Porto Velho (RO) sábado, 27 de fevereiro de 2021
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Gente de Opinião

Dom Moacyr

Cultura do encontro e partilha na Amazônia!


 
Agosto, mês vocacional, tem como intenção: “Esporte, a cultura do encontro”. No mês em que se realizam as Olimpíadas, maior evento esportivo global, o papa Francisco afirma que “com o esporte, é possível construir a cultura do encontro entre todos, por um mundo de paz”. É possível “sonhar com o esporte como a prática da dignidade humana, convertida num veículo de fraternidade”!

Ao dirigir sua mensagem ao povo brasileiro, o papa enviou uma saudação especial à cidade do Rio de Janeiro, que está acolhendo atletas e torcedores do mundo inteiro. Manifestou votos de que o espírito dos Jogos Olímpicos, diante de um mundo sedento de paz, tolerância e reconciliação, possa inspirar a todos, participantes e espectadores, a combater o bom combate e a terminar juntos a corrida (2Tm 4,7-8), almejando alcançar como prêmio não uma medalha, mas algo muito mais valioso: a realização de uma civilização onde reine a solidariedade, fundada no reconhecimento de que todos somos membros de uma única família humana, independentemente das diferenças de cultura, cor da pele ou religião.

Aos brasileiros, que com sua característica alegria e hospitalidade organizam a Festa do Esporte, o papa manifestou o desejo que esta seja uma oportunidade para superar os momentos difíceis e comprometer-se a trabalhar em equipe para a construção de um país mais justo e mais seguro, apostando num futuro cheio de esperança e alegria.

E à equipe de Refugiados que pela primeira vez disputa uma Olimpíada, o papa desejou sucesso, acrescentando: Que a coragem e a força que trazem dentro de vocês possam transmitir, através dos Jogos Olímpicos, seu grito de fraternidade e de paz. Que através de vocês, a humanidade compreenda que a paz é possível e que, por meio dela, tudo se pode ganhar; ao invés, com a guerra, tudo se pode perder!

Outro momento importante no mês de agosto acontece de 15 a 21 de Agosto: a celebração do 4º centenário de fundação da cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará, e do 17º Congresso Eucarístico Nacional, realizado pela Arquidiocese de Belém, com o tema: “Eucaristia e Partilha na Amazônia Missionária” e o Lema: “Eles o reconheceram no partir do Pão”.

Para este importante evento que consagra a presença da Igreja na Amazônia, as comunidades celebram a Eucaristia como a razão da vida eclesial e o sentido pleno da ação evangelizadora. A Eucaristia gera a unidade da Igreja: Jesus Cristo, pelo Sacramento do seu Corpo e Sangue, cria a comunhão da sua Igreja, seu Corpo Místico.

Ao Cardeal dom Cláudio Hummes, enviado especial do Vaticano ao Congresso, o papa enviou uma mensagem destacando a família como uma igreja doméstica, lugar onde nasceram e cresceram gerações de cristãos e missionários. Na carta, expressa a necessidade de colocar em prática, em nosso tempo, o mandamento de Jesus “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho” e exorta a Igreja a fortalecer a fé do povo, lembrando a importância da vivência do amor na vida cotidiana.

Para o arcebispo de Belém, dom Alberto Taveira, desde o início a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, leigos, sacerdotes e bispos. Ao convocar o Brasil para celebrar com o povo amazônida a grandeza do Mistério da Eucaristia, dom Taveira reforça que a estação do Congresso Eucarístico é convocação a todo povo brasileiro, reunido e peregrino, para viver e testemunhar a vocação que é nossa e de toda a Igreja.

“Sabemos o quanto a Amazônia pode oferecer ao Mundo e à Igreja, para que nossa pobreza partilhada contribua para a edificação do Reino de Deus”. Em nossa Nazaré, inspirados pela devoção à Rainha da Amazônia, Nossa Senhora de Nazaré e por ela conduzidos, encontramos as indicações para vivermos os frutos pastorais do XVII Congresso Eucarístico Nacional, oferecendo-as como dom a todo o Brasil.

A liturgia deste domingo é um convite à fé: somos chamados a olhar para nossa própria história e per­ceber os sinais da fidelidade de Deus. Somos chamados a viver para aquilo que é definitivo. O fim para o qual vivemos reflete-se em cada uma de nossas ações. A cada momento pode chegar o fim de nossa vida.

O evangelista Lucas mostra nossa vida em sua dimensão verdadeira e pede-nos que sejamos vigilantes e responsáveis. Vigilância que não significa ficar de braços cruzados, mas assumir o bem da comunidade. O importante dessa mensagem do evangelho é que cada um, ao assumir no dia a dia as tarefas e, sobretudo, as pessoas que Deus lhe confiou, esteja preparando sua eterna e feliz presença junto a Cristo (Lc 12,32-48). Não podemos decepcionar a esperança em nós depositada (Konings).

O Livro da Sabedoria confirma que a vigilância é uma atitude bíblica; lembra-nos a noite em que Deus libertou seu povo da escravidão do Egito, todos estavam prontos para seguir seu único Senhor, que os conduziria através do mar Vermelho até o deserto (Sb 18,6-9).

A Carta aos Hebreus apresenta Abraão e Sara, modelos de fé para os crentes de todas as épocas. Atentos aos apelos de Deus, empenhados em responder aos seus desafios, conseguiram descobrir os bens futuros nas limitações e na caducidade da vida presente (Hb 11,1-2.8-19).

Preparemo-nos, portanto, para o definitivo de nossa vida, aquilo que permanece, mesmo depois da morte. Essa é uma mensagem difícil para o nosso tempo de imediatismo. Muitos nem querem pensar no que vem depois; contudo, a perspectiva do fim é inevitável. Já outros veem o sentido da vida na construção de um mundo novo, ainda que não seja para si mesmos, mas para seus filhos ou para as gerações futuras. Assim como os antigos judeus depositavam sua esperança de sobrevivência nos filhos, essas pessoas a depositam na sociedade do futuro. É nobre. Mas será suficiente?

Jesus abre uma perspectiva mais abrangente: um “tesouro” no céu, uma vida guardada junto a Deus. Até lá não chega a desintegração a que diariamente assistimos. Mas será que olhar para o céu não desvia nosso olhar da terra? Não leva à negação da realidade histórica, desta terra, da nova sociedade que construímos? Ou será, pelo contrário, uma valorização de tudo isso? Com efeito, mostrando como são provisórias a vida e a história, Jesus nos ensina a usá-las bem, para produzir o que ultrapassa a vida e a história: o amor, que nos torna semelhantes a Deus. Esse é o tesouro do céu, mas ele precisa ser granjeado aqui na terra.

Tal visão cristã acompanha os que se empenham pela construção de um mundo novo, solidário e igualitário, a fim de suplantar a atual sociedade, baseada no lucro individual. Contudo, não basta simplesmente manter-se nesse nível material, por mais que ele dê realismo ao empenho do amor e da justiça. A visão cristã acredita que a solidariedade exercida aqui e agora, na história, é confirmada para além dela. Ultrapassa nosso alcance humano. É a causa de Deus mesmo, confirmada por quem nos chamou à vida e nos faz existir.

À utopia histórica, a visão cristã acrescenta a fé, “prova de realidades que não se veem”. A fé, baseada na realidade definitiva que se revelou na ressurreição de Cristo, dá-nos a firmeza necessária para abandonar tudo em prol da realização última – a razão de nosso existir (VP).

Em tempos de multiplicação de pobrezas materiais e espirituais, de desconstrução da dignidade humana e globalização da indiferença, o papa fala das obras concretas de misericórdia e define o que é essencial para o cristão:

Olhar Jesus, olhar Jesus no faminto, no prisioneiro, no doente, no nu, em quem não tem trabalho, levar avante uma família.

Olhar Jesus nestes nossos irmãos e irmãs; olhar Jesus em quem está só, em quem está triste, em quem erra e precisa de conselho.

Em quem precisa percorrer o caminho com Ele em silêncio para se sentir acompanhado.

Estas são as obras que Jesus pede a nós. Olhar Jesus nestas pessoas. Por quê? Porque Jesus nos olha assim.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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