Segunda-feira, 29 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

AI-12, tão violento quanto o AI-5


Foto: Acervo O Estado de S. Paulo - Gente de Opinião
Foto: Acervo O Estado de S. Paulo

Em 13 de dezembro de 1968, o marechal Costa e Silva, o segundo presidente da república depois do golpe militar de 1964, baixou o Ato Institucional nº 5, que formalizou a ditadura, dando-lhe instrumentos de poder absolutos. Oito meses depois, no dia 31 de agosto de 1969, o presidente já não pôde rubricar o AI-12, tão violento quanto o AI-5 – e seu complemento no trajeto para um período de violências.

Costa e Silva estava doente, vítima de uma trombose, que o levaria à morte. Se estivesse saudável, não aprovaria a iniciativa. Assinando o novo instrumento de força, os três ministros militares, que assumiram o governo como uma junta, impediram que o vice-presidente Pedro Aleixo substituísse o titular.

Ambos, o militar e o civil, foram eleitos por um colégio eleitoral reduzido, o Congresso Nacional. A ordem pública era regulada por uma constituição que o marechal Castello Branco, primeiro presidente militar, outorgara. O texto era autoritário, mas mantinha normas como a sucessão na chefia do poder executivo federal.

Assim como Castello escolhera para seu vice um político mineiro conservador,. José Maria Alkmin, Costa e Silva o repetira, convidando um dos mais respeitados políticos de Minas Gerais, o jurista Pedro Aleixo. Ele era também conservador, mas de posições liberais. Por isso, fora contrário ao AI-5, manifestando sua rejeição diretamente ao presidente. Com uma constituição forte, o regime podia dispensar um instrumento que, entre outras violências, suspendia o habeas corpus (criação jurídica brasileira) e as garantias dos magistrados e dos parlamentares.

Reunidos sigilosamente no Rio de Janeiro e exercendo intensa censura sobre os meios de comunicação, que impedia até o noticiário sobre a doença do presidente da república, os ministros do exército, da marinha e da aeronáutica mandaram buscar o vice em Brasília para lhe comunicar que seu mandato fora extinto (destino que teria o próprio mandato de Costa e Silva logo depois).

Este foi um dos momentos mais dramáticos da vida republicana brasileira. Pedro Aleixo foi convidado a seguir não para o Rio, mas para Belo Horizonte, onde teria apoio popular no segundo colégio eleitoral do país, tropa estadual e federal para utilizar e a constituição para ampará-lo. Poderia exigir que os chefes militares a cumprissem, mantendo a normalidade institucional do país, inclusive para a eventualidade de um retorno do presidente enfermo. Mas Pedro Aleixo se submeteu à ordem ilegítima dos militares e foi afastado do cargo.

Decisão semelhante esteve ao alcance de outro vice-presidente, sete anos antes. João Goulart poderia ter exigido o cumprimento integral da constituição em vigor, que o credenciava a substituir Jânio Quadros, que renunciara subitamente enquanto o vice viajava pela China, em missão que Jânio lhe dera, maquiavelicamente.

Jango teve o apoio do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, seu cunhado, do III Exército, o maior do país, comandado pelo general Machado Lopes, e de milhões de brasileiros que lhe deram mais votos do que o cabeça de chapa, o marechal Lott, derrotado por Jânio.

Poderia haver conflitos, mortes e até uma guerra civil? Poderia. Mas poderia também haver a repetição da batalha de Itararé, o mais famoso combate, que não chegou a acontecer.

Mesmo que a decisão de Goulart pelo respeito completo à constituição provocasse escaramuças, seria a oportunidade de testar a sempre anunciado respeito das forças armadas à sacralidade da constituição, que lhes cumpre defender. Como de outras vezes, essa diretriz foi substituída pela redução do poder de Jango através da emenda que instituiu o natimorto parlamentarismo.

Países mais adiantados do que o Brasil, como os Estados Unidos ou os europeus, colocados diante de desafios desse porte, decidiram enfrentá-los até suas últimas consequências para fortalecer o regime, as instituições e a sociedade. O Brasil sempre tem preferido recorrer ao “jeitinho”, uma perversão que ainda se permite o desplante de cultivar como coisa boa.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoSegunda-feira, 29 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O legado de Guedes é o estado (2)

O legado de Guedes é o estado (2)

Graças às diretrizes do ex-governador Humberto Guedes, o penúltimo do Território Federal de Rondônia, o antigo Ministério do Interior e a Superinten

Feira e Festival do IFRO mostram produtos do campo e divulgam conhecimento científico

Feira e Festival do IFRO mostram produtos do campo e divulgam conhecimento científico

Amostras da produção de pequenos produtores do campo rondoniense serão vistas de 26 a 28 deste mês, junho, das 8h às 22h, durante a III Feira da Agr

O legado do ex-governador Guedes é o estado (1)

O legado do ex-governador Guedes é o estado (1)

Duas décadas após deixar o cargo, o ex-governador do extinto Território Federal de Rondônia, Humberto da Silva Guedes caminhava lentamente pelo terr

No debate da saúde pública, servidor continua “saco de pancadas”

No debate da saúde pública, servidor continua “saco de pancadas”

Tudo passado a limpo, o Conselho Municipal de Saúde debateu hoje (16) a conhecida série de problemas que afligem o setor, elegendo 12 delegados para

Gente de Opinião Segunda-feira, 29 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)