que mais “pega” ?, pesquisadores indagaram nas reuniões da semana passada. E Aline Vilela expôs situações peculiares do estado: 

► Municípios do sudoeste amazonense não têm acesso à saúde no vizinho estado, tendo como referência o Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, a Policlínica Oswaldo Cruz, o Hospital João Paulo II, e o Hospital de Amor da Amazônia. 

► Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) e Sesau acompanham casos de Aids em crianças com menos de cinco anos. 

► Nem todos os poços Amazonas tem água potável de qualidade. Segundo a coordenadora, diversos poços até se situam distantes das fossas nos quintais, porém, ficam próximos às fossas dos vizinhos. 

► Histórias que narram a chamada violência obstétrica ainda repercutem: 25% dos partos no município de Porto Velho são cesarianos; na Zona da Mata, 90%, superando o parâmetro nacional estabelecido pelo Ministério da Saúde, entre 25%  e 30%. A exceção no estado é a Maternidade Mãe Esperança, onde a maior parte dos partos são normais. 

► Gerências hospitalares deveriam evitar abordagens deste tipo às gestantes: “Nossa, que barrigão! Deve  ser um bebezão”. Frases assim podem desencorajá-las. “Certo é exclamar: “Que barriga bonita!”. Duas semanas atrás, Aline Vilela presenciou uma mãe da zona leste dar à luz um bebê pesando 4,100 Kg, em parto normal. “A mãe estava tranquila e segura”, comemorou. 

► A cultura tribal indígena impossibilita o trabalho de equipes médicas. “Não se permite abrir as vaginas das mulheres”. 

► Mamografia para mulheres entre 50 e 69 anos: o número de aparelhos é insuficiente. Pimenta Bueno se mobiliza atualmente, para alcançar maior número de mulheres atendidas. Unidades móveis têm atraído as mulheres. 

► Nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) alcançou-se no ano passado o percentual de 57,14% de resultados positivos em ações de matriciamento sistemático (atividade pedagógica das equipes, interagindo com famílias dos doentes); em 2019 caiu para 42,85%. A meta de 100% volta a ser pactuada para 2020. O pior ano de atendimento foi 2017, que foi centrado apenas em medicação e não passou de 9,52%. 

► Segundo Aline Vilela, observou-se que os pacientes preferiram sair do CAPS somente com a receita médica, deixando de participar em grupos atendidos por psicólogos, na média de 25 pessoas por semana. 

 

*PPSUS é uma iniciativa de fomento à pesquisa em saúde nas Unidades Federativas, que promove o desenvolvimento científico e tecnológico, visando atender as peculiaridades e especificidades de cada estado brasileiro e contribuir para a redução das desigualdades regionais. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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