Porto Velho (RO) domingo, 15 de dezembro de 2019
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BENGALA, DIMDIM E CHICO LATA


BENGALA, DIMDIM E CHICO LATA - Gente de Opinião

William Haverly Martins

 

Ainda vivíamos o impacto da eleição de um presidente excêntrico, com votação das mais expressivas da história das eleições: ninguém até hoje entendeu sua renúncia, poucos meses depois de empossado, culminando com a complicada posse do vice, que descambou para a intentona militar de 1964. É desta época a frase “Le Brésil ce n’est pas um pays serieux” (O Brasil não é um país sério), atribuída pela imprensa francesa ao presidente Charles de Gaulle, mas que na verdade fora dita pelo embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza Filho, por ocasião das negociações em torno do que ficou conhecido como Guerra da Lagosta, entre 1961 e 1963.

O tempo não me apagou da memória os arroubos nacionalistas espalhados pelo Nordeste, o exército brasileiro, sob o comando de um general cearense, chegou a se mobilizar, temendo uma possível invasão francesa às costas nordestinas. A frase atribuída a de Gaulle reverberava, gerando protestos na imprensa tupiniquim.

Sob o império da juventude, escrevi vários artigos no Jornal Estudantil do colégio Marista onde estudava, contra este acinte do petulante europeu, lembrando-lhe a desordem mental que o levou a confundir vantagem com obliquidade. Lembrei-lhe também, em escritos intramuros, das vitórias dos Tamoios sobre os franceses nos campos de batalha do Rio de Janeiro, de nossos valores, de nossa cultura, de nosso futebol idolatrado pelos europeus, de nossa música tão admirada e de nosso povo, enfim, em nada inferior aos descendentes dos Luíses.

Na maturidade, ouvi o chamado da sibila da reflexão cartesiana, sugerindo-me duas das quatro regras básicas do discurso do método – verificar, analisar – a consciência pediu-me um crédito de perdão à frase brasileira atribuída equivocadamente a um francês. Abrão Slavutzky me ensinou que “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”. Destareflexão “verificada e analisada” cheguei à conclusão óbvia: são vários brasis, mas existe um Brasil sério..

(...) “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também” (...), durante muito tempo esta frase de um comercial de cigarro, colocada na boca do meia-armador da seleção tricampeã de 70, causou o maior estardalhaço e passou à história com o soberbo nome de “Lei de Gérson”. Geralmente as leis são circunstanciais, procedem aos fatos e são elaboradas para serem cumpridas, esta, no entanto, funciona às avessas, quem a segue corre o risco da punição: a Ação Penal 470, em curso no STF, põe no banco dos réus, tomara que na cadeia, o grupo que mais usou a Lei de Gérson nos últimos tempos - os mensaleiros petistas.

Há algum tempo Pelé apareceu na televisão, afirmando que o brasileiro não sabia votar, fiquei indignado: com que autoridade o Rei foi capaz de dizer isto? As eleições, ao longo da história, foram se encarregando de mostrar-me as piruetas eleitorais, os dribles nos eleitores: o voto conduzido, manipulado por marqueteiros.

Se juntarmos à frase supostamente dita por De Gaulle, a lei de Gérson e a tirada do Pelé, vamos descambar no tão manjado populismo: de Getúlio pra cá, veio se desenvolvendo, transformando-se num conjunto de truques usado pelos marqueteiros pra vender, ao povo, seu produto eleitoral. Verdadeiro aliciador das classes sociais, que consiste, basicamente, em enganar o povo com retórica, mediante um vínculo emocional e práticas demagógicas. Já é produto de exportação nacional para clientes sul-americanos.

O populismo, outrora festejado por vários partidos políticos, hoje negado pela classe, receosa da pecha de enganador, já esteve na pauta de psicólogos e neurocientistas: Por que se deixar enganar, por que muitos sentem prazer em serem enganados? Quais os porquês do enganador? Descobriram que alguns brasileiros sofrem de múltipla falência de seriedade, doença que atinge à razão, principalmente durante o período político: tanto quem se submete, quanto quem escolhe, padecem da virose, com agravante e atenuante, na proporção da educação e da classe social dos envolvidos. A vacina ainda está na fase dos desejos, mas já se antevê uma nova revolta das vacinas.

Alguns dos que se oferecem ao escrutínio, segundo tarimbados estudiosos da mente humana, nada mais querem do que o exercício da tão decantada Lei de Gérson - tirar vantagem. E, para tanto, abdicam da seriedade, usando e explorando os que não sabem o valor do voto, com artimanhas inimagináveis a um país sério.

São capazes de tudo: um destes colocou chapéu com chifres de toro na cabeça e saiu gritando em alto-falantes, pelas esquinas ignorantes da cidade: votem no corno, votem no corno! Mais adiante, ouviam-se novas excentricidades político-sociais, conforme as características e pretensões de cada um: votem na bengala, na sardinha, na sacoleira, na fumacinha, votem no dimdim, votem no chico lata, no gato felix, nos anjos, no padeiro, nos negreiros, no garçom, no doutor, no português, no raio que o parta.

E eu, que não votei em apelidos, politicamente correto, me vejo aplaudindo Joaquim Barbosa, indignado, estuprando meus neurônios acomodados, na tentativa de corrigir Charles De Gaulle, de pedir a anulação social da Lei de Gérson, de contrariar Pelé e de dizer ao povo, via mídias, para não acreditar em marqueteiros/populistas. Em vão!

No desfecho da minha reflexão/indignação, encontrei, envergonhado, meus/nossos olhos invertidos, olhando fundo pra dentro do ser universal, reconheci um defeito estrutural humano, shakespeariano, em processo de melhoramento civilizatório: em instantes de falta de seriedade, já usei/usamos a lei da vantagem, já votei/votamos por interesse pessoal e aliciei/aliciamos seguidores com a mais vil das retóricas - a hipocrisia!  Atire a primeira pedra quem nunca...

Williamhaverly@gmail.com

Detalhes biográficos: baiano de nascimento, mas rondoniense de paixão, cursou Direito na UFBA e licenciou-se em Letras pela UNIR, é professor, escritor, presidente da ACRM – Associação Cultural Rio Madeira e vice-presidente da ACLER – Academia de Letras de Rondônia, onde ocupa a cadeira 31.              

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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