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Francisco Matias

Francisco Matias - Historiador e Analista Político Porto Velho - autor do livro "PIONEIROS" - 1998. E-mail: secaonorte@hotmail.com

UMA VIAGEM PELA MADEIRA-MAMORÉ – PARTE 1

16/05/2012 - [18:22] - Opinião


Por Francisco Matias(*)

1.No ano em que a ferrovia Madeira-Mamoré completa um século, esta coluna convida a você para uma viagem pela ferrovia do diabo. Aproveite para pensar nos dramas vivenciados pelas pessoas envolvidas no projeto, nas mortes e em tudo aquilo que faz desta via férrea famosa por representar na história os exageros, os mitos, os fantasmas, muito mais do que aquilo que realmente foi. Vamos embarcar. Estamos na estação Madeira, o km zero dos 366 km de sua extensão. É abril de 1950 e uma chuva forte está caindo sobre a pequena e movimentada cidade de Porto Velho, capital do Território Federal do Guaporé. São sete horas da manhã e o trem horário vai partir. O maquinista é um negro barbadiano, cujo sobrenome pode ser Shokness, Holder, Mendes, Johnson ou Mallender, não se sabe ao certo. Mas pode-se ver que ele está agitado é alto, magro e orgulhoso do que faz. A estação está lotada. Passageiros se misturam com os comerciantes que estão em busca de suas mercadorias, e transeuntes que vieram se despedir de parentes e amigos. Além disso, tem vendedores de tudo o que se pode comprar para a viagem. Até tartarugas se vende por aqui. O destino final é a estação Mamoré, em Guajará Mirim, fronteira com a Bolívia. Por isso, pode-se observar vários bolivianos embarcando, mas também alguns gregos, árabes e nordestinos estão tomando seus lugares. A maioria dos passageiros é formada por homens, por isso os cigarros, charutos e cachimbos parecem fazer concorrência com a Maria Fumaça, que está “soltando brasa” pelas ventas. É a locomotiva 12, a “Church” que vai puxar os vagões. “O trem vai partir”, anuncia o funcionário que cuida do embarque.

2.O trem começa a mover-se. A fumaça invade os vagões. Aos poucos, a estação vai ficando para trás. A cidade também. É só olhar à direita que se poderá ver o contraponto do rio Madeira que desce e do trem que sobe. São antagônicos entre si. Afinal, a Madeira-Mamoré foi construída para vencer o trecho encachoeirado do Madeira e do Mamoré. Serão vinte os acidentes hidrográficos a superar: quinze no Madeira e cinco no Mamoré. Desses, são três saltos, sete corredeiras e dez cachoeiras. A primeira é a cachoeira de Santo Antonio, a última é a cachoeira Guajará-Mirim. E vamos lá. Apenas três km depois, avistamos as rochas que formam a cachoeira Santo Antonio. O trem havia cruzado o bairro do Triângulo e estava na vila Candelária. Depois na vila de Santo Antonio, onde faz a primeira parada na estação do mesmo nome. Ah!, Santo Antonio, já foi a cidade proibida, o início deste sonho e pesadelo da Madeira-Mamoré. E o trem parte mais uma vez. O apito é o sinal. Vez ou outra as árvores frondosas da Amazônia encobrem a visão que se tem das águas caudalosas do rio Madeira. O apito do trem anuncia a próxima parada: Teotônio. A demora é pouca. O trem segue destino, afinal, serão vinte e quatro horas de viagem de Porto Velho a Guajará Mirim. Tem muito trilho a percorrer. Surge depois da curva a parada de Luzitânia, antes de chegar à estação Jacy-Paraná, onde o trem passa no meio da ponte metálica. O barulho é ensurdecedor. Quase não se pode conversar, mas todos falam ao mesmo tempo. Parecem felizes.

3.Após o almoço na vila de Jacy-Paraná, o trem segue viagem para a próxima parada: Caldeirão do Inferno. Em seguida vai parar no Girau. Em ambas as paradas dá para ver a força desses dois acidentes hidrográficos. O Girau é salto e o Caldeirão é cachoeira, também chamada Cachoeiras dos Perdidos. As águas são revoltas. Não tinha mesmo como fazer navegação. A ferrovia foi a alternativa mais acertada. O rio Madeira, em alguns trechos, parece aproximar-se da linha férrea. Ali em frente está a ponte metálica do Mutum-Paraná. Todos olham. Por um momento o silêncio se faz sentir. Só o barulho da locomotiva. O trem para. A bomba d´agua de Mutum é acionada. O trem segue viagem e vamos entrar na reta do Abunã, dizem que é a maior reta ferroviária do mundo. São mais de 40 km. O por do sol anuncia: Abunã está próxima. Vamos dormir no hotel da ferrovia. Só seguiremos viagem pela manhã. Aqui encontramos o trem que veio de Guajará Mirim. O pernoite é para todos em Abunã, região aonde o rio Madeira recebe o rio Abunã. É o início da fronteira Brasil-Bolívia. Quando amanhece, o trem parte. O apito é às seis da manhã. Vamos para Penha Colorada, depois Taquara. Em cada uma dessas paradas ou sobe ou desce alguém. Mais à frente tem a ponte metálica sobre o rio Araras e, depois, Periquitos. A viagem está tranquila não fosse pela fuligem que teima em cobrir como uma nuvem negra os caríssimos paletós de linho branco que alguns comerciantes e seringalistas costumam usar. Chegamos a Chocolatal. A parada é de trinta minutos. O trem parte para Ribeirão, depois vai parar em Misericórdia, a última parada do rio Madeira. A próxima é a estação de Vila Murtinho, no rio Mamoré. Do outro lado é Vila Bela, na Bolívia. No meio, as nascentes do rio Madeira. Nesse ponto, o trem deixa o rio Madeira para margear um dos seus dois formadores: o rio Mamoré. O outro é o Beni. Vamos passar em mais duas paradas: Iatinha e Iata, esta é uma colônia agrícola de fronteira recém implantada pelo governo, formada em sua maioria por cearenses, cuja produção de grãos e hortifrutigranjeiros abastece a cidade de Guajará Mirim.

4.De longe vislumbramos a cachoeira Guajará Mirim, depois de o trem margear as cachoeiras de Lajes, Bananeiras e Guajará Açu. Ao por do sol chegamos à estação Mamoré. Estamos em Guajará Mirim. Do outro lado é Porto Sucre, cidade boliviana que será denominada Guayaramerin. A estação Mamoré não é grande como a estação Madeira, em Porto Velho. Mas é muito movimentada. Dessa estação muitos passageiros irão cruzar o rio para a Bolívia. Outros subirão o rio em direção aos seringais onde trabalham. Mas, uma boa parte vai ficar em Guajará Mirim, uma pequena cidade no ponto final da ferrovia Madeira-Mamoré. O cansaço toma conta de todos. A viagem foi longa e lenta. Mas chegamos. Segundo dizem, a gente parte mas não sabe quando chega, na ferrovia Madeira-Mamoré. Pois é. Você precisa ver como é que é andar no trem da Madeira-Mamoré. O trem que parte do oeste do Brasil, de Porto Velho até Guajará Mirim...No próximo artigo, vamos fazer a segunda viagem pela Madeira-Mamoré.

Historiador e analista político(*)
 

Comentários

  • Netto Nascimento - Interação - 30/11/2012

    Sabe tudo nosso sábio professor. Ótimo artigo.

  • Neide Portela Reis - 05/08/2012

    Dessa forma professor, fica muito mais facil e prazeroso entender a historia de Rondonia.

  • katia regina - 01/07/2012

    EXCELENTE O ARTIGO. ESSE PROFESSOR É UM GENIO. um verdadeiro historiador de Rondonia

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