Porto Velho (RO) sábado, 27 de fevereiro de 2021
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Gente de Opinião

Dom Moacyr

Cidadania e participação da sociedade!


 
A citação de Santo Agostinho: “Tenho medo da graça que passa sem que eu perceba” esta relacionada com a forma como Deus visita seu povo e com o modo como Cristo se manifesta em nossa vida. Assim, a liturgia deste domingo e “o cenário que se desenha hoje”.

Atento aos sinais e à realidade, o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, do ISER, ajuda-nos a refletir sobre “o que está acontecendo por detrás dos jogos de cena onde aparecem os agentes visíveis (políticos, policiais, juízes, comunicadores, líderes sociais, agentes religiosos, etc), porque estão a serviço de alguma classe social” (Adital).

Como ponto de partida, a consideração da crise mundial do capitalismo, porque o Brasil está na periferia do sistema capitalista mundial e, como sempre acontece, é sobre a periferia que recai o ônus maior da crise mundial.

Hoje existe nova forma de guerra: a “guerra não convencional” que pode destruir um país sem recorrer à força das armas, porque usa instrumentos políticos, policiais e judiciais amparados por intensa desinformação midiática. O objetivo dessa guerra não convencional é quebrar a espinha dorsal do capitalismo brasileiro e passar seu controle às megaempresas mundiais. As classes dominantes do Brasil aceitam esse projeto porque são, desde a colonização portuguesa, o sócio minoritário do capital externo.

Embora tenham sido beneficiadas pelo modelo nacional-desenvolvimentista financiado pelo Estado, agora renunciam a esse modelo e submetem-se docilmente ao neoliberalismo imposto pelos grandes conglomerados corporativos transnacionais que mandam no mundo. A política de equilíbrio fiscal por eles imposta reduz drasticamente a capacidade de intervenção do Estado na economia, deixando que ela seja regulada apenas pelo mercado.

As classes dominantes tem demonstrado sua decisão de acabar até com essa pequena proteção do Estado aos pobres. Trata-se de colocar o País de joelhos diante das megaempresas que virão completar o processo de colonização da nossa economia, com a aprovação das classes dominantes.

Conscientes de que “a democracia não se realiza, de fato, quando o sistema econômico exclui parcelas da população dos meios necessários a uma vida digna” e que “a construção da democracia é a criação das condições necessárias para que os homens, como cidadãos, rompam o isolamento e sua desagregação social e ocupem o espaço público, através da discussão, da negociação, do diálogo e da decisão” (CNBB/Doc.42,69-70), o documento 91 “Por uma Reforma do Estado com participação democrática” insiste para que encontremos “saídas que apontem para o novo; que não fiquemos apenas na reflexão, mas que possamos construir gestos concretos rumo a um novo Estado e a uma necessária nova Democracia” (n.10).

Papa Francisco, na exortação “Evangelii Gaudium”, ao tratar da inclusão social dos pobres destaca o chamado para nos tornarmos “instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade”.

Ficar surdo a este clamor, quando somos instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projeto, porque esse pobre “clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo se tornaria para ti um pecado” (Dt 15, 9).

A Igreja reconhece que a exigência de ouvir este clamor deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a alguns: “A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças”.

Às vezes trata-se de ouvir o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra, porque “a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos”.

Para falarmos adequadamente dos nossos direitos, é preciso alongar mais o olhar e abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos ou de outras regiões do próprio país. Precisamos crescer numa solidariedade que permita a todos os povos tornarem-se artífices do seu destino, tal como cada pessoa é chamada a desenvolver-se (EG 186-192).

Na liturgia de hoje, a leitura do Livro do Gênesis é um exemplo de acolhida, hospitalidade e solidariedade: o hóspede é um dom para nós (Gn 18,1-10a). É Deus que nos visita através das pessoas.

Paulo Apóstolo sabe desta união de Deus e Cristo com o homem que lhes pertence. Seu sofrimento, ele o considera como a complementação, no seu próprio corpo, do sofrimento de Cristo. Ele leva em si o mistério escondido desde a eternidade, a realidade que só conhece quem dela participa, a esperança da glória, “Cristo em vós” (Cl 1,24-28). Foi desta identificação profunda com Cristo que ele tirou a força para seu surpreendente apostolado.

Mais importante do que fazer as coisas, é fazê-las de modo novo. Para isso, é preciso ouvir a palavra de Jesus, que mostra o que fazer e como fazer (BP). O evangelho fala da visita de Jesus à Marta e Maria e indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar (J.Konings).

Jesus não critica o serviço de Marta (Lc 10,38-42). Como poderia fazer se Ele mesmo está a ensinar a todos com o Seu exemplo de viver acolhendo, servindo e ajudando os demais? Jesus não contrapõe a vida ativa e a contemplativa, nem a escuta fiel da sua Palavra e o compromisso de viver na prática o Seu estilo de entrega aos demais. Alerta sim, para o perigo de viver absorvidos por um excesso de atividade, em agitação interior permanente, apagando em nós o Espírito, contagiando o nervosismo mais do que a paz e o amor (Pagola).

Escol¬her a melhor parte significa ouvir a Palavra de Jesus e colocar-se disponível para o caminho da cruz. Um discipulado fácil se contentaria, somente, em estar aos pés de Jesus. Mas os que passaram para a vida nova no batismo compreendem que o seguimento de Jesus não se restringe a ouvir a sua palavra, mas dispor-se ao exercício da justiça e do amor para com os outros, em observância ao mandamento do Mestre.

Escolher a melhor parte significa muitas vezes nossa opção pelas minorias: comunidades indígenas que ocupam o último lugar em nosso país, que sofrem todo tipo de “atentados aos seus direitos em benefício exclusivo dos interesses do agronegócio, do latifúndio e das corporações empresariais, de capital nacional e internacional, que as controlam” (CIMI).

Opção pelas comunidades rurais, pelo posicionamento e testemunho profético ante os conflitos agrários e combate à violência, articulando-se neste sentido com as lideranças e movimentos dos povos indígenas, ribeirinhos, extrativistas e quilombolas; pela retomada do trabalho de base com ênfase na formação considerando as questões de gênero e geracionais (jovens); no reforço às ações de resistência e permanência na terra através da agroecologia; no fortalecimento da organização interna ampliando a articulação com as igrejas e movimentos sociais diante dos desafios da problemática agrária em nosso Estado; na intensificação dos processos de comunicação das ações da CPT e dos camponeses (CPT).

Sobretudo, optando por “uma participação ativa da sociedade” nas Assembleias municipais.. para estabelecer o orçamento, depois as leis de diretrizes, os programas imediatos e as garantias de acompanhamento desses programas”.

Quando o cidadão deixar de ser expectador para ser também executor, nós teremos uma nova fase na caminhada da democracia nacional. É necessário descobrir formas novas para que haja uma corresponsabilidade, enriquecimento e aperfeiçoamento de todas as medidas que são necessárias para a promoção do bem comum” (Dom Luciano M. de Almeida).

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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