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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

O Petróleo Jorra no Mar


O Petróleo Jorra no Mar - Gente de Opinião

Bagé, RS, 28.01.2026

 


Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 882, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 15.03.1969

 

O Petróleo Jorra no Mar


(Reportagem de Gervásio Batista)

 

 

Durante quase uma hora, tudo o que vejo é o Céu limpo sobre o Mar de ondas fortes da costa sergipana. Mas a cerca de vinte quilômetros de Aracaju surge no horizonte um ponto obscuro, cujas formas vão se definindo à medida que nos aproximamos. É um verdadeiro monstro de ferro, dotado de pernas mergulhadas na água. Do seu corpo, de forma semelhante a um ferro de engomar, erguem-se uma torre cônica e várias estruturas fixas. Na extremidade de uma delas acha-se suspenso um prato metálico, a dezenas de metros de altura, onde eventualmente pousam helicópteros. O barulho de máquinas é ensurdecedor. A manobra de acostamento da pequena embarcação em que viajo é lenta e perigosa. O desembarque, difícil. Um guindaste suspende uma rede de cordas e dentro dela subo os 17 metros que separam a lancha do piso do edifício triangular, onde quase meia centena de homens trabalham, alimentam-se, dormem e divertem-se como podem.

 

Estou na plataforma “Vinegarron”, alugada a uma firma norte-americana pela Petrobras. A sua função é abrir poços de milhares de metros de profundidade, em terrenos cobertos pelo Oceano, a fim de localizar jazidas de óleo e gás, cuja existência foi antes indicada pela pesquisa geológica. Antes da II Guerra Mundial, os geólogos voltaram as suas vistas para as plataformas continentais, na suposição de que esses prolongamentos das terras firmes também guardavam jazidas de petróleo e gás. Suas esperanças foram plenamente justificadas: nos últimos dez anos, alguns dos mais significativos achados petrolíferos foram feitos em áreas cobertas pelas águas – Golfo Pérsico, Golfo do México, Mar do Norte.

 

Neste último, os reservatórios descobertos foram enormes e estão exercendo benéfica influência sobre a economia dos Países dedicados à exploração, principalmente Holanda e Grã-Bretanha. O Brasil, com uma costa das mais extensas e uma plataforma continental de centenas de milhares de quilômetros quadrados, estendendo-se do Norte do Rio de Janeiro à foz do Amazonas, não ficaria alheio à nova corrida ao ouro negro.

 

Nas Plataformas Continentais Estão Sendo Encontradas as Mais Ricas Jazidasde Petróleo e Gás dos Últimos Anos

 

Há alguns anos, a Petrobras deu início ao trabalho de pesquisa e em 1968 começou o programa de perfuração, utilizando justamente esta sonda especial que agora visitamos. A primeira perfuração a cargo da “Vinegarron” ocorreu na costa do Espírito Santo. Resultado: seco, embora o furo tenha fornecido aos geólogos muitos dados interessantes sobre a estrutura da plataforma. Em seguida, a sonda foi deslocada para uma zona mais promissora, o litoral sergipano. De agosto a dezembro do ano passado, aí foi aberto um poço, com o qual se confirmou a presença de petróleo. A segunda perfuração da área é esta. No dia em que a visito, a broca já chegara aos 2.700 metros.

 

Em janeiro, numa profundidade um pouco menor, registrou-se um jorro de óleo: 200 barris vieram à superfície, durante um teste de 35 minutos. Isto pode significar que, em condições normais, a produção do poço chegue aos sete mil barris diários, mais do que podem produzir alguns pequenos campos do Recôncavo Baiano. Mas a perfuração prosseguirá até os quatro mil metros, pois os geólogos desejam reunir maiores informações sobre a estrutura do subsolo.

 

A responsabilidade pela operação da “Vinegarron” é da própria companhia empreiteira. Mas a Petrobras mantém a bordo a sua equipe de controle e apoio: um engenheiro, dois geólogos e vários operadores. Os resultados do trabalho são comunicados e analisados diariamente por um novo órgão da empresa, em funcionamento desde abril do ano passado: o SEPLAL – Serviços Especiais da Plataforma Continental.

 

Dos quarenta tripulantes da “Vinegarron”, apenas seis são norte-americanos: um “pusher” (chefe do pessoal especializado), dois chefes de máquinas, dois sondadores e um operador de rádio. A convivência a bordo é excelente. Como os seus colegas brasileiros, os americanos vibram cada vez que um teste é encerrado com resultados positivos. Dentre os nacionais, há veteranos, com experiência de perfuração em regiões inóspitas: areais da costa maranhense, selva amazônica, pantanal mato-grossense.

 

Buscar Petróleo no Mar é Trabalho Para Homens Fortes, Afeitos às Tarefas Mais Pesadas e Resistentes à Solidão

 

Aqui, pelo menos não há mosquitos.

 

Diz um deles. Esta é uma das poucas compensações para a solidão, a dureza da tarefa e a falta de recreio a bordo desta balsa cercada de tubarões, distanciada 22 km da capital sergipana. O regime de trabalho é pesado: turnos de 12 horas, durante 15 dias consecutivos. Após esse período, são mandados a terra, quer dizer, a Aracaju, onde também não há muito com que se divertir. Descansam cinco dias, trabalham outros dez nos escritórios da Petrobras e em seguida voltam para o Mar. É praticamente impossível afastar-se da plataforma durante o período de atividade.

Conta o geólogo Delzec:

 

No princípio, costumávamos tomar banho de Mar perto da sonda. Mas os tubarões não tardaram a aparecer, atraídos pelos restos de comida atirados à água. Com este anzol, já pesquei um tubarão de 180 quilos.

 

Os homens gozam de todas as comodidades possíveis dentro de um espaço tão limitado quanto este. Fazem três refeições por dia. Preparar tal volume de comida é trabalho bastante para manter ocupados o dia inteiro os dois responsáveis pela cozinha, mas assim mesmo insuficiente para que se conformem com a solidão e a rotina da vida de bordo. O cozinheiro, carioca, reclama:

 

Às vezes, tenho a impressão de que estou num presídio.

 

Completa o seu auxiliar:

 

E o pior, é que não temos nem mesmo o movimento da rua para olharmos pela janela.

 

Rogério Alves Dias, engenheiro com largas temporadas na Amazônia, é dos poucos que não se queixam. Mas acaba por confessar o seu desejo de, em breve, conseguir uma promoção que lhe permita viver com a família na Guanabara. Delly Oliveira, que o substitui nas folgas periódicas, apesar de recém-casado, não se deixa abater e continua entusiasmado.

 

O dia-a-dia dos norte-americanos não é melhor do que o dos brasileiros, embora o seu regime de trabalho seja diferente, pois se revezam em turnos de sete dias. Mas enquanto permanecem em atividade, a rotina é a mesma. Para quebrá-la um pouco, um dos seus recursos é cobrir as paredes dos alojamentos com fotografias de garotas, recortadas de revistas estrangeiras.

 

Na “Vinegarron”, Brasileiros e Norte-Americanos Vivem as Mesmas Dificuldades e

Participam das Mesmas Alegrias

 

Defronte à costa alagoana há outra plataforma de perfuração submarina, esta de propriedade da Petrobras e construída no Brasil. Chama-se “Petrobras I” e é operada por brasileiros e franceses. As plataformas brasileiras e norte-americanas diferem no formato e nas características técnicas. A “Petrobras I” é retangular e tem quatro pés.

 

A “Vinegarron” é triangular. Cada uma dê-las consta de equipamento de elevação (os pés que se apoiam no fundo do Mar e a maquinaria respectiva), estrutura da sonda, torre com heliporto e as instalações destinadas aos escritórios, laboratórios, alojamentos, sala de estar, restaurante, cozinha, lavandaria etc. Os pés da “Vinegarron” estão assentados na areia, a 31 metros de profundidade.

 

A “Petrobras I” pode ir, no máximo, a 30 metros. A primeira pode perfurar quatro mil metros; a segunda tem capacidade para 3.600 metros. O ponto mais alto da torre da plataforma da Zapata encontra-se a 50 metros.

 

Uma embarcação fica permanentemente estacionada a 200 metros de distância, para atender às necessidades de transporte de homens e material, bem como para a eventualidade de algum acidente. A plataforma, no entanto, é capaz de resistir a vagalhões de 10 metros e a ventos superiores a 100 quilômetros horários. Mesmo com Mar encapelado, os homens não se preocupam com a segurança.

 

E quando terminarem esta perfuração, para onde irá a sonda?

 

Os homens dizem que não sabem, são reservados, não gostam de falar sobre os projetos da empresa, mesmo quando os conhecem. Mas a Petrobras já informou que, além da área defronte à costa de Sergipe e Alagoas, vem realizando pesquisas geológicas em outros pontos do litoral: Sul da Bahia, Norte do Rio de Janeiro, costa maranhense, delta do Amazonas. Qualquer um desses locais remotos poderá ser o verdadeiro lar dos engenheiros e operários da “Vinegarron”, dentro de meses, dentro de anos. Isto é, se tiverem nervos para suportar o isolamento, os quinze dias de Sol e Mar, os tubarões e a saudade da família. (MANCHETE N° 882)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

O Petróleo Jorra no Mar - Gente de Opinião
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