Porto Velho (RO) terça-feira, 1 de dezembro de 2020
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Gente de Opinião

Dom Moacyr

Advento: em defesa da vida dos povos indígenas !


 
 
     Estamos iniciando o tempo do Advento e um novo ano litúrgico (Ano A). Neste período, tomamos consciência “da obra salvífica de Deus na história do homem, da humanidade e do mundo” (J.Paulo II). Celebrando a história da salvação, revivemos a história orientada para o Cristo escondido no Antigo Testamento que sugere a leitura de nossa história como uma presença e uma espera de Cristo que vem.
     Advento significa redescobrir a centralidade de Cristo na história da salvação; recordar seus títulos messiânicos através das leituras bíblicas e das antífonas: Messias, Libertador, Salvador, Esperado das nações, Anunciado pelos profetas... Em seus títulos e funções, Cristo, revelado pelo Pai, converte-se no personagem central, chave do arco da história da salvação.Advento: em defesa da vida dos povos indígenas ! - Gente de Opinião
 
     É através do “adventus”, que quer dizer “vinda”, que Deus vem até você e aqui reside a dimensão fundamental de sua fé. Cada acontecimento em nossa vida, de grande ou pequena relevância, deve ser considerado uma vinda de Jesus. Em tudo o que acontece, ele está vindo ao nosso encontro, mostrando-nos nova esperança e novo caminho. O Senhor está no meio de nós!
 
     Nesta caminhada de fé, somos convidados a viver a esperança na vinda do Senhor em todos os seus aspectos: sua vinda (advento) há dois mil anos, ao fim dos tempos, sua vinda agora e a cada dia.
 
     São quatro semanas, nas quais de domingo a domingo, preparamo-nos para a vinda do Senhor: nesta 1ª semana do Advento o tema é a vinda do Senhor ao final dos tempos; nossa atitude é de vigilância. Na 2ª semana, o chamado, por meio de João Batista, é para “preparar os caminhos do Senhor”; nossa atitude é de permanente conversão. A 3ª semana fala da alegria messiânica, pois já está cada vez mais próximo o dia da vinda do Senhor. O tema da 4ª semana é o advento do Filho de Deus ao mundo, sendo Maria figura central e modelo de espera.
 
     Neste 1º domingo do Advento, Cristo “vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade” (prefácio). Um olhar desperto e atento ao mundo que nos cerca, mostra que estamos distantes do ideal de justiça e de paz (Is 2,1-5). Paulo Apóstolo pede que acordemos, renovemos nosso entusiasmo pelos valores do Evangelho e estejamos preparados para acolher “o Senhor que vem” (Rm 13,11-14). O Evangelho fala para aqueles que não têm tempo para Deus e sua comunidade, mas tem todo o tempo para a diversão e o prazer (Mt 24,37-44); pede-nos redobrar a atenção e a vigilância, ser seletivo e centralizar a vida no essencial,“acolher o Senhor que vem”; ser justo e solidário.
 
     As dioceses e paróquias no Brasil realizam a vigília em defesa da vida (30/11) neste início do Advento. O objetivo da “Vigília pela Vida Nascente” é inserir a vida no conteúdo da oração, para que seja reconhecido seu valor fundamentado na sua fonte divina. Reafirma que oMagistério da Igreja defende o direito à vida, bem primário fundamental, em qualquer fase de desenvolvimento ou condição em que se encontra. A vinda do filho de Deus para habitar entre nós, na condição de uma criança que nasce do ventre de uma mulher, é refletir sobre a vida que está nascendo e que se abre para uma esperança infinita.
 
     Neste Advento, assumimos a defesa da vida dos povos indígenas. A defesa da vida das minorias, formadas por aqueles que esperam, com firmeza permanente, mesmo diante das investidas contra seus direitos, da violência, assassinatos e criminalização.
 
     Em sua Declaração durante a mobilização nacional em defesa da constituição federal, dos direitos territoriais indígenas, quilombolas, de outras populações e da mãe natureza, caciques e lideranças indígenas de todo o Brasil, mobilizados em Brasília (1.500 representantes de mais de 100 povos distintos, de vários estados da Federação), repudiaram os ataques contra seus direitos originários e fundamentais, principalmente os direitos sagrados à terra, territórios e bens naturais garantidos pela Constituição Federal de 1988; fatos que contribuem para aumentar o acirramento de conflitos, a criminalização de suas comunidades e lideranças, enfim, a insegurança jurídica e social que perpetua o genocídio inaugurado pelos colonizadores contra os povos indígenas há 513 anos.

     De acordo com o relatório sobre a violência que atinge os povos indígenas, entre 2003 e 2011 foram assassinados 503 índios, dos quais 273 são do povo Guarani Kaiowá. “O aumento dos casos de violência que envolve, de um lado, latifundiários e grileiros e, de outro lado, lideranças e povos indígenas do Brasil, apontam para um novo genocídio” (D.Azevedo/Carta Maior).

 
     O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em sua XX Assembleia(11/2013), reafirmou seu “apoio incondicional ao protagonismo e autodeterminação dos povos indígenas”, denunciando os ataques e investidas contra os direitos à terra, o esbulho de territórios, a invasão, a violência, o racismo e a morte.
 
     Com os povos indígenas, originários de todo continente, Abya Yala, com os quilombolas, populações tradicionais, campesinos, com os empobrecidos e oprimidos, queremos renovar nossa profunda convicção de que mesmo que neguem a vida, decepem as árvores, é da raiz invencível que brotarão flores e frutos, mel e leite, novos projetos de sociedade, do Bem Viver defendido pelos povos ameríndios.
 
     Diante da angústia dos povos indígenas e agricultores e da omissão do governo em solucionar definitivamente os conflitos fundiários, a Igreja, através da CNBB, emitiu uma Nota oficial (27/11), pois,o momento é crítico e exige urgente e efetiva ação por parte do governo brasileiro em defesa da vida, da justiça e da paz entre indígenas e agricultores no país. Façamos nosso esse clamor:
 
     O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil- CNBB, reunido em Brasília, se une à angústia dos povos indígenas e agricultores diante da inércia do governo federal e dos respectivos governos estaduais em solucionar verdadeira e definitivamente os crescentes conflitos fundiários que envolvem estes nossos irmãos.
 
     Entendemos que a solução para esta situação passa necessariamente pelo reconhecimento do direito histórico e constitucional dos povos indígenas sobre suas terras tradicionais, bem como, pelo reconhecimento dos títulos de terra denominados de boa fé.
 
     Os entes federados, responsáveis pela emissão de títulos de propriedade sobre terras da União, devem assumir a responsabilidade pelo erro político-administrativo que cometeram e indenizar os agricultores que adquiriram de boa fé e pagaram pela terra onde vivem com suas famílias e formaram comunidades. Além disso, o Estado deve indenizar os agricultores pelas benfeitorias construídas sobre as terras e, aquelas famílias que desejarem ser reassentadas, precisam ter esse direito devidamente respeitado, como estabelece o decreto 1775/96, preferencialmente na mesma região.
 
     Não é aceitável a posição assumida pelo governo federal e pelos distintos governos estaduais neste processo. Impedir e protelar a solução desses problemas potencializa a insegurança, as angústias e os riscos de conflitos entre indígenas e agricultores, ambos vítimas de um modelo equivocado de ocupação do território brasileiro.
 
     A Igreja e seus ministros têm compromisso de evangelização e de pastoral com indígenas e agricultores. Neste compromisso, se colocam a serviço da vida plena. (DGAE 106). O momento é crítico e exige urgente e efetiva ação por parte do governo brasileiro em defesa da vida, da justiça e da paz entre indígenas e agricultores no país. Que Nossa Senhora, a mãe de todos os povos, olhe por seus filhos nesse momento de dor e preocupações (CNBB).
 
     Neste tempo de Advento, possam as palavras do papa Francisco na exortação apostólica “Evangelii Gaudium” iluminar a nossa reflexão e ajudar-nos a assumir a Causa dos povos indígenas e a luta em defesa da vida:
 
     A Igreja proclama o evangelho da paz (Ef 6,15) e está aberta à colaboração com todas as autoridades nacionais e internacionais para cuidar deste bem universal tão grande. O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade competem ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental na busca do desenvolvimento integral de todos(EG 239-241).

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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