Porto Velho (RO) segunda-feira, 26 de outubro de 2020
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Gente de Opinião

Francisco Matias

GOVERNADOR JORGE TEIXEIRA


1. A trajetória do coronel Jorge Teixeira de Oliveira como governador de Rondônia, deve  ser estudada em duas fases distintas: a primeira como governante de Rondônia na condição de Território Federal, pronto para ser extinto; a segunda como mandatário do Estado de Rondônia, em sua fase inicial. Passaram-se 20 anos de sua morte, ocorrida no dia 28 de janeiro de 1987, no Rio de Janeiro. Mas já faz 28 anos que ele começou a influenciar na vida política rondoniense, depois de ter sido prefeito de Manaus e ver preterido seu projeto de tornar-se governador do estado do Amazonas. Em sua passagem por Rondônia, o Teixeirão, como gostava de ser chamado, deixou marcas e cicatrizes, Mas, sobretudo, projetou sua imagem de administrador competente, militar linha dura, centralizador e realizador. Era, como se dizia na época, um trator, cumpridor de ordens, disciplinado e disciplinador. Mas de político não tinha nada. Seu traquejo era castrense, sem o jogo de cintura que lhe permitisse mobilidade no xadrez da política local.

2. Nesses 20 anos, Jorge Teixeira, o "trator", o Teixeirão, ainda é lembrado e reverenciado por antigos aliados e adversários políticos. Ele soube como poucos atrair para suas hostes pessoas que seriam, se não soubesse usar o poder, ferrenhos adversários. Para presidir o seu partido, o PDS, ele escolheu alguém que era ideologicamente antagônico ao regime militar e foi buscar no ventre do PMDB o médico de Ji-Paraná Claudionor Roriz, abrindo dois flancos, sendo o mais vulnerável aquele em que estavam seus correligionários, como Leônidas Rachid, Odacir Soares, Galvão Modesto, Moreira Mendes e Assis Canuto. Para formar o governo, ele trouxe técnicos como Willian Cury, Chiquilito Erse, Reginaldo Vasconcelos, Hélio Máximo, Yeda Erse e José Renato Uchoa, entre outros, misturando pensamentos de direita e de esquerda, operando sob seu boné de pára-quedista (era formado na Escola das Forças Especiais dos EUA).

3. Ele tinha duas missões a cumprir: a primeira e a mais fácil consistia em dotar o Território Federal de Rondônia de infra-estrutura sócioeconômica para dar lugar ao Estado de Rondônia. A segunda missão, era a mais difícil, pois deveria ter resultado positivo nas primeiras eleições estaduais para senador e deputado federal. Era uma questão de Estado, de formar uma maioria para o regime militar, que o governante de plantão, general João Figueiredo, precisava no Congresso. Não há quem negue ou possa negar que o Estado de Rondônia recebeu de Jorge Teixeira toda sua estrutura política e econômica. E não se deve negar, porém, que o Estado retribuiu imortalizando seu nome em escolas, ruas, avenidas, logradouros e municípios (Governador Jorge Teixeira, na microrregião Jaru, e Teixeirópolis, na micro Ouro Preto). É o único ex-governador de Rondônia que tem um monumento (estátua erguida na avenida que leva o seu nome, em Porto Velho) e um memorial (jogado às traças, mas, enfim, um memorial), além de uma reconhecida folha de realizações que se perpetuam por todo o território rondoniense.

4. O coronel Jorge Teixeira de Oliveira não era político, não trafegava com desenvoltura na vida política e, por isso, não conseguiu se manter como  governador de Rondônia, apesar de estar sob proteção da Lei Complementar 41/1981, que criou o Estado. Mas, foi exatamente pelo flanco que ele deixou aberto, o dos aliados, que ele foi abatido. Demitido por telefone pelo presidente José Sarney, foi humilhado em praça pública, vaiado por uma claque convocada por uma parcela do PMDB. Era um homem doente, sofria de câncer ósseo, apesar de exibir uma imagem saudável e decidida. Ele morreu apenas dois anos depois de deixar o governo de Rondônia e deixou um legado político e administrativo dos mais importantes para a formação histórica do Estado. Mas é necessário que historiadores, cientistas políticos, sociológicos e o poder público deixem de lado as questões ideológicas, ou antigos ranços partidários, e organizam comissões de estudo para avaliar o governo do Teixeirão, antes que documentos e personagens que viveram o período desapareçam. Faço um apelo ao governador Ivo Cassol e aos empresários interessados, para que invistam na idéia de buscar o outro lado da história da criação do Estado de Rondônia. Investimento em historia e cultura. Eis a questão e o drama.

 

Fonte: Francisco Matias
Historiador e Analista

 

 

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