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Montezuma Cruz

A hora e a vez da mandioca


 

RAIMUNDO NONATO BRABO ALVES (*)
 

Uma série de eventos favoráveis vem ocorrendo ultimamente, que nos leva a crer que a mandioca é a bola da vez. A aprovação pelos participantes do 13º Congresso Brasileiro de Mandioca da solicitação aos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário para incluir a mandioca na matriz energética brasileira. 

No mesmo congresso a publicação de que, na análise energética de sistemas de produção de etanol, a mandioca consome menos energia que a cana-de-açúcar e o milho, reiterando sua vocação para produção de biocombustíveis. A expectativa de lançamento do pão brasileiro com adição de 10% de fécula de mandioca, reduzindo o custo de nossa panificação. 

Na Amazônia a confirmação de produtividades de 40 toneladas de raiz por hectare em mandiocais bem conduzidos, a diversificação da produção da farinha para a fécula, com a instalação da primeira fecularia e a motivação de empresários para implantação de outras. São eventos que resgatam a mandioca à sua real importância como cultura da tradição brasileira, como atividade de geração de emprego e renda, sustentabilidade ambiental e promotora de desenvolvimento. 

A hora e a vez da mandioca  - Gente de Opinião

A mandioca produz etanol de boa qualidade, conforme testes feitos pela Embrapa Biotecnologia, em Planaltina-(DF) /M.CRUZ

A cultura foi de tal importância econômica no Império que a nossa primeira carta constitucional de 1823 foi denominada de Constituição da Mandioca, determinando uma área mínima em alqueires para o cidadão poder eleger ou ser eleito, mesmo que excluindo do processo, as camadas populares e os comerciantes portugueses. 

A mandioca como cultura sempre foi discriminada, inclusive de nossa história. Sempre se enfatizou que a conquista do sertão brasileiro pelos Bandeirantes, deu-se a custas da pata do boi. Sonegamos a informação de que as Entradas e Bandeiras só se viabilizaram graças à disponibilidade alimentar da proteína da carne salgada e dos carboidratos da farinha de mandioca. 

O Brasil em 1964 segundo a Fundação Getúlio Vargas era o primeiro produtor mundial de mandioca com 22,2 milhões de toneladas de raízes, na época com pouco mais de 60 milhões de habitantes. Em 1971 atingimos a produção máxima de 31 milhões de toneladas de raízes. Hoje produzimos 26,5 milhões de toneladas para uma população de 191,4 milhões de habitantes. 

Estamos lutando no Congresso Nacional para adicionar 10% de fécula de mandioca a nossa indústria de massas e panificação, quando no passado, a farinha de raspa de mandioca já foi adicionada a farinha de trigo tanto para panificação quanto na confeitaria. A mandioca já foi utilizada para produção de etanol, quando houve um mercado restrito de 1939 a 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. 

A hora e a vez da mandioca  - Gente de Opinião

Congresso de Botucatu decidiu pedir ao governo a inclusão dessa raiz na matriz energética brasileira /M.CRUZ

Esperamos que este momento favorável para a cultura da mandioca possa se reverter em benefício dos agricultores familiares, que pela sua necessidade alimentar foram ao longo de nossa história “fieis depositários” de sua diversidade genética, permitindo hoje as modernas técnicas de melhoramento genético para sua produção. Que políticas públicas possam orientar a organização de agricultores familiares em cooperativas de produção, permitindo o acesso desses agricultores à agregação de valores em sua transformação industrial, tanto para fécula quanto para etanol. 

Que a cultura seja valorizada pelos agentes de crédito, pois quando se consegue níveis de produtividade acima de 30 toneladas por hectare a lucratividade é acima de R$ 1 mil, rendimento compatível com poucas atividades do agronegócio. 

E que esta cultura saia da condição marginal de cultivo nos piores solos agrícolas e de pequenos plantios entre a porteira de grandes fazendas e as estradas, para transformar-se numa oportunidade para melhorar o nível de vida de nossos agricultores familiares, pelos milhares de assentamentos da reforma agrária espalhados por esse imenso Brasil. 

(*) É pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA).

Fonte: Montezuma Cruz - A Agênciaamazônia é parceira do Gentedeopinião

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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