Porto Velho (RO) segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
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Dom Moacyr

Reconciliação transformadora! Por Dom Moacyr Grechi



Estamos vivendo um período de declínio, a partir do perfil dos políticos, “em sua maior parte incapazes de raciocinar em termos de justiça e de bem comum”; de “anestesia da mente juvenil, cada vez mais indiferente” à realidade, ao mundo, analisa o teólogo e professor Vito Mancuso. Para ele, o ponto específico do nosso tempo é a dificuldade de confessar o próprio mal, declarando-o publicamente como tal e encontrando percursos de reforma e de expiação.

A sociedade continua padecendo grandes perdas, e os pobres são os mais atingidos. Em favor do povo brasileiro, principalmente dos mais pobres, a Arquidiocese de Londrina manifestou apoio e solidariedade a toda e qualquer iniciativa que se oponha à proposta de reforma da Previdência.

Posicionando-se contra as propostas do Governo enviadas ao Congresso, entre as quais: a mudança de idade mínima para aposentadoria aos 65 anos para homens e mulheres, a extinção da aposentadoria especial para professores da educação básica, para trabalhadores rurais e outras que dificultam o acesso à aposentadoria de milhões de trabalhadores, a Nota destaca que os países que já fizeram a sua reforma do Sistema Previdenciário não foram tão injustos quanto quer se tornar o Brasil, pois essa proposta apresentada ao Congresso privilegia uma minoria, isto é, os que hoje usufruem de melhores condições de vida, em detrimento dos anseios da maioria dos trabalhadores que constroem a riqueza de nosso país.

Através de uma Carta, a Conferência dos Religiosos do Brasil alerta que “a Reforma da Previdência, na qual o Governo Federal busca alterar a Constituição Federal por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC n° 287), além de outros absurdos, no bojo dessa reforma, nossos representantes querem extinguir o direito à Filantropia a que muitas instituições beneficentes e de caridade tem direito; trata-se de um dos efeitos colaterais de contornos imprevisíveis que tal emenda produzirá contra os pobres dessa nação no presente e no futuro”.

Também, a Província Franciscana, através de seu Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, posicionou-se nessa semana “frontalmente contrária à Reforma da Previdência Social proposta pela PEC 287/2016, especialmente no que diz respeito ao aumento do tempo mínimo de contribuição para 49 anos e da idade mínima para 65 anos”, afirmando “com convicção que esta proposta é um verdadeiro ato de covardia com os mais pobres”. E questiona: a quem beneficia iniciativas dessa natureza? Por que não apostarmos em estratégias mais distributivas e justas? Por que, para uma minoria privilegiada, um sem-número de privilégios e, para a grande massa da população, a dureza de explicações pautadas em argumentos frios e desumanos, baseados na aridez dos números?

Iniciamos a Quaresma ouvindo o apelo à conversão, à mudança de vida, de mentalidade. Este é, portanto, o tempo oportuno “para olhar para dentro de nós” e a renovarmos nosso encontro pessoal com Jesus Cristo, aproximando-nos d’Ele, pois “é Ele quem nos converte” e nos reconduz ao verdadeiro caminho.

Mudar de vida, converter-se não é questão de um momento ou de um período do ano, é compromisso que dura toda a vida. Nesta semana, o papa nos convida, sob o lema “Eu quero misericórdia”, a vivermos um momento especial de penitência (“24 horas pelo Senhor”: dias 24 e 25), no qual somos chamados a celebrar a festa do perdão, através da oração e confissão.

No documento Misercordiae Vultus, o papa Francisco lançou um apelo de conversão: Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crime grave, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia (MV 19).

O sacramento da reconciliação deve ser entendido “com a mente e com o coração”, orienta-nos dom Bruno Forte, dessa forma, sentiremos a necessidade e a alegria de fazer experiência deste encontro, no qual Deus, dando-nos seu perdão mediante o ministro da Igreja, cria em nós um coração novo, dando-nos um Espírito novo, para que possamos viver uma existência reconciliada com Ele, conosco e com os outros, tornando-nos capazes de perdoar e amar, além de qualquer tentação de desconfiança e cansaço.

“Tu nos fizestes para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti” (Santo Agostinho). Fomos feitos para o encontro com este “Tu” inesgotável e encarnado que propõe a “vida verdadeira”, a que enche de verdade o coração humano. Quem tem feito esta experiência sente seu sabor de verdade e liberdade e não será nunca mais o mesmo para o resto de sua vida.

É do confronto com o Tu divino (ou com o ideal do bem e da justiça, ou com o princípio-responsabilidade, ou com outras instâncias éticas e espirituais) que nasce a inquietação do coração e, portanto, o desejo da confissão (VP). E “à medida que o sacramento da reconciliação atingir também os pecados sociais e estruturais, seguirá uma ação pastoral sempre mais moldada por uma reconciliação transformadora que não deixará as coisas como estão” (F. Sorrentino).

A liturgia do 3º domingo da Quaresma está centrada na transformação que se opera mediante o encontro e o reconhecimento do Ressuscitado (R.Gravel). Encontro que é reservado para aqueles que têm sede: sede de justiça, sede de dignidade, sede de perdão, sede de paz, sede de amor, sede de Deus.

No Evangelho de João, Jesus toma a iniciativa de ir ao encontro dos samaritanos, inimigos dos judeus. Estabelece um diálogo com a mulher, representante do povo da região da Samaria. Do diálogo nasce a compreensão; Jesus se revela: ele é a fonte de água viva.

Mas agora o encontro humaníssimo com Jesus transformou essa mulher em uma criatura nova, tornando-a testemunha e evangelizadora (E.Bianchi). Para a samaritana, testemunhar é, acima de tudo, recordar os eventos, contar a própria experiência: algo decisivo aconteceu na sua vida, e isso provocou nela uma mudança, uma conversão.

“A fé nasce da escuta” (Rm 10,17): da escuta de Jesus, nasceu a fé da samaritana, da escuta da samaritana nasceu a fé da sua gente. E, da fé procede o conhecimento; do conhecimento, o amor: esse é o evento cristão, admiravelmente resumido no encontro da samaritana com Jesus. Além de nos saciar, tornamo-nos fonte de água viva (Jo 4,5-42). Como a samaritana, tornamo-nos discípulos missionários (VP); após seu encontro com Cristo passa da escuta para o seguimento e tem coragem e forças para sair e ir anunciar Jesus.

O Livro do Êxodo mostra Deus caminhando com seu povo no deserto e saciando sua sede. Revela a pedagogia de Deus e dá-nos a chave para entender a sua lógica, manifestada em cada passo da história da salvação (Ex 17,3-7).

Paulo Apóstolo é o ministro da reconciliação (Rm 5,1-2.5-8). Deus acompanha o seu Povo em marcha pela história; e, apesar do pecado e da infidelidade, insiste em oferecer-lhe, de forma gratuita e incondicional, a salvação.

Na próxima 4ª feira, celebraremos o Dia Mundial da Água (22/3). A cada ano, a ONU escolhe um tema diferente para ser discutido que corresponde a um desafio atual ou futuro. Em 2016 o tema foi “Água e Empregos”, neste ano, “Água Residual” e em 2018: “Soluções Naturais para a Água”.

Celebrando São José (19/3), lembramos o Peregrino andante, desterrado com Deus, companheiro de Jesus e de Maria pelos caminhos da diáspora, família de Deus sem-terra e sem-teto, alma grande que não se entregou ao desespero nem se rendeu à descrença, cooperador da salvação, gota de suor e sangue a completar o cálice do Senhor, homem das longas caminhadas que, afinal, um dia, com Jesus de um lado e Maria do outro, atendeu ao último chamado de “levanta-te e vem”, para entrar na glória do Pai e colocar-se como o inspirador da passagem temida, mas querida, de voar para junto daquele que preparou uma apoteose para os carpinteiros de todos os tempos que o ajudaram a construir o Reino Salvador (Frei Hugo D. Baggio/Revista “Grande Sinal”).

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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