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Paulo Saldanha

PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

Tempo – uma inafastável e cruel constatação

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES

13/06/2017 - [18:12] - Opinião


Como todos os meninos de qualquer época, eu tive oito anos e não me preocupava com o futuro! Ante essa despreocupação, ainda sonolento, todas as manhãs de 1954 eu ia ao Colégio Nossa Senhora do Calvário e dele voltava; e na visão da criança que existia em mim, cursando o primário, durante o período escolar era como se eu passasse 30 anos naquele vai-e-vem.

É que o tempo se passava na dimensão e no compasso da queda da chuva fina e fria...

Como todos os adolescentes, por sinal, já um tanto ansioso aos 15 anos (fase do meu amadurecimento mais intenso, pela perda da minha mãe), eu já me preocupava com o futuro, porém ainda não tinha a noção exata de todas as responsabilidades que chegariam, até porque o tempo demorava a passar e os dias substituíam as minhas quase bem dormidas noites, numa lentidão que me enervava.

Como todos os jovens, caminhando para a maturidade, conseqüência natural na trajetória dos humanos, eis que passei a me descobrir mais questionador; porém o tempo inabalável continuava marchando num ritmo lento, a despeito do meu interesse pessoal em desejar acelerá-lo.

E como todos os adultos em busca do equilíbrio e sensatez, já com 33 anos, fui desejando dar corda no relógio do tempo, o qual insistia em caminhar devagar; e, de soslaio, sentia que a torcida constituída pelos homens e mulheres da minha geração também desejava apressar os passos desse “sujeito com tantos predicados”.

Aos poucos fui assimilando através dos meus sentidos que o tempo parecia querer enganar-me...  Péssimo aluno de física e de matemática que fui, um dia li que o tempo é, na visão do Albert Einstein, “...uma ilusão. A distinção entre o passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão...”

Será?

E os cinquenta anos me surpreenderam “tão distraído que, assustado, eu disse não!” Pois me vi envelhecendo, saudoso dos meus tempos de criança.

E a maturidade dos sessenta chegou de mansinho e “me pegou tão desarmado, arranhando o meu coração”, mas me tocou profundamente, posto ter começado, então, a rever alguns conceitos; e pude ver a única vantagem palpável que eu recebia ao ingressar na terceira idade: passei a ter prioridade nas filas das lotéricas e dos bancos, assim como nos assentos destinados àqueles da minha faixa etária nos ônibus... Embora enganado pelo INSS e pela previdência privada, aos quais, ao longo de mais de 30 anos, paguei contribuições elevadas sob o argumento de que me aposentariam com condições de ter uma velhice digna. Ledo engano!

E os setenta chegaram sem pedir licença, como quem chega do nada; e de forma contundente me colheram com a passagem de um filho muito querido, modificando o meu pensar de antanho (palavra antiga), pois passei a solicitar encarecidamente ao tempo para que ele não corresse tanto, pois adoro a vida e quero curtir mais meus amigos, a família, meus filhos e netos.

E concluí que preciso de tempo! Assim, dando novo sentido à minha existência, optei por pedir calma ao tempo, haja vista a constatação pela vertente da sabedoria de que correr muito pode resultar em imprudência, ensejando anotações na carteira, multas e outras penalidades...

 

Conta e Tempo

Frei António das Chagas

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...

 


Comentários

  • Hugo Evangelista da Silva - 14/06/2017

    Grande Paulo, majestosa tua crônica! Belíssima a reflexão! Lindo o soneto! Abraços.

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