Porto Velho (RO) sexta-feira, 24 de maio de 2019
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Amazônia Especial

O LONGO CAMINHO PARA O BATISMO NA FLORESTA


  

AMAZÔNIA:  
BRASIL IGNORA O MAIS IMPORTANTE 
BANCO GENÉTICO DO PLANETA  (XI)
 

 

Roberto Gueudeville   
 

O caminho para chegar à floresta foi difícil e cheio de ansiedade. Em 1954, com 18 anos,inicio dos anos dourados, cursava CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), em Salvador, experiência de grande valia na formação de uma personalidade forte e rija para quem sonhava conquistar o Brasil desconhecido (criei e editei, no CPOR, seu primeiro jornal – “O INFANTE”). Também tive o meu primeiro emprego na área de comunicação como revisor. 

Mas, continuava sonhando com a floresta! 

O LONGO CAMINHO PARA O BATISMO NA FLORESTA - Gente de Opinião

Militar fiel à democracia, General Henrique Teixeira Lott (D) 
garantiu JK (E). - Foto: web

Quando, como um estalo de vieira, veio a solução. Estagiar no Rio de Janeiro como Aspirante R2 de Infantaria e de lá, rumo ao Norte, aproveitando a oportunidade que o exército me dava. Em 1957, fui estagiário no REI – Regimento Escola de Infantaria, na Zona Militar do Rio de Janeiro, em Deodoro. Pela primeira vez vi de perto um canhão sem recuo que atira no ombro – invenção de um capitão de artilharia brasileiro, patenteado pelos americanos, segundo me informaram. 

Após o estágio do REI, tinha direito a outro, de 1 ano, como 2º Tenente. Queriam me mandar para Petrópolis, onde havia vaga. Agradeci. O desejo era Amazônia, Belém. Para conseguir, avisaram, tem que ter ordem do Ministro da Guerra, General Henrique Teixeira Lott. Morava na Tijuca, no Rio, e todos os dias, durante 90 dias, ia fardado ao palácio da Guerra, onde o ministro despachava. Um dia, alguém se apiedou do pobre aspirante sentado e ajudou-me. Lott, baixinho, careca, cortês recebeu-me amavelmente. 

- Para onde você quer ir, meu filho? 

- Para Belém, excelência, saio Aspirante do REI e tenho direito a mais 1 ano como 2º tenente. 

Ordenou ao Major seu secretário. 

- Veja onde tem vaga, no Norte.
Em pouco tempo o major, eficiente e rápido, falou: Temos vaga em Manaus, 27º Batalhão de Caçadores. Na minha ignorância de então, pensava que Manaus era pertinho de Belém. 

- Aceito Sr. Ministro! 

Foi um dos dias mais felizes de minha vida. Trêmulo diante de um general (nunca tinha visto um), o ministro percebeu minha satisfação e riu, também feliz. 

O avião, quadrimotor, um “Douglas Skymaster” levava dois dias para fazer Rio – Manaus, pingando pelo Nordeste. Era fevereiro de 1959 quando pisei em Manaus, uma cidadezinha simpática, com pouca iluminação bruxoleante (o nome corresponde à realidade). Dia seguinte chagava a minha promoção a 2º Tem. R2. Outro prêmio. 

Embora vivendo 1 ano numa cidade dentro da grande floresta, ainda não tinha chagado a hora do batismo. Queria ver árvores imensas de 40 a 60 metros de altura, grandes cobras e jacarés, macacos gritando e lindas aves coloridas. Queria conhecer o famoso uirapuru. 

Em 1960, o dia chegou. Meu futuro ex sogro, o sírio Amin Sayd, já falecido, convidou-me para trabalhar a seu lado, nos seus seringais no rio Pauinim, afluente do Purus, então considerado um rio leproso. 

Havia, realmente, muitas vitimas do mal, notadamente na colônia em, Boca do Acre, fronteira Acre/Amazonas, que tinha o famoso padre José como líder e protetor dos doentes. Grande espírito. 

Pouco experiente na vida e embalado pelo meu grande sonho – que permanece até hoje – não percebia que muitas vezes a glória e a desgraça se interpenetram. 

Meu batismo na Amazônia, se por um lado significou o inicio de uma conquista, por outro lado me mostrou um aspecto do inferno. 

Saímos de Manaus num barco de um patrício do velho Sayd com 80 toneladas, grande regatão que levava toda sorte de quinquilharias e trocava por peles de borracha, ao longo do rio Purus. A primeira porrada na minha consciência veio sem nenhuma cerimônia. Essa gente vinha da Síria e do Líbano sem eira e nem beira. Ajudados uns com os outros, enriquecem trocando uma simples agulha de costura por uma pele de onça (não havia nenhuma lei protegendo a fauna). Dificilmente os pobres seringueiros (seus clientes) tinham o saldo que mereciam, se houvesse mais respeito a seu trabalho. 

A segunda porrada veio da natureza, também sem avisar. Quando o barco maior me deixou na “boca” (foz) do rio Pauini. Tivemos que subi-lo por três ou quatro dias mergulhados na mais terrível nuvem de mosquito no mundo, pium até 18 horas, quando entra o carapanã, o da malária. No seringal, a vida mostrava ao jovem tenente que o inferno é aqui. Tema de minha primeira reportagem. 

Fonte: Roberto Gueudeville (Encaminhado por Sílvio Persivo ao Portal Gentedeopinião).   

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