Porto Velho (RO) quinta-feira, 24 de setembro de 2020
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Gente de Opinião

Domingues Junior

Oito minutos



Foi uma queda assustadora e cruel. Durante oito minutos tive a esperança acelerada de que algo  pudesse mudar. Não tenho asas, e nem sei se as terei pra onde estou indo. Mesmo se as tivesse, naquela hora não serviriam de nada. Éramos 150 pessoas fechadas entre a vida e morte, dentro de uma longa e fria cabine. Também não sei dizer se  minha vida toda passou como um filme durante aqueles minutos finais, ou se ainda estou sonhando e as lembranças começaram a ir e vir só agora

Li em algum lugar que caímos 38 mil pés. E que os pilotos falaram com o comando seis mil pés antes do choque. Curioso eu saber disso agora e não poder falar com todos os que amo. 

Nem me lembrar direito se rezei, gritei ou chorei. Que estranho, mesmo agora ainda choro.  Acho  que estou vagando... desconectado. E dói sim, saber que tudo não passou de um flash, um sopro, uma vida que parece ter sido vivida ela também em apenas oito minutos.

Preferi não ficar vendo mais as manchetes. Estão aparecendo muitas fotos de gente chorando por nós. Tenho medo de me deparar com alguém lá de casa, gritando ou chamando de saudade.

Vi muitos filmes em que depois de tudo a gente caminha em direção a um túnel e uma luz deliciosamente doce nos leva ao encontro de outra terra, ou céu, como preferir. Não sei quanto tempo passou, mas percebi que estão me chamando. Não tem retorno mesmo. Sobreviver a algo como o que aconteceu,  me colocaria no patamar de herói-sobrevivente, ou um santo. Sinceramente seria egoísmo demais.

Melhor seguir em frente. Dei uma conferida atrás e não ganhei asas mesmo. Posso caminhar, embora não sinta os quilos a mais que já carregava há uns 20 anos. Lá vou eu. Possivelmente, já que descobri que aqui existe, irei encontrar pessoas que partiram antes, de outras formas tão distintas. Talvez este seja o lado bom da dor de sair de uma vida tão de repente.

Se conseguir voltar a escrever, eu te digo. Se bem que antes preciso dar um jeito de chegar ao fim do túnel. Nossa, nunca pensei que minha última frase seria um clichê. 

BENI DOMINGUES

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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