Porto Velho (RO) quinta-feira, 24 de setembro de 2020
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Gente de Opinião

Domingues Junior

Obituário


 
 
Ele sabia que já não se fazem mais obituários como antigamente. Nem
mesmo os jornais são feitos como antes. Aliás, poderia ser escrito um obituário para quase tudo, já que a maior parte das coisas de que nos
lembramos parece ter se perdido, ficado enterrada em algum lugar. Mesmo assim insistiu com a editora do jornal. 
Obituário - Gente de Opinião
Pediu, quase implorando, que ela publicasse aquela pequena homenagem para alguém que havia morrido. Pra piorar, a morte havia acontecido há 22 anos. Como explicar a publicação, numa página nobre, de uma nota
com a data de vencimento expirada há mais de duas décadas?
De tanto insistir ele a convenceu de ler o texto. Caso não gostasse podia simplesmente manter o não inicial. Sua atenção já era um bom caminho andado. E assim estava escrito:
 
Não acordou naquela manhã pela primeira vez em 51 anos. Seu coração
decidiu que era hora de parar de bater por aqui. Homem simples, pouca
vezes alguém ouviu de sua boca um palavrão ou uma frase em voz alta.
Era manso... Humilde no trato, amável no jeito, simples na conduta,
inteligente e bem informado. Trabalhou muito, a vida toda. Da roça pra
cidade, onde serviu o exército, foi barbeiro, estudou, virou bancário,
contador, corretor, vendedor, viajante. 
 
Até numa chácara chegou a levar a família pra morar. Para os filhos herança não deixou. Não dessas que se conta no banco. Mas o amor pelos livros, o gosto por modas de viola, o encanto pelo canto dos pássaros, pelo sabor do peixe pescado na hora, seu jeito de acreditar sem precisar ter fé e de ter
fé mesmo quando desconfiava.
Não era de ir à igreja; trazia uma reverência quase santa pela honestidade. Não roubava, nem no truco, na canastra, na sinuca, no xadrez. Gostava de um cigarrinho, lá de vez em quando, ou uma cachacinha de alambique. Tinha que ser das boas. Se era pra ter prazer, que ele fosse genuíno.
 
Adorava um bom Dodge Dart, ou um Charger RT. O Opala também era
paixão. Falava quase emocionado sobre a potência daquele motor, o ruído clicado da suave troca de marchas. Teve também seus fusquinhas.
E por um bom tempo carregou mulher e filhos numa velha e poderosa
bicicleta preta, Gallo. Por falar em filhos, além da esposa deixou os três bem criados, encaminhados, como diria. Não chegou a ver todos os netos. Quer dizer, não com os olhos que um dia contemplaram seu time quebrar um jejum de 23 anos na fila. 
 
Curioso como aquele coração aguentou tanto e ficou fraco por tão pouco. Nunca falou sobre uma possível doença. O Mal de Chagas, provável causa da morte, só surgiu como informação muito tempo depois. Morte que aconteceu num 21 de maio. Para evitar rompantes de socorro ele se foi quando os filhos estavam longe. Não houve despedida. Não do jeito que a imaginamos, ou desejamos. Foi um corte, um desligar sem  chance, uma parada obrigatória.
 
Seu nome? Deixo guardado no coração de filho. Você pode preencher com o nome de um pai amado. Se também estiver com saudade...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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