Porto Velho (RO) segunda-feira, 22 de julho de 2019
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PAPAGAIO VELHO APRENDE A FALAR?


  PAPAGAIO VELHO APRENDE A FALAR? - Gente de Opinião

William Haverly Martins

O Mobral foi a primeira demonstração de que nunca é tarde para se aprender. Agradava vivenciar a emoção da maturidade, ao balbuciar orgulhosa, numa página em branco: já sei assinar meu nome. Era o começo da tentativa de se acabar com o analfabetismo, a decodificação da linguagem escrita. Sem a continuação e o desenvolvimento do programa, estagnamos nos índices dos analfabetos estruturais e criamos uma nova legião de analfabetos funcionais, os capazes de entender apenas textos simples. Esta deficiência tem se estendido às escolas de ensino fundamental e médio. Mais recentemente muito se tem falado em analfabetismo funcional, os que sabem ler, mas se deixam levar pela emoção, deturpando, dentro de si mesmo, a compreensão.

No dizer de Claudio de Moura Castro: “As emoções fazem parte da vida. Mas podem estar no lugar certo ou errado. Insisto, antes da fúria, é preciso usar a razão para entender o que está sendo dito.” O que o articulista da revista Veja esqueceu de dizer é que o analfabeto emocional, embora invista na melhoria de sua capacidad PAPAGAIO VELHO APRENDE A FALAR? - Gente de Opiniãoe intelectual, não possui a percepção da falta de conhecimento interior, desconhece a força da emoção no turvamento da razão, o que complica na elaboração de um ponto de vista, sob tal efeito.

Parece simples, mas para isto, o sujeito, às vezes, precisa de análise, da utilização de ferramentas disponíveis no mundo dos psicólogos, dos psicanalistas, dos psiquiatras, da autoajuda. O aprendizado emocional é útil e tão importante quanto o aprendizado intelectual, mas requer consciência do problema e decisão para assumir atitudes, que possam, aos poucos, modificar o que está enraizado pelo tempo. Nas relações interpessoais, quem domina as emoções e utiliza sabiamente a hipocrisia social se integra mais facilmente ao meio, evitando discussões barbarizadas.

Recentemente acompanhamos com prazer um bate boca sadio, no mundo de dois articulistas de peso: Basinho X Zekatraca. O cronista Antonio Serpa do Amaral filho, um dos monstros da intelectualidade rondoniense, foi obrigado a recorrer aos ensinamentos equivocados do filósofo persa Mani (Manés, Maniqueu, maniqueísmo), para escrever um segundo texto, explicando o primeiro, porque o leitor Sílvio Santos, outro monstro da cultura regional, movido pelo sentimento e pela paixão que nutre pelo carnaval, contestou o conteúdo daqueles escritos de Antonio Serpa do Amaral Filho, sobre os prós e contras da Batalha de Confetes, ocorrida no Mercado Cultural, na segunda feira gorda deste ano.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos, ganhamos nós que muito aprendemos com a versatilidade do Basinho, com o amor do Zekatraca às coisas desta terra e com o comentário sobre o gostoso litígio, efetuado por Matias Mendes, dos honrados Mendes das barrancas do majestoso Guaporé.

Eu mesmo já fui vítima de interpretações erradas sobre meus escritos, ou já sofri interpretações “criativas” movidas pela emoção do leitor. Perturba-me mais quando a emoção me embaraça a oralidade, não há tempo para releituras. O saudoso professor Lourival Chagas costumava dizer que “as palavras têm alma”, precisamos vigiar a língua, ou treinar nossa emoção a agir com habilidade social.

Antes que os mais próximos acorram em minha direção com os dedos em riste, apresso-me a me anunciar um analfabeto emocional, ainda que desenvolvido intelectualmente. Mas venho despertando, aos poucos, para um processo de cura interior, adquirindo um razoável equilíbrio, necessário à convivência.

A ajuda terapêutica profissional ajudou-me a adquirir bases para o autoconhecimento. Estou em processo lento e gradual de alfabetização emocional, aproveito para agradecer a ajuda dos meus familiares e dos amigos Anísio Gorayeb, Viriato Moura e Ricardo Farias, que me toleram no dia a dia, mas são incansáveis no deixar rastros elucidativos, às margens das veredas problemáticas das relações interpessoais. Muito Obrigado!

A alfabetização emocional talvez seja a disciplina do futuro, uma nova revolução no ensino básico, ensinar ao jovem a maneira de manejar suas emoções e, principalmente, a se descobrir imperfeito: só mudaremos o mundo se mudarmos, inicialmente, a nós mesmos.

Papagaio velho aprende a falar, mas se nos tivessem ensinado desde cedo a relação entre emoção e razão, nos moldes da concisão alcançada por Gibran Khalil Gibran, teriam nos poupado desconfortos verbais geradores de ira e desprezo: “Quando chegar ao final daquilo que deve saber, estará no princípio do que deve sentir”.

Williamhaverly@gmail.com

Detalhes biográficos: baiano de nascimento, mas rondoniense de paixão, cursou Direito na UFBA e licenciou-se em Letras pela UNIR, é professor, escritor, presidente da ACRM – Associação Cultural Rio Madeira e vice-presidente da ACLER – Academia de Letras de Rondônia, onde ocupa a cadeira 31.             

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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