Porto Velho (RO) domingo, 21 de julho de 2019
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Montezuma Cruz

Geólogo que descobriu volframita em Rio Crespo consolida a carreira trabalhando no DER


Geólogo que descobriu volframita em Rio Crespo consolida a carreira trabalhando no DER - Gente de Opinião

Com fotos de Frank Néry, Wikipedia, Álbum de Família e InfoAmazônia


Geólogo sofre. Entre 1967 e 1968, ao fazer mapeamento mineral em Xambioá (TO), Vital José Ribeiro Wanderley e seus colegas geólogos foram confundidos com guerrilheiros e tiveram que provar o que faziam ali, para não serem capturados.

Desde 1967, Xambioá foi palco da guerrilha do Araguaia, que durou até 1974. Soldados do Exército Brasileiro caçavam guerrilheiros ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O grupo de geólogos despertou a atenção, no meio da floresta.

Vital, hoje com 72 anos, ingressou no Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura e Serviços Públicos de Rondônia (DER) em 2014, depois de longo périplo nas iniciativas oficial e privada.

De 2015 a 2019, por dois mandatos, presidiu a Associação Profissional dos Geólogos de Rondônia.

Nascido em Barra do Corda (MA), dali saiu menino. Morou também em Ipixina e estudou em Bacabal e Coroatá.

Sua esposa, a professora Maria Joemi, foi introdutora do curso de Libras em Porto Velho, ao qual até hoje se dedica. O casal tem oito filhos e na família de nove irmãos de Vital há também outro geólogo.

“Do Maranhão eu fui para o Ceará, sonhava ser piloto de avião, mas o exame de vistas em Fortaleza constatou miopia”, conta. No entanto, Vital prestou concurso para a Força Aérea Brasileira (FAB), e ficou entre os 14 aprovados num grupo de 140 candidatos.

Vital recebeu diversas ligações internacionais ao descobrir e mapear uma mina de volframita no município rondoniense de Rio Crespo. É uma riqueza quase ignorada no estado, porém, vendida ou contrabandeada para a Bolívia, de onde chega aos Estados Unidos.

Pedra de volframita usada em satélites

Ainda em Rondônia, estudou pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) o granito ornamental, muito aceito em construções particulares e do governo. “Observe esse azulado na pedra, é o quartzo, e ele tem alto valor”, diz apontando o piso do 4º andar do DER, no Edifício Jamari (Complexo Rio Madeira). “A volframita serve para fabricar satélites”, diz orgulhoso.

 

Explicação geológica: trata-se do minério de tungstato de ferro e manganês com fórmula química (Fe, Mn)WO4. Pode ser considerado uma mistura variável (entre 20 e 80%), isomorfa, de dois minerais: tungstato de ferro (FeWO4) e tungstato de manganês (MnWO4).

Quando a variedade do ferro é dominante (mais de 80%) o mineral é denominado ferberita e, quando a variedade manganês é dominante (também acima de 80%) é denominada hubnerita.

A volframita é um mineral com estrutura cristalina monoclínica, cor variando entre cinza, marrom (castanho) e preto, translúcido a opaco, brilho submetálico a resinoso, massa específica entre 7,0 e 7,5, e com dureza entre 5,0 e 5,5.

PIROLUSITA

Retornando a São Luís, pagou com recursos próprios o curso científico do Colégio Marista, chegando ao 3º ano.

Já conhecia a pirolusita* encontrada na Serra do Navio (AP), quando se interessou pelo curso de geologia e foi um dos 15 aprovados no vestibular da Universidade Federal do Pará, em Belém. Com estágio na Petrobras, recebeu proposta para trabalhar na estatal, mas preferiu a CPRM.

Com uma passagem recebida de prêmio, Vital foi até a serra, conheceu o geólogo Adroaldo Oton Zenker e passou a estudar minérios na prática. Foi quando se apaixonou pela pirolusita.

Em 1971 ele ingressou na antiga CPRM, hoje Serviço Geológico do Brasil, onde trabalho durante oito anos.

No final daquela década, passou a trabalhar no Projeto RadamBrasil**, em Goiânia, onde chefiou a equipe de dez geólogos responsáveis pelos levantamentos e estudos das plantas Goiás e Goiânia.

O MAIOR DIAMANTE DO MUNDO

Fazendo pesquisa e prospecção no município de Juína (noroeste de Mato Grosso), o geólogo presenciou em 1980 a descoberta daquele que foi considerado o maior diamante do mundo. “Nunca se soube exatamente o peso desse diamante pertencente ao garimpeiro Negão da anta”, lembra.

Vital era gerente adjunto de mineração na Sopeme, subsidiária da Deebers, um conglomerado de empresas e indústrias de mineração de diamantes a céu aberto que também se dedica, no subsolo em larga escala de aluvião, no mar profundo ou em encostas. Tem minas em Botswana, Namíbia, África do Sul e Canadá.

Segundo o Portal do Geólogo, em 1990, a despeito do crescente movimento que impulsionava o desenvolvimento do município, o panorama mineral “era apenas mais um exemplo dentre tantos no Brasil”.

“Branco e com nada menos do que 3.703 quilates, o Didi (nome provisório dado à pedra) foi encontrado num garimpo a 25 quilômetros do centro da cidade.

Por que DidiNegão da anta era parecido com o comediante Renato Aragão, assim a pedra foi inicialmente batizada.

“O garimpeiro fez muito segredo, procurou um avaliador de gemas, e esse profissional constatou que a pedra tinha lapidação natural, podendo receber pouquíssimas interferências para realçar seu brilho”, conta o portal.

“O jovem prefeito Hermes Bergamim comprou o diamante, que foi levado de camionete para Cuiabá, e de avião, foi para o Rio de Janeiro, onde o negociaram com um comprador de Bruxelas (Bélgica)”, conta Vital.

Em novembro de 2018, Bergamim morreu soterrado no garimpo Terra Roxa, naquele município.

O que mais se apurou é que a pedra possuía 300 quilates a mais que o Cullinan, antigo recordista, encontrado em 1905 em uma mina de Gauteng, África do Sul.

NA QUEDA DO AVIÃO, TODOS SOBREVIVERAM

Com a esposa, professora Mari Joemi

Ainda a serviço da Sopeme, teve que ir a Cuiabá, para receber a família procedente de Belém. Com hora marcada no táxi aéreo, saiu ainda de madrugada, com cinco passageiros, um dos quais pedia ao piloto para sobrevoar Tangará da Serra, consumindo mais combustível.

O susto foi grande quando o avião se aproximava do interior de Várzea Grande (onde fica o aeroporto internacional).

“Vocês me perdoem, mas nós todos vamos morrer” – disse-lhes angustiado o piloto, virando-se para eles, mais angustiados ainda.

Era um avião com asa alta, que felizmente foi planando, batendo a asa nas copas das árvores e, por último, caindo na beira de um lago. 

 

“Saímos todos machucados, eu com a testa bem ferida, e quando olhamos a ferragem retorcida percebemos o milagre: todos sobreviveram”, lembra Vital.

 

“Não se sabe de onde, apareceu uma faca e com ela consegui cortar o cinto de segurança que estava preso, e rimos muito porque até aqueles que temiam jacarés, criaram coragem para ir embora a pé”, recorda.

Vital dormia em Várzea Grande, encontrou-se com a família e dali seguiu viagem para o encontro anual da Deebers em Brasília, na qual se apreciam projetos do conglomerado em todo o País.

FOME NO PARU

No rio Paru, Vital e três geólogos passaram fome na floresta. Estavam isolados e ninguém sabia exatamente a sua localização.

Esse rio nasce na Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, banha o estado do Pará, cruza em toda a sua extensão o município de Almeirim, até desaguar na margem esquerda do rio Amazonas.

A equipe fazia para a CPRM o mapeamento geológico da região norte do Pará, a comida acabou, e durante mais de três dias só se bebia água. “Eu armei a rede, me deitei sem forças, e pra pegar água no rio usava uma lata de sardinha”.

Por sorte, um avião sobrevoou a área onde os geólogos trabalhavam e Vital conseguiu se comunicar com o piloto pelo aparelho radiotransmissor. “Aí, ele começou a jogar alimentos embrulhados e ensacados, e a gente ia buscar mais ou menos no rumo onde eles caíam”.

Outras aventuras: subir o rio Marupi, no Oiapoque e trabalhar na Transamazônica (BR-230), para pesquisas minerais. “Aprendemos muito na floresta”.

AMAZÔNIA PERUANA E BOM FUTURO

De 1987, ao deixar a Deebers, Vital trabalhou por conta própria até 1992, na pesquisa de ouro de aluvião em Puerto Maldonado (sudeste do Peru). “Fiz consultoria para empresas de lá e participei da introdução de tecnologias colombianas, entre as quais, balsas”.

Maldonado fica na floresta amazônica, a 55 quilômetros a oeste da fronteira boliviana, na confluência dos rios Tambopata e Madre de Dios , o último dos quais une o rio Madeira como afluente do Amazonas . É a capital da região de Madre de Dios.

Nos anos 1990, quando ele assessorava uma cooperativa de produtores de cassiterita em Bom Futuro (Ariquemes, a 200 quilômetros de Porto Velho), chegava à região o repórter Marcos Losenkan, da TV Globo.

Garimpo de diamante do Roosevelt, em Rondônia

O cenário foi risível, conta o geólogo: “Eu chegava ao escritório sujo de barro, o repórter me dizia que procurava o geólogo Vital, e eu me apresentei, mas demorou alguns minutos para ele acreditar em mim; iniciada a conversa, sugeri que ele conversasse com o presidente da cooperativa e com os garimpeiros”.

Vital foi o responsável pela planta da vila daquele que se tornou o maior garimpo a céu aberto do mundo, visitado por comitivas de deputados senadores e de governadores.

O DIAMANTE E RONDÔNIA

Quando participou de um congresso de povos indígenas com mineradores em Manaus (AM), Vital procurou no café da manhã o geólogo da Funai e se surpreendeu quando ele dissera não haver garimpeiros na região do Roosevelt, em Rondônia.

“Ele estava enganado, eu questionei: como é que morrem garimpeiros lá dentro?”.

Relatou ao colega de trabalho um pouco da situação, lamentando: “Enquanto ocorrem os ilícitos, alguns indígenas ganham dinheiro, outros vivem na miséria”.

No final do encontro, ambos concluíram: é preciso a regulamentação da política mineral, o que também implica modificações na própria Constituição Federal a respeito da exploração do subsolo.

________

Pirolusita é um mineral composto basicamente de dióxido de manganês. É tetragonal, geralmente colunar, maciço ou granular, preto a cinza-escuro, de brilho metálico, opaco, que suja os dedos quando manuseado.

** O Projeto Radam (Projeto Radar da Amazônia, após 1975, Projeto RadamBrasil, operado entre 1970 e 1985 no âmbito do Ministério das Minas e Energia, foi dedicado à cobertura de diversas regiões do território brasileiro (especialmente a Amazônia) por imagens aéreas de radar, captadas por avião. O uso do radar permitiu colher imagens da superfície, sob a densa cobertura de nuvens e florestas. Com base na interpretação dessas imagens foi realizado um amplo estudo integrado do meio físico e biótico das regiões abrangidas pelo projeto, que inclui textos analíticos e mapas temáticos sobre geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação, uso potencial da terra e capacidade de uso dos recursos naturais renováveis, que até hoje é utilizado como referência nas propostas de zoneamento ecológico da Amazônia brasileira [Wikipedia]

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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