Porto Velho,
Rss Canal YouTube Facebook Twitter

Paulo Saldanha

PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

Soberba, enfia a tua viola no saco - Por Paulo Saldanha

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES

19/06/2017 - [19:03] - Opinião


Conheço diversas histórias nesta Amazônia de Deus (Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará e Mato Grosso), por onde trilhei caminhos por conta da minha profissão; narrativas que tiveram, muitas vezes, o mesmo princípio, meio e fim...

Conheci, por exemplo, o nascimento de trajetórias de homens que chegaram pobres a um determinado lugar, mas que, mercê do trabalho fecundo nos seringais ou no comércio, puderam prosperar.

Desses, uns permaneceram humildes; outros, não! Alguns continuaram simples, porém suas famílias, que não conheceram as dificuldades vivenciadas pelo patriarca, tornaram-se soberbas e não se misturavam com outros núcleos menos abastados, muito embora tivessem sido geradas a partir de muito suor, sangue e lágrimas. As famílias iam crescendo, os filhos tornavam-se adultos, os negócios iam evoluindo na dimensão da arrogância que envolvia o clã. Seus integrantes quase não cumprimentavam os demais “de fora”, a não ser aqueles que julgavam à altura do seu próprio status, conceito social e saldo bancário.

Pobres de espírito! Afinal, a Bíblia nos adverte que “A soberba precede a ruína, o espírito arrogante vem antes da queda.”

Dentre essas várias histórias, lembro-me de uma em particular - porque ficou bem marcada para mim – sobre o amor entre dois jovens nascidos em Abunã. O rapaz tinha por pais um casal que, lamentavelmente, por conta de um incêndio criminoso, perdera toneladas e toneladas de castanha, armazenadas num depósito e que seriam enviadas para venda em Manaus. Sendo seringalistas em ascensão, possuíam uma área que também era rica nos castanhais, razão de atuarem paralelamente nessa atividade. Só que toda a colheita da Bertholletia excelsadaquele ano havia sido perdida, o que foi considerada verdadeira tragédia. O ganho de capital derivado da venda desse produto asseguraria a fabricação das pélas de borracha, a iniciar-se em abril seguinte.

Daquele fato negativo em diante, aquela família, alvo do desastre, não conseguia recuperar-se financeiramente; o banco não se sensibilizava em financiar-lhe a produção e nenhum aviador desejava correr riscos, embora reconhecessem a idoneidade moral do empresário.

Nesse meio tempo, a afeição nutrida no amor era a mais eloqüente demonstração de sentimentos observada pelos demais na troca de olhares entre os dois enamorados, lá em Abunã.

Porém, desde o infortúnio da família do rapaz e com esta sofrendo os problemas financeiros dele decorrentes, a família da moça passou a ver com olhos nada alvissareiros aquele namoro que poderia desembocar num casamento que não lhe interessava, e daí a decisão de “cortar o mal pela raiz”: mandaram a moça estudar em Porto Alegre sem o direito de retornar nas férias.

Afastado da namorada, o rapaz, ao concluir o curso de contabilidade e em razão das dificuldades econômicas dos seus pais, rumou em direção ao Ceará, onde tinha uns tios que lhe prometeram guarida.

Tempos depois, vendo que o vínculo com o antigo namorado tinha se exaurido em decorrência da distância e pela ausência de notícias entre ambos, sem o risco de haver uma “recaída”, os pais da menina a trouxeram de volta a Abunã. E até lhe falaram que o tal moço estava de casamento marcado com uma guria lá de Fortaleza, para arrefecer de vez qualquer sentimento por ele que nela restasse.

Na solidão do seu quarto a mocinha amargou a sua desilusão, e posteriormente aceitou a corte do filho de um ricaço da região, aproximação que foi incentivada pelos seus pais. Relapso, o tal filho de família abastada não valorizou a oportunidade de poder estudar e se formar, conforme idealizado pelos seus provedores. Não cresceu intelectualmente, mas imaginava ele que o dinheiro da família um dia seria seu sem ter que fazer qualquer esforço...

Enquanto isso, inteligente, sagaz e talentoso, o antigo namorado da moça buscou esquecê-la através dos estudos, aos quais se direcionou com afinco.  Dois títulos de graduação, alguns anos depois, premiaram a sua dedicação mais extremada. Bem capacitado, em pouco tempo logrou diversas promoções na empresa privada onde começou como estagiário, e já chefiava um dos seus departamentos mais importantes, voltado para a exportação.

Ele casou-se lá no Ceará, e ela em Abunã. Lá, ele prosperou! Nesse ínterim, os negócios da família da mocinha definharam... Abunã foi decaindo mais e mais, e a economia regional foi toda ela para o brejo. A atividade gumífera determinou perdas enormes, resultado do fracasso nas mais diversificadas atividades extrativistas de todo o entorno do local, que incluíam o couro animal e castanha do Brasil.

O marido da mocinha, estagnado no tempo, escorava as suas frustrações na bebida, rendendo à esposa, em face das comparações que fazia entre esse e seu ex-namorado, inevitáveis decepções e lamúrias. Não tiveram filhos, e um dia se separaram!

E o outro rapaz lá em Fortaleza, que sempre recordava da garota do Abunã, esgotada a chance de retomar o vínculo com a sua antiga princesa, constituiu a família dos seus sonhos com outra mulher. Entretanto, nas suas doces lembranças, o rosto daquela mocinha lhe sobrevinha recorrentemente. Para superar essas cinzentas fases nostálgicas, seus três filhos davam à sua vida a cor de que precisava.

Enquanto isso, a mocinha do Abunã, sozinha e sem filhos, ficou amarga, decepcionada pela ausência de emoções de vida, privada delas que foi pelos seus pais - naquela altura, já falecidos - e que, em face da arrogância e da soberba, não lhe permitiram ser feliz da forma como ela bem queria...


Comentários

  • Sandra Castiel - 20/06/2017

    É, amigo, são histórias da vida real, histórias que fazem parte do acervo de memórias de quem já viveu bastante, como nós. Sua história deve ser real, mas tem um final triste; o rapaz encontrou novo amor, constituiu família, é verdade. Mas a lembrança da mocinha do passado ainda o persegue vida afora, pelo que pude perceber; isto acontece quando o amor não é vivido plenamente. Acho que o rapaz ainda ama a mocinha. Gosto muito de seu jeito de contar histórias!

  • paulo cruz rodrigues - 20/06/2017

    Paulinho, estou a concluir a leitura do livro TERRA CAÍDA de José Potiguar, Promotor Federal que morou no Acre, personagem ilustre que conheci pessoalmente, a quando de uma das minhas andanças acreanas (insisto no acreano ao invés de acriano) nas terras (seringl-fazenda) de BI Roque teu e meu ilutre amigo. Àquela época já havia lido o livro emprestado pelo nosso amigo Hélio Strutos Arouca, pessoa muito ligada ao Acre. Pois bem, lido o livro, lá pelo Acre onde vivi por 10 anos devo ter relido por mais umas 3 vezes de tanto que gostava do tipo de narrativa. Hoje mais uma vez estou a reler TERRA CAÍDA e o encanto é o mesmo de há 40 anos atrás. Agora, venho a deparar-me com a tua narrativa que somado ao livro, me levaram a ter a absoluta certeza de que sou um saudosista inveterado das coisas da nossa aldeia. Enquanto escritores do teu quilate contarem coisas da nossa região, terás sempre um leitor agradecido a beber, no bom sentido, o conhecimento que exala dessa tua alma cabocla.

Preencha o formulário abaixo e clique em "Comentar" para enviar seu comentário


ComentÁrios Facebook


Mais Notícias

publicidade

E-mail: [email protected] - [email protected]

Diretor Comercial Luiz Carlos Ferreira - Jornalista Responsavél Luka Ribeiro

Telefone: (69) 3221 4532 e (69) 3221 4532

Endereço: Av Getulio Vargas 2086 - Sala Comercial 5 , Bairro: Nossa Senhora das Graças - CEP: 76804-114

Cidade/Estado: Porto Velho/RO

É autorizada a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação,
eletrônico ou impresso, informando a fonte em nome de Gente de Opinião

Gente de Opinião | Copyright © 2017 | Todos os direitos reservados