Porto Velho (RO) quinta-feira, 16 de agosto de 2018
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Hiram Reis e Silva

Corrigindo um Erro Histórico - Parte II - Por Hiram Reis


Corrigindo um Erro Histórico - Parte II  - Por Hiram Reis - Gente de Opinião

O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido. (Aristóteles)

O poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram mas como deviam ser; e o historiador há de escrevê-las, não como deviam ser e sim como foram, sem acrescentar ou tirar nada à verdade. (Miguel de Cervantes)

Na terceira jornada da Expedição Centenária Roosevelt-Rondon, da Foz do Apa até Cáceres, MT, em agosto de 2017, o Dr. Marc Meyers comentou que a escritora Esther de Viveiros, no livro “Rondon Conta sua Vida”, afirmara que a Expedição, da Foz do Cuiabá, teria descido o Rio Paraguai até Corumbá e, depois, trocado de embarcação rumo à S. Luiz de Cáceres. Como estava me preparando para a “Descida do Rio Acre”, no mês de setembro, eu não tivera tempo de me preparar adequadamente para esta etapa da Expedição Centenária, consultando os relatos pretéritos dos participantes da Expedição Científica original e prometi ao caro amigo que me debruçaria sobre o problema tão logo concluísse minhas missões ‒ o que só aconteceria no mês de novembro.

Esther de Viveiros (02.01.2014)

Atingimos no dia seguinte ([1]) a confluência do São Lourenço ([2]) com o Paraguai, retomando o rumo que fora abandonado pela visita às duas fazendas. [...] Um dia mais e chegávamos a Corumbá ([3]). Seguimos, então, em um dos pequenos vapores ([4]) que faziam as linhas Corumbá-São Luís de Cáceres e Corumbá-Cuiabá. (VIVEIROS)

Os capítulos denominados “Expedição Científica Roosevelt-Rondon – A, B e C” do livro de Viveiros foram baseados no original, em inglês, “Through the Brazilian Wilderness” de Theodore Roosevelt, que foi editado pela primeira vez em dezembro de 1914. Parece que o equivocado parágrafo em que a autora advoga que a Expedição Científica da Foz do Cuiabá retornou à Corumbá e depois embarcou em um pequeno vapor levou em conta apenas um parágrafo fora do contexto, mal traduzido e interpretado, da obra de Roosevelt sem que a autora tivesse a preocupação de checar sua afirmação com o relato dos outros expedicionários. Vejamos o que dizem eles:


Roosevelt (02.01.2014)

No dia imediato descemos o São Lourenço até sua junção com o Paraguai e mais uma vez começamos a subir este último. [...]

Cinco parágrafos adiante, Roosevelt faz um comentário a respeito das dificuldades de se navegar neste trecho devido ao calado das embarcações:

A confluência do S. Lourenço e do Paraguai fica a um dia de viagem acima de Corumbá, de onde parte um serviço regular com vapores de pequeno calado para Cuiabá, acima do primeiro entroncamento, e para São Luiz de Cáceres, acima da segunda bifurcação. Os vapores não têm grande força e a viagem para cada uma dessas pequenas cidades dura uma semana. Há outras ramificações navegáveis. Acima de Cuiabá e Cáceres, as lanchas prosseguem rio acima em vários dias de viagem, exceto durante os períodos de maior estiagem. (ROOSEVELT)

Não apenas Theodore Roosevelt, foi muito claro que a Expedição subiu o Paraguai, a partir da Foz do Cuiabá, mas, também, Cândido Mariano da Silva, Amílcar Armando Botelho de Magalhães e o Comandante Heitor Xavier Pereira da Cunha:

Rondon

Depois da trabalhosa e improfícua jornada de 1° de janeiro, descemos o S. Lourenço ([5]) e entramos de novo no Rio Paraguai tomando o rumo de S. Luiz de Cáceres, águas acima. (RONDON)

Magalhães

Efetuadas estas ([6]), regressou o “Nyoac” a 02 de janeiro de 1914, descendo o Rio S. Lourenço ([7]) e passando a subir o Rio Paraguai, às 19h15, em demanda de S. Luis de Cáceres, aonde chegamos às 17h30 do dia 05 do mesmo mês. (MAGALHÃES, 1916)

Cunha

Descemos com o “Nyoac” até um bom pouso, e, ao clarear do dia seguinte ([8]), começamos a descer o Rio, desta vez com intenção de retornarmos ao Rio Paraguai, pelo qual deveríamos subir ainda muito. Com duas horas de viagem encontramos o Cuiabá, em cuja Foz nos despedimos dos companheiros que, seguindo na lancha, deveriam voltar à Fazenda S. João; algum tempo depois, atracávamos em S. José Velho, donde, depois de alguma demora, largamos águas abaixo até que, depois de navegarmos todo o dia, entramos, às 19h00, no caudaloso Paraguai. (CUNHA)


Fontes:
CUNHA, Comandante Heitor Xavier Pereira da. Viagens e Caçadas em Mato Grosso: Três Semanas em Companhia de Th. Roosevelt – Brasil – Rio de Janeiro – Livraria Francisco Alves, 1922.
MAGALHÃES, Amílcar Armando Botelho de. Anexo n° 5 –Relatório Apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon – Chefe da Comissão Brasileira – Brasil – Rio de Janeiro – , 1916
RONDON, Cândido Mariano da Silva. Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de Outubro de 1915 pelo Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Phenix do Rio de Janeiro Sobre os Trabalhos da Expedição Roosevelt-Rondon e da Comissão Telegráfica ‒ Brasil ‒ Rio de Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1916.
ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Companhia Editora Nacional, 1944
VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958.

 
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
E-mail: hiramrsilva@gmail.com;
Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

[1]    Dia seguinte: 02.01.1914.

[2]    São Lourenço: Cuiabá.

[3]    ???

[4]    ???

[5]    S. Lourenço: Cuiabá.

[6]    Estas: estas caçadas.

[7]    S. Lourenço: Cuiabá.

[8]    Dia seguinte: 02.01.1914.

Corrigindo um Erro Histórico - Parte II  - Por Hiram Reis - Gente de Opinião

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