Porto Velho (RO) domingo, 19 de agosto de 2018
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Francisco Matias

31 DE MARÇO: O APAGÃO DA DISCIPLINA


    ANÁLISE DA HISTÓRIA

 

1. A crise no sistema de vôos regulares do Brasil, provocada pela paralisação dos controladores no principal centro de controle de vôos do país, o Cindacta I, em Brasília, caiu como uma bomba no colo daqueles que teimam em esconder a história. Fala-se aqui do dia 31 de março, data em que ocorreu o golpe militar de 1964 que instalou 21 anos de ditadura no Brasil. Uma data que, decerto, não merece nenhuma comemoração, mas não pode passar em branco sob pena das novas gerações esquecerem do que houve e com o risco de surgir um lunático qualquer, de direita ou de esquerda, e pretender implantar outro regime ditatorial. Vontade é o que não falta em algumas lideranças de lado a lado. Pois bem. Neste sábado, 31 de março 2007, o país amanheceu com a notícia de que os sargentos especialistas da Aeronáutica, que constituem a maioria dos controladores de vôos, decidiram parar e não negociar com seus comandantes, por absoluto descrédito. Indisciplina pura ou realismo pelas constantes falhas no atendimento das pretensões da categoria? Indisciplina.

2. Diante desse posicionamento, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro-do-ar Saito, provavelmente obedecendo ordens do ministro da Defesa, Waldir Pires, decretou a prisão dos militares, nada menos que 18 sargentos controladores de vôo. Era o dia 30 de março 2007. Vésperas do 31 de março. Parece coincidência, mas no final de março de 1964, foram presos 500 praças das três forças, acusados de indisciplina, o que serviu de estopim para o golpe militar que apeou do poder o presidente João Goulart. Junto com ele e seu governo, o então chefe de gabinete da presidência, Waldir Pires, hoje, por ironia do destino, ele é ministro da Defesa no governo Lula. E foi como chefe das três Armas que ele ficou relegado a um terceiro plano, trancado em seu gabinete, sem poder e desautorizado pelo presidente Lula que mandou soltar os militares amotinados, abrir um canal de negociação e colocou na linha de frente o ministro do Planejamento. Waldir Pires viu desabar sobre seus ombros os 43 anos daquele 31 de março quando teve de deixar o governo e entrar na relação dos exilados. Agora ele está exilado em seu próprio cargo. Não manda nem desmanda. Foi desmoralizado e desautorizado. Junto com ele, o comandante da Aeronáutica. Junto com eles a disciplina, que, em nome da negociação e sem alternativas, o presidente Lula mandou quebrar.

3. Mas o que há no Brasil de hoje, que este 31 de março vai deixar marcado? O que está havendo no país onde um punhado de praças, especialistas da Aeronáutica, controladores de vôo levam ao total descontrole? Observe-se que em São Paulo, um passageiro tresloucado agrediu covardemente a uma funcionária de uma empresa aérea com um tapa no rosto ao vivo e a cores. Outro teve um infarto e morreu. Milhares de outros passageiros sofreram de tudo, principalmente de descaso do governo. O que há no Brasil que ninguém aparece para dizer que a culpa é do governo Lula? Medo? Cumplicidade? Fala-se de tudo. Culpa-se a todos, principalmente às companhias aéreas. Mas não se aponta o dedo para o principal culpado: o governo do presidente Lula. Se fosse outro governante, sem a proteção geral da chamada sociedade organizada, estava um "deus-nos-acuda" neste país. Políticos, sindicalistas, o bispo, o escambau, estariam culpando o governo. Neste caso, não. Salve-se a OAB nacional que pelo menos pediu uma CPI, nenhuma outra entidade se manifestou. Medo? Cumplicidade?

4.O certo é que o 31 de março 2007 lembrou como poucos, o 31 de março de 1964, e chama a uma reflexão: ditadura, jamais. Seja de direita, seja de esquerda. Pelo que se sabe, o Brasil vive um regime libertário, no qual todos os segmentos podem expressar suas opiniões. Por que, então, o silêncio? Por que estamos todos trancados no gabinete do ministro Waldir Pires? Por que estamos todos com a cara do comandante da Aeronáutica? Por que o governo Lula não agiu de pronto, cinco meses antes, quando o avião da Gol caiu depois de colidir com o Legacy, sabendo que era um problema ligado aos controladores de vôo? Por que a imprensa nacional se submete a esta situação dúbia de ser incisiva para uns e silente para outros? O que está havendo neste país? Só falta agora pedirmos ajuda ao "grande democrata" Hugo Chavez. Será que o deputado federal Fernando Gabeira tem mesmo razão quando afirmou que a maior parte da esquerda detesta a democracia, mas que usa apenas para alcançar o poder? É água de morro abaixo. Fogo de morro acima.

 

Fonte: Francisco Matias
Historiador e Analista Político  Porto Velho 

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