Porto Velho (RO) quinta-feira, 16 de agosto de 2018
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Gente de Opinião

Francisco Matias

A REPÚBLICA DE GALVEZ


 ANÁLISE DA HISTÓRIA

 
 A REPÚBLICA DE GALVEZ
 
Por Francisco Matias(*)
 
 
1. D. Luiz Galvez Rodrigues y Arias é um personagem da história regional que merece estudos mais atualizados sobre sua trajetória política e importância para a formação histórica do Acre e de Rondônia. A minissérie Amazônia, por misturar romance e realidade, pode distorcer alguns fatos como por exemplo, não revelar que D. Luiz Galvez fundou um País e não um Estado. Não havia para Galvez essa simplicidade política. Ele fundou uma República e é conhecido como o “imperador do Acre”, por isso, atraiu para si o ódio de muitos “coronéis de barranco”, o desprezo de antigos aliados políticos e, sobretudo, a pressão dos EUA e da Inglaterra sobre seu governo. Ele se considerava o dono de um país e buscou reconhecimento diplomático da França, do Brasil, dos EUA, da Espanha e da Itália. Pior ainda: despertou ainda mais os interesses  da Bolívia que passou a adotar novos posicionamentos pela posse do Acre, inclusive solicitando do governo brasileiro uma intervenção militar para derrubar o país da borracha fundado por D. Galvez.
 
2.Mas o governo brasileiro estava mais preocupado em consolidar o regime republicano do que em definir a questão acreana em favor dos brasileiros liderados por D. Galvez, um aventureiro espanhol, odiado pelos EUA, cujo secretário de governo era um italiano, Guilhermo Ulthoff, inviabilizando qualquer negociação com o Brasil. Com esta visão sobre o caso, o presidente Campos Sales autorizou ao Itamaraty a liberar a Bolívia para expulsar Galvez do Acre. E a Bolívia bem que tentou, enviando 300 soldados a Puerto Alonso, que o governo Galvez havia designado Cidade do Acre ( e não Porto Acre, como está na minissérie). Depois de alguns combates, as forças bolivianas foram rechaçadas pelo exército acreano, denominado Força Patriótica. Por conta das investidas bolivianas,   D. Galvez percebeu que estava para ser derrubado  do poder. Com medo de enfrentar o governo brasileiro, procurou demonstrar que seu governo era amigo do Brasil. Para externar essa posição, escolheu uma data simbólica, o 15 de novembro de 1899, quando o Brasil comemorava 10 anos da proclamação da República, para realizar uma grande festa na capital da República Independente do Acre “em patrióticas manifestações de amor e solidariedade à Pátria brasileira”. E fez mais o imperador do Acre. Mandou inscrever na bandeira acreana a mesma citação positivista contida na bandeira brasileira: “Ordem e Progresso”.
 
3. Mas não teve mais jeito. D.Luiz Galvez Rodrigues y Arias estava desagradando a todos, por suas decisões de governo. Imagine, sobretaxar a borracha e os suprimentos para os seringais! Não deu outra. A Inglaterra, principal financiador do Ciclo da Borracha, fomentou um levante tendo à frente alguns comandantes de navios, prejudicados pela falta de fretes e coronéis de barranco liderados pelo seringalista Antonio de Souza Braga, com o suporte do comandante do navio “Rio Afuá”. Em 1º de janeiro de 1900, Luiz Galvez sofreria sua primeira derrota e vê sua República desabar. O coronel Antonio de Souza Braga destituiu o país de Galvez e fundou o Estado Livre do Acre, anexo ao Brasil, (e não Estado Independente do Acre, como está na minissérie). Mas, o cearense Antonio de Souza Braga não era talhado para o poder e nem sabia se conduzir à frente de um governo tumultuado como era o do Acre. Em seu discurso de posse, a bordo do navio Rio Afuá, ele afirmou: “Se o Brasil mandar um só homem fardado, eu entrego tudo isso. Aos bolivianos, porém, não entrego”. Souza Braga governou apenas um mês quando renunciou em favor de ninguém menos que D. Luiz Galvez Rodriguez y Arias.
 
4.Galvez reassumiu o poder, mas tomou o cuidado de colocar como vice-presidente de sua reinstalada República Independente do Acre o poderoso coronel Joaquim Vitor, dono do seringal Bom Destino, conhecido revolucionário do Acre e respeitado coronel de barranco. Em menos de seis meses o Acre deixava de ser boliviano para se tornar uma República, depois um Estado Livre e novamente uma República. Mas, desta vez as pressões da Inglaterra e dos EUA sobre o Brasil foram mais contundentes. O Departamento de Estado norte-americano comunicou ao Itamaraty que se o Brasil não tomasse uma atitude contra Galvez, os EUA enviariam tropas para ocupar o Acre. O governo brasileiro resolveu agir e enviou uma força-tarefa composta pelos navios Jutaí, Juruena, Tefé e Tocantins, da Marinha de Guerra, e o vapor Belém conduzindo tropas de infantaria do Exército, para prender D. Luiz Galvez, derrubar o país da borracha e devolver o Acre à tutela boliviana. Desse modo, no dia 15 de março de 1900, uma quarta-feira, D. Luiz Galvez Rodrigues y Arias rendeu-se mais uma vez, agora a uma força tarefa do Brasil. O Acre estava novamente sobre o domínio da Bolívia, dos EUA, da França e da Inglaterra.
 
Do livro O Tratado de Petrópolis, Diplomacia e Guerra na Fronteira Oeste do Brasil, inédito, do Historiador e Analista Político Francisco Matias
Porto Velho 9.02.2007
 

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