Porto Velho (RO) segunda-feira, 20 de setembro de 2021
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Gente de Opinião

Beto Ramos

Diz a lenda – Sonho do menino


Por: Beto Ramos

 

- Acorda menino, vai lavar este rosto, teu olho tá cheio de remela!

- Desata este mosquiteiro e guarda esta lamparina!

- Mas, mãe...

- Cuida, levanta e vai comprar quatro pães massa grossa.

Gente de OpiniãoE aquele cheiro da casa da gente impregnando a saudade.

O menino levanta, olha aquela rua cheia de barro, com casas sem pintura.

Caminha lentamente.

Abre a porta, desce o batente.

Cachorros latem atrás de uma carroça.

Atracado na beira do rio Madeira, o Augusto Montenegro.

Vai o menino com os pés no chão.

No pensamento, a vontade de dar uma azulada lá pra beira do Igarapé Grande.

Com os cabelos sem pentear, o menino vai coçando a cabeça, talvez tenha recebido a visita dos bois do Carrasquinho.

Sentados em bancos na beira da calçada, dois homens comentam que o Gervásio jogou bem demais pelo Madureira.

- Este Gervásio vai longe!

Assim, o menino segue seu caminho para comprar os pães massa grossa.

A Maria Bico de Brasa passa toda faceira.

Logo em seguida também passa, a senhora que abria o guarda chuva no Lacerda na hora do filme Spartacus, achando que os trovões e raios eram do vera.

Ele consegue soletrar Magistral em algo caído no chão, na beira da rua.

Passam dois garotos e gritam que no fim de semana irão furar no circo.

Distante, ele ouve o trem passar.

Café com pão, café com pão, café com pão massa grossa.

E sorrindo ele responde: - Se eu me apressar peia não, peia não!

Ele não sabia que logo o trem calaria o seu apito para sempre.

Mal ele sabia, que na ladeira Comendador Centeno, o prédio da antiga Prefeitura ficaria abandonado, sendo jogados a devaneios fantasiosos de promessas não cumpridas.

Vem o menino.

Caminhando ao encontro do futuro.

Ao fechar os olhos, ele acordou de sua realidade, e não viu o pão em suas mãos.

Noé, Raposo, Parra, Garcia.

Tudo era apenas um sonho.

O passado há muito tempo havia ficado para trás.

Mas, o menino sentia o cheiro do café, do pão quentinho.

O menino transformou-se em sonho.

Basinho, cadê você?

Onde posso encontrar um Marau?

Meu velho poeta, vamos caminhar por nossas ruas, vamos rever os velhos álbuns, mexer nos guardados da nossa história e gritar que ainda somos meninos.

Vem o menino dentro de todos nós.

Com olhos cheios de remela.

Pés no chão.

Ainda com cheiro da fumaça da lamparina.

O menino da esperança nos trás este brilho nos olhos.

O menino escreve deste jeito, pois apenas é um menino.

Pedro Struthos,

Amém, amém!

Vamos reclamar para quem?

 

Diz a lenda

 

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