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Francisco Matias

PORTO VELHO RUMO AOS CEM ANOS. 2014 – PARTE I



Por Francisco Matias(*)
 

PORTO VELHO RUMO AOS CEM ANOS. 2014 – PARTE I - Gente de Opinião
Foto publicada no livro Madeira-Mamoré, de Julio Nogueira,
o índio Pitt, com o D. W.Wilcox, cirurgião que o operou

1.O INDIO KARIPUNA -O município de Porto Velho, criado no dia 2 de outubro de 1914, por força da lei nº 757, de autoria do deputado estadual PEDRO DE ALCÂNTARA BARCELLAR,do Partido Republicano do Amazonas,PRA, e sancionada pelo governador JÔNATHAS DE FREITAS PEDROZA, completará 100 anos dentro de dez meses, aproximadamente. É uma trajetória e tanto para um município localizado nos confins sul do estado do Amazonas, desmembrado de Humaitá, do qual nunca foi distrito, mas Termo Judiciário. Muita coisa se passou, muitas aventuras viveu este município, muitas alterações de denominação e de estrutura geográfica. Já forjou várias sociedades e tem um cosmopolitismo latente no seu dia a dia e no tecido social. Um século. O seu primeiro século cheio de histórias do seu passado que ajudam a entender o seu presente e forjam o futuro.

2.Muitas de suas histórias estão na construção e funcionamento da ferroviaMadeira-Mamoré. Uma delas é a do índio KARIPUNA, que a minissérie Mad Maria trouxe do romance do escritor Marcio Sousa. E, sendo romance, muita coisa pode ocorrer dependendo da imaginação do autor. É o caso do Karipuna que, flagrado roubando alimentos de um acampamento da Madeira-Mamoré, tem os dois braços decepados a golpes de machado para o gaudio de uma turba sedenta de sangue. Mas a história, sem romance, teria sido mesmo assim? Afinal, o índio Karipuna teria existido mesmo, como se diz, na vida real? Sim, como veremos a seguir.

3.Sua história está vinculada ao funcionamento do Hospital da Candelária, e foi publicada pela primeira vez pelo jornalista e escritor Julio Nogueira, no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, edição de 31 de janeiro de 1913, como notícia sobre a ferrovia Madeira-Mamoré. Tempos depois, Julio Nogueira que esteve em Porto Velho no final de 1912, publicaria o Livro Madeira-Mamoré, com o patrocínio da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia,SPVEA. Portanto, os fatos relatados por este colunista em dois artigos, não serão, como costuma afirmar o “patrulheiro do 4 de julho” fraude grosseira, nem mentiras, nem aberrações históricas, apesar de serem contra a ideologia do “patrulheiro” e, portanto, alvo de suas costumeiras agressões eivadas de enganos. Vamos aos fatos conforme narrativa de Julio Nogueira, em 1913.

“Perto do leito da estrada, no ponto que ela atravessa o (rio) Mutum-Paraná, existia uma taba dos Caripunas, que espreitavam os trabalhos, se não em atitude hostil, pelo menos arredios e desconfiados. É voz corrente que certos índios supõem possesso de maus espíritos o enfermo cujos males resistem aos seus tratamentos e recursos medicinais, e, para conjurar a ação maligna desses mesmos espíritos, eles o abandonam ou expulsam de sua comunhão. Como quer que seja, o fato é que foi encontrado naquele ponto um índio caripuna, abandonado, com a perna direita gravemente danificada por úlcera, condenado a morrer dentro em pouco. Como único alimento, guardava uns restos de peixe já putrefato. Conhecer do fato, o Dr. Lovelace (Karl Lovelace, diretor do Hospital da Candelária) fez conduzir o índio para o hospital da Candelária, onde, após o tratamento preparatório que tal estado exigia, lhe foi amputada a perna enferma

“Ninguém lhe sabia o nome nem com ele podia se entender”, continua a narrativa de Julio Nogueira, “mas o espírito prático dos americanos supriu essa falta dando-lhe a alcunha de PITT – Hello, Pitt, how are you? E ai estava o antigo habitante das florestas mato-grossenses com um nome ilustre, que a velha Inglaterra tanto preza e respeita.” E vai mais longe a narrativa. “PITT, a princípio, perplexo e assustadiço, foi-se pouco a pouco habituando ao convívio de seus benfeitores. Quando em condições de se poder mover, recebeu uma perna de pau, a cujo uso se afez desde logo, e, mais tarde, cumulado de presentes e dando mostras de viva satisfação, era restituído ao coração da floresta, sendo conduzido até as margens do Mutum-Paraná, onde embarcou em uma casca de árvore para a maloca nativa.”

“PITT foi assim um nexo que se estabeleceu entre o pessoal da Estrada e os naturais de sua tribo. Mas, infelizmente, o cálice de amarguras do pobre selvagem ainda não estava esgotado. Um belo dia, PITT, que já tem a destra deformada por uma mordedura de serpe (sic) surge ainda uma vez em Candelária, e agora, quiçá, definitivamente, com a perna esquerda esmagada, a requisitar os serviços do hospital. Foi-se-lhe a outra perna em segunda intervenção cirúrgica inevitável. E não é tudo. Ele ainda teve arrancado o único dente que lhe restava, devido a tantas dores que sofria. Agora, ele movia-se sobre duas muletas, e passou a trabalhar na farmácia do hospital enchendo cápsulas com quinino, passeia nos trens, vai ao cinema, fala ao telefone, aprende inglês, ouve fonógrafo e mostra-se satisfeito com a vida que adotou”. Portanto, o indio caripuna não teve os dois braços amputados por uma turba violenta de empregados da ferrovia e não tocava piano com os dedos dos pés, como mostra o livro Mad Maria e mostrou a minissérie global. Ele teve as duas pernas amputadas por intervenções cirúrgicas no Hospital da Candelária.

Historiador e analista político*

Porto Velho, 27.01.2014, faltam 258 dias para o centenário do município

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