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Francisco Matias

PORTO VELHO, PEDRO BARCELLAR E JOAQUIM CATRAMBY


PORTO VELHO, PEDRO BARCELLAR E JOAQUIM CATRAMBY  - Gente de Opinião

 Vista noturna da cidade de Porto Velho em 2015,
criação do início do século XX de Percival Farqhuar,
Joaquim Catramby e Pedro Barcellar.

1.Com um século de existência como município criado e instalado noestado do Amazonas, Porto Velho recebeu o nome dado à sua povoação ferroviária, então dividida entre as posses territoriais dos seringais de bolivianos, italianos, peruanos e brasileiros, e da companhia anglo-canadense Madeira-Mamoré Railway Company. O município nasceu das reivindicações dos comerciantes, insatisfeitos com o monopólio da Madeira-Mamoré sobre a base econômica do 1º. Ciclo da Borracha na região. Nesse contexto sociopolítico indefinido entra em cena um médico itinerante, domiciliado na cidade de Humaitá. Seu nome: Dr. PEDRO DE ALCÃNTARA BARCELLAR, do Partido Republicano do Amazonas, PRA em campanha para deputado estadual nas eleições de 1912.

2.O candidato Pedro Barcellar era apoiado na povoação de Porto Velhopor importantes membros da sociedade que se formava, dentre os quais o capitão Esron de Menezes, delegado de polícia, o engenheiro Francisco Alves Erse, da Madeira-Mamoré; o Dr. José Vieira de Souza, tabelião, e pelos comerciantes Abrahão Alexandre, da firma Tadros & Cia., Salim Bouez, da firma Salim Bouez & Cia., Chucre Jacob Atalah, da firma Chucre Jacob e Irmão, pelo odontólogo Dr. João Feliciano Maciel, pelo médico Dr. Willian Emerick,  do Hospital da Candelária, e, sobretudo pelo  farmacêutico Arthur Napoleão Lebre, que tinha lá suas pretensões políticas.

3.Para conseguir votos na povoação de Porto Velho, o médico Pedro deAlcântara Barcellar comprometeu-se com a criação do município. Não deu outra. Eleito, apresentou na Assembleia Legislativa do Amazonas projeto de lei criando o município de Porto Velho. O projeto foi à sanção do governador Jonathas Pedrosa e transformou-se na Lei nº 757, publicada no dia 2 de outubro de 1914. No entanto, o Dr. PEDRO DE ALCÃNTARA BARCELLAR é uma dessas figuras políticas injustiçadas pela memória histórica de Porto Velho. É o criador do município e, como se verá a seguir, da cidade de Porto Velho. Médico conceituado, diretor do posto médico Leitão da Cunha, na cidade de Humaitá, ele atendia em Porto Velho na farmácia de Arthur Napoleão Lebre. Como médico e político, era profundo conhecedor dos problemas locais. Por isso, atuou politicamente para a criação do município, sem obstáculos da parte do município-mãe, Humaitá.

4.Mas, a lei de criação do município não unificou as duas povoações denominadas Porto Velho, nem tratou de elevar a povoação à categoria de da cidade. Mas, Pedro de Alcântara Barcellar foi eleito governador do Estado do Amazonas nas eleições de 1916, com votação expressiva em Porto Velho. Dentre as promessas de campanha para o município de Porto Velho estava a de unificar as duas povoações e elevá-la à cidade. Prego batido, ponta virada. Eleito governador do Amazonas, ele enviou à Assembleia Legislativa mensagem sobre a elevação da povoação de Porto Velho à categoria de cidade, propositura aprovada por maioria absoluta. Destarte, o governador sancionou a Lei nº 1.011/1919, nos seguintes termos:

5.LEI Nº 1.011 – DE 7 DE SETEMBRO DE 1919 – Eleva à cathegoria decidade a povoação de Porto Velho – O DOUTOR PEDRO DE ALCÂNTARA BARCELLAR, Governador do Estado do Amazonas: “Faço saber a todos os habitantes que a Assembléia Legislativa do Estado decreta e eu sanciono a seguinte LEI: Art. 1º - Fica elevada à cathegoria de cidade a povoação de Porto Velho, sede do município e comarca do mesmo nome, gosando de todas as prerrogativas constitucionaes”. Art. 2º - O Governo do Estado providenciará no sentido de ser reservada a área necessária para o patrimônio do Município. Art. 3º. O Sr. Secretário do Estado a mande imprimir, publicar e correr. Palácio do Governo, em Manaós, 7 de Setembro de 1919. Dr. PEDRO DE ALCÂNTARA BARCELLAR; Raymundo Nicolau da Silva.

7.O município de Porto Velho completou cem anos de criação no dia 02 de outubro de 2014 e cem anos de instalação em 24 de janeiro de 2015. Mas, a cidade de Porto Velho somente completará um século no dia 7 de setembro de 2019. A povoação, no entanto, completou cem anos no dia 04 de julho de 2007.Contudo, em consequência da ação do “patrulheiro do 4 de julho” as autoridades preferiram não comemorar. “Não há consenso”, me disse o então secretário da SECEL. “Não se trata de consenso, mas de fato histórico”, respondi-lhe. Mas de nada valeu, a sorte já estava lançada.  Seria de bom alvitre, pelo menos, a condução desse personagem da história política regional ao seu merecido lugar (nome de rua ou avenida, praça, posto médico, UPA, escola), para quando chegar o dia e data certos, Porto Velho tenha, pelo menos uma referência, tendo em vista o total e deliberado esquecimento histórico de personalidades como, por exemplo, o engenheiro Joaquim Catramby e o megainvestidor Percival Farqhuar, defenestrados pelo “patrulheiro do 4 de julho” como “esses gringos”.

8.Convém esclarecer que o engenheiro Joaquim Catramby era brasileiro.Infelizmente ele entrou para a história de Porto Velho pela porta dos fundos por sua ação como vencedor da licitação para a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. No entanto, sua ação é conhecida no meio das licitações pelo termo “encilhamento” que durante a velha República, era muito utilizado. O empresário nacional vencia uma licitação e, após ser homologada, transferia o contrato, mediante venda ou cotas societárias, a um investidor estrangeiro. Foi o que ele fez pois era testa-de-ferro do magnata Percival Farqhuar. Era, pois, um procedimento legal e aceito no mundo dos negócios, mas considerado aético e imoral.

Historiador e analista político(*)

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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