Sexta-feira, 20 de março de 2026 - 07h50

Bagé, RS, 20.03.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete n° 918, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 22.11.1969
Como Morreu
Marighella
(Reportagem de Murilo Melo
Filho)
O Delegado Sérgio
Paranhos Fleury Explica os Lances Dramáticos que Resultaram na Maior Vitória da
Polícia Paulista em sua Luta Contra a Guerrilha Urbana
Foram
uns 40 segundos que pareceram eternizar-se: durante esse lapso de tempo, com o
olhar imóvel fixado em mim e vendo-se cercado por um sólido dispositivo
policial, Marighela deve ter sentido que parecia ter chegado ao fim sua
carreira no terrorismo.
Quem fala,
enquanto traça com esferográfica e régua uma planta do esquema montado para
captura de Marighela, é o Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Fluminense de
Niterói, 36 anos, veste um terno estilo Pierre Cardin e narra com firmeza, sem
emoção aparente, os últimos momentos de vida daquele que era tido, como o
principal chefe terrorista do País:
Só
depois daqueles 40 segundos, mais ou menos, é que Marighela, num gesto de
desespero, optou pela recusa em entregar-se e tentou abrir uma pasta escura que
trazia consigo e onde eu não poderia saber se havia um revólver ou uma granada.
O silêncio era total na rua deserta, cercada de alguns prédios em construção e
outros recém-terminados, mas ainda desabitados.
No
interior do Volkswagen, o chefe do terrorismo estava inteiramente acuado. Eu o
queria vivo, pela soma de informações que ele poderia liberar. Por isso o intimara
a render-se. Mas, diante do seu gesto, preparando-se para resistir no banco
traseiro do Volks, era a minha vida, e a dos homens que me davam cobertura, ou
a dele. Disparei, então, de uns poucos passos de distância, o primeiro tiro,
que arrancou-lhe a falange de um dos dedos da mão direita e foi alojar-se perto
do seu coração. Desencadeou-se, de imediato, a fuzilaria, à qual replicaram,
dos fundos da rua, os guarda-costas do terrorista. Com um filete de sangue a
correr da boca entreaberta, Carlos Marighela, entretanto, já não vivia. Eram
exatamente 20h05 de 4 de novembro de 1969.
O Delegado
Fleury continua desenhando e reproduzindo as posições tomadas pelos policiais e
as viaturas na Alameda Casa Branca, interditando todas as suas saídas. Enquanto
fala, seus olhos verdes não se levantam do papel: sua atenção está inteiramente
voltada para a recomposição do esquema armado para a captura de Marighela. Ele
inclusive prefere não falar sobre os aspectos ideológicos que envolvem a
questão Marighela. Restringe seu relato à preparação do cerco e à execução do
plano que liquidou o ex-deputado comunista. Tem à cinta um revólver e não se
mostra muito preocupado em ocultá-lo. Sobre o esquema e sua execução fala com
tal segurança que parece estar repetindo alguma coisa de cor:
Usamos
seis viaturas do DOPS com chapas frias. Eu ia no primeiro carro, que nós
chamamos carro-piloto, com a investigadora Estela Borges Morato e um casal de
policiais no banco traseiro. Incumbia aos homens do carro-piloto prender
Marighela, no que deveriam ser auxiliados pelo pessoal do carro-de-assalto, um
caminhão coberto, com policiais escondidos.
Ficaram
esses dois carros no quarteirão da Alameda Casa Branca próximo à Alameda
Lorena. Outros dois ficaram na esquina da Rua Tatuí com a Alameda Casa Branca.
Uma quinta viatura estava na esquina da Rua José Maria Lisboa com a Alameda
Casa Branca e dali procuraria impedir uma possível tentativa de fuga.
Sem nunca
abandonar seu desenho, o Delegado Fleury, que é o titular da Delegacia de Ordem
Social (DOS) do DOPS de São Paulo, faz uma ligeira correção na posição de um
dos carros e continua:
Freis
Ivo e Fernando foram para o local em seu próprio carro, dirigido por um
motorista do DOPS. Na esquina da Avenida Nove de Julho com a Rua José Maria
Lisboa, o motorista passou o volante para um dos Padres e saltou.
O
Volkswagen ficou permanentemente escoltado de um lado pela viatura a cargo do
Delegado Firmiano Pacheco e de outro pela viatura sob a responsabilidade do
Delegado Roberto Guimarães. Colocou-se o carro dos Padres no local do encontro
previamente marcado por eles com Carlos Marighela e as viaturas policiais
dirigiram-se a seus pontos. Num terceiro carro estava o Delegado Rubens Cardoso
de Melo Tucunduva, em outro o Delegado Édisel Magnotti e, num outro, o
investigador Rubens de Sousa Pacheco.
O Delegado
Fleury lembra que 10 minutos antes das oito horas só se viam, na Alameda Casa
Branca, o carro-piloto, onde dois casais de policiais fingiam namorar, e o
carro-de-assalto, aparentemente abandonado, até porque seu motorista ficara num
prédio em construção, nas imediações.
Do
carro-piloto, vimos então, parado em frente a nós, um homem cujos traços
correspondiam aos do principal guarda-costas de Marighela. Durante oito minutos
ele inspecionou o local e, não vendo nada suspeito, desceu a rua. Certamente
para comunicar a Marighela que ele podia ir sem problemas ao encontro dos
Padres, de cuja presença no Volks o guarda-costas também se certificara. Às 20h,
precisamente, surgiu na Alameda Casa Branca, vindo da Alameda Lorena,
desacompanhado e a pé, Carlos Marighela, de calça escura e camisa-esporte azul,
sapato mocassim e, como único disfarce, uma peruca negra.
Apesar
disso, podia ser facilmente identificado. Seus passos chegavam a ressoar na rua
que ele supunha deserta, apenas com dois inocentes casais de namorados em um
carro. Próximo ao carro-de-assalto ale atravessou a rua, rumo ao Volks dos
Padres, com os quais falou qualquer coisa e rapidamente entrou no banco de
trás. Aproximei-me então, só do nosso carro se tinha uma visão panorâmica do
local, e, em companhia de outros cinco policiais que também se aproximaram,
intimei-o a render-se: “Marighela, você está cercado, não adianta tentar fugir
ou reagir. É o seu fim”.
Com
o impacto da surpresa. Marighela, que assaltara tantos bancos, que era
responsável pela morte de 12 pessoas, que chefiava o terror em todo o País,
sentia-se agora flagrantemente atônito. Quando, rompendo sua atitude de
surpresa inicial que durou cerca de 40 segundos, tentou abrir a pasta preta,
rejeitou a opção que eu lhe oferecia, entregar-se. Não titubeei. Acionei o
gatilho do meu revólver, não era metralhadora, como se chegou a noticiar. Desatou-se
então o tiroteio, por parte inclusive dos elementos de segurança do bandido.
Enquanto isso ocorria, um cão pastor imobilizava os padres, que aproveitando-se
da confusão tentaram fugir. Marighela foi alcançado por projéteis de calibre
38, 44 e 45 e não rajadas de metralhadora. Eis tudo o que tenho a dizer. Essa a
minha participação nos acontecimentos que resultaram na eliminação de um dos
maiores facínoras que este País já conheceu em sua história.
O Delegado
Sérgio Fleury é filho do médico-legista João Alfredo Fleury, que morreu em
consequência de contaminação em autópsia. Quando entrou para o DOPS, era ainda
um menino: tinha 17 anos. Ficou famoso em São Paulo como titular do setor de
assaltos da Polícia. É casado e pai de três filhos. Quando foi designado para o
DOPS, prometeu a si mesmo liquidar o líder terrorista. Diz, porém, que não
esperava pegá-lo tão depressa. Além de tudo, o Delegado Fleury é um esportista:
formou com funcionários do DOPS um time de futebol cujo nome é Veteranos da
Coruja.
Setores da
Polícia expressam que foram “de
dominicano em dominicano até Carlos Marighela”. Esses frades tinham
postos-chave na rede terrorista de Marighela, segundo a Polícia, como o setor
de imprensa e o planejamento de assaltos a bancos. O DOPS de São Paulo afirma
que frei Francisco de Araújo, o frei Chico, foi o primeiro prosélito que
Marighela fez naquela ordem religiosa e que através dele diversos Padres foram
conquistados para a subversão. A Polícia fixou-se definitivamente nas
diligências em torno dos dominicanos a partir de confissões do jornalista
Esaías do Vale Almada.
Em
depoimento ao DOPS de São Paulo, Isaías Informou que Marighela tinha estreitas
ligações com um frade dominicano de nome Beto. Dias depois do sequestro do
Embaixador Charles Elbrick, o estudante Paulo de Tarso Venceslau, um dos
implicados no ato, acrescentou novos detalhes sobre a participação dos
sacerdotes dominicanos na subversão comandada por Marighela: um dos principais
contatos do chefe terrorista era frei Ivo (Ives do Amaral Lesbeaupin), que
controlava um “aparelho” na Rua Rego
Freitas, 530, em São Paulo.
O próprio
convento dos dominicanos, no bairro das Perdizes, era usado como base fixa dos
elementos fiéis a Marighela. A Polícia de São Paulo aprofundou então suas
sindicâncias, instalando um sistema de captação dos telefonemas dados para o
convento das Perdizes. Dia 31 de outubro um telefonema suspeito foi
interceptado e levou policiais paulistas ao Rio de Janeiro. Nesse telefonema
ficara acertado um encontro no Rio entre frei Ivo e um certo Sinval, dia 2 de
novembro. Ao chegar ao Rio, o Delegado Fleury entrou em contato com agentes do
SNI e do CENIMAR ([1]),
que passaram a colaborar nas investigações, positivando-se que frei Ivo estava
realmente no Rio, em companhia de frei Fernando.
Ambos
passaram a ser seguidos. No dia 1° de novembro, temendo perdê-los de vista, os
policiais os prenderam após um acidente de automóvel, com o que ficou frustrado
o encontro que deveriam ter no dia seguinte com Sinval. Conduzidos à sede do CENIMAR,
os sacerdotes confessaram que estavam a serviço da organização terrorista
chefiada por Marighela. Ocultavam, no convento de São Paulo, elementos
foragidos da polícia política e depois os encaminhavam a São Leopoldo, no Rio
Grande do Sul, onde frei Beto (Carlos Alberto Cristo) preparava documentos
falsos que facilitassem suas fugas para o exterior. Também se dedicavam a amplo
trabalho de doutrinação comunizante e a imprimir material de propaganda
subversiva. Ultimamente, por ordem de Marighela, faziam um levantamento das
áreas onde poderia ser desencadeada a guerrilha rural.
Conduzidos
sob o maior sigilo para São Paulo, os padres foram mantidos sob permanente
vigilância no convento e na Livraria Duas Cidades, cujos telefones eram usados
para contatos com Marighela. Os aparelhos da organização localizados também
ficaram sob rigorosa vigilância na expectativa de que o chefe terrorista
aparecesse em algum deles. No dia 4, às 16h30, frei Fernando foi chamado ao
telefone da livraria, recebendo a seguinte mensagem:
É
da parte do Ernesto. Hoje, às 20h, ele irá à gráfica.
Persuadido
a decifrar a mensagem, o padre disse que aquilo significava que Marighela teria
um encontro com ele e com frei Ivo naquela hora, na Alameda Casa Branca, à
altura do número 800. Então foi só organizar o arco ao local e conseguir
apanhar o terrorista que as polícias de todo o País vinham tentando pegar há
cerca de três anos.
Embora em
luta aberta com o PCB, do qual foi expulso diretamente por Luís Carlos Prestes
há 11 anos, e em conflito com o grupo chefiado pelo ex-Capitão Carlos Lamarca,
Marighela conseguiu ampliar suas bases e desencadear o terror em vários Estados
da Federação. Os pontos de maior repercussão de sua atuação foram sem dúvida o
sequestro do Embaixador dos Estados Unidos, Sr. Charles Burke Elbrick, em
setembro deste ano, e o assassinato, em São Paulo, do Capitão norte-americano
Charles Rodney Chandler, no ano passado.
Calcula-se
que, desde o início de sua ação terrorista, os grupos liderados por Marighela
tenham roubado em bancos, carros-fortes e outros tipos de assalto, mais de NCr$
4 milhões. A ação terrorista de Marighela tomou vulto depois de sua ida a
Havana, para a famosa conferência da OLAS ([2]),
em 1967. Qualquer dúvida que pudesse existir sobre a identificação do cadáver
teria sido totalmente sanada pelo Delegado Alcides Cintra Bueno Filho, encarregado
de acompanhar a autópsia. Velho conhecedor de Marighela, sabia de duas
cicatrizes que ele tinha no peito, de ferimentos a bala quando resistiu à
Polícia no interior de um cinema, no Rio, em 1965. O Delegado Cintra Bueno, que
participou de todas as diligências em torno dos dominicanos nos últimos dois
anos, disse no Instituto Médico Legal que as cicatrizes, constatadas, tirariam
qualquer dúvida, se dúvida houvesse. Foi ele, também, quem providenciou o
enterro de Marighela no cemitério de Vila Formosa, sepultura 1.106, Quadra 53.
Bem perto do túmulo de Marco Antônio Brás de Carvalho, o Marquito, apontado
como assassino do Capitão Chandler. Marquito morreu num tiroteio com a Polícia.
Estela Borges Morato

A casa era branca e modesta. O bairro, distante e pobre. Lá dentro, um homem tinha chegado de um jogo de futebol e não conseguia dormir. Foi quando veio a notícia e ele foi, mudo, para o hospital. Esse homem se chama Marcos Morato. Durante o longo trajeto da casinha branca e modesta de Vila Nair, no bairro do Ipiranga, até o Hospital das Clínicas, ele só tinha recordações. E lembrou-se de quando era ainda empregado dos escritórios de uma indústria paulista e, à saída de um ofício religioso da Igreja Assembleia de Deus, conheceu uma moça chamada Estela, pequena de corpo mas com uma força de gigante. A primeira coisa que os uniu foi a mesma opinião sobre a necessidade de estudar cada vez mais e conseguir melhores empregos.
Pouco a pouco apareceram outras identidades de pensamentos e de gostos. E cada vez mais Marcos se entusiasmava com a coragem que Estela demonstrava nas mínimas atitudes. Mas naquele momento, ele era exatamente o homem que mais lamentava essa mesma coragem que, no começo, tanto admirava. Eles se sentavam no mesmo banco da igreja e tinham a mesma crença. Depois, ele a levava para a casa dos pais adotivos, a irmã e o cunhado do seu pai verdadeiro que vivia na cidade de Jundiaí. Estela era a caçula de cinco irmãos. Suas pequenas inseguranças, a falta de confiança e o medo de um compromisso mais sério em relação a Marcos foram reduzidos a zero com o tempo e, há quatro anos, eles se casaram. Ele tinha um diploma de comércio e, ela, o de ginásio. O principal assunto dos primeiros tempos de casamento era justamente o futuro. E ambos continuaram a estudar à noite, depois do trabalho.
No começo do ano passado, Estela resolveu: ia se preparar para ingressar na Escola de Polícia de São Paulo, onde o tio e pai adotivo, José Carvalho do Nascimento, era professor. Marcos sentiu que não tinha jeito de impedir essa decisão de Estela e tentou justificá-la como uma imposição do temperamento inquieto da mulher, sua tendência de enfrentar corajosamente situações perigosas e sua quase intimidade com a dor, desde que se tinha submetido a várias e seguidas operações plásticas para corrigir as marcas que graves queimaduras aos três anos de idade tinham deixado em seu corpo. O jeito era apoiar a decisão de Estela. Marcos é um homem calado e jamais se queixou aos pais adotivos da mulher e nem mesmo aos colegas de curso que às vezes iam à sua casa estudar com Estela. O único confidente era o velho Mário, um operário aposentado que lhe tinha vendido a casa branca e modesta, “um negócio de pai para filho”. Estela, porém, cada dia mostrava maior entusiasmo pela coisa, melhores salários e principalmente uma carreira que, teoricamente, a completava:
A gente deve escolher como profissão aquilo que mais nos satisfaz!
Enquanto aumentava o entusiasmo de Estela, uma estranha inquietação tomava conta de Marcos, que recomeçou a estudar à noite. As conversas começaram a ficar cada vez mais raras. Estela só pensava em passar nos exames e começar logo a trabalhar no combate ao contrabando, um dos setores policiais de seus sonhos. Mas, para começar, o mais fácil mesmo era ser investigadora e a Secretaria de Segurança estava precisando de algumas moças no seu quadro de agentes, principalmente nas perigosas missões da guerra contra o terrorismo. Estela passou nos exames e foi imediatamente lotada no DOPS. Veio a primeira missão, secreta, exigindo muita coragem e sangue-frio. Marcos não aguentava mais a inquietação, nem mesmo quando Estela repetia, com incrível segurança:
É um bom emprego e vai aumentar os nossos rendimentos.
Estela saiu-se muito bem do seu primeiro trabalho como agente do DOPS. O segundo também. Começou a ser elogiada pelos Chefes e companheiros mais antigos. Até que foi chamada, às pressas, para participar do esquema policial que visava à prisão de Marighela. O papel de Estela era cheio de riscos, bem no meio dos acontecimentos. Simularia um namoro com um policial, junto com outro casal de agentes também simulado, dentro de um carro de chapa fria. Todos sabiam o que poderia acontecer, como aconteceu, quando Marighela e seus companheiros pressentissem a cilada.
Marcos estava em casa e pensava que fosse apenas mais uma missão como as duas anteriores, perigosas mas nem tanto. Foi quando chegou a notícia: Estela Borges Morato estava internada no hospital, clinicamente morta, atingida por disparos na cabeça. No dia seguinte, no saguão do hospital, o pai de Estela, Join Borges, mineiro de Araguari, mas vivendo em Jundiaí desde que se casou, era o mais inconsolável. Cabelos brancos, o rosto vincado de rugas, ele já não tinha mais lágrimas nos olhos quase secos. Ao seu lado, o outro pai, era assim que Estela chamava aquele que a tinha criado desde pequena. Os dois falavam pausadamente, quase se revezando, um completando a frase do outro:
Estelinha sempre causou admiração pela sua espantosa valentia. Era pequena de corpo mas não se acovardava diante de nada. Desde criança viveu entre a casa e os hospitais, enfrentando todo o tipo de operação e talvez isso tenha temperado a sua coragem. Depois do acidente, com o corpo cheio de queimaduras, ela veio para São Paulo, para tentar a cura. Foram muitas operações, até que ela ficou boa. Foi para a escola e começou a frequentar a Assembleia de Deus. Nós estávamos satisfeitos por ela ter sarado, por estar quase se formando e por saber que era uma moça que tinha a sua crença.
No dia 6 de outubro, exatamente um mês antes de morrer, começou a trabalhar como policial, depois de passar brilhantemente nos exames. Enfrentou os perigos sem se abalar, como sempre. E a gente sabia que ela jogava só com 50% de probabilidades de se sair bem. Mas tinha coragem, vivacidade, agilidade e amor ao trabalho perigoso que acovardava muitos homens. Temos a certeza de que foi justamente a sua coragem que a matou: durante o tiroteio, enquanto todos procuravam, naturalmente, se proteger, ela deve ter sido levada pela sua valentia a uma posição mais exposta às balas. Dor e medo eram duas coisas que Estela não conhecia, desde os 3 anos de idade.
Embora tenha sido uma grande perda para o esquema subversivo, a morte de Carlos Marighela não representa o fim do terrorismo. O Governo e seus órgãos de informação estão certos de que foi eliminado um mito, mas novas lideranças ascenderão naturalmente aos postos de comando. A verdade, porém, é que o terror está aterrorizado. Após alguns meses em que dominou o Rio e São Paulo, colhendo o Governo de surpresa e inteiramente despreparado para esse tipo de guerrilha urbana, a ofensiva de assaltos e atentados foi pouco a pouco contida dentro de limites relativamente suportáveis. A ação conjugada do Exército e da Marinha com as polícias civis e militares conseguiu desbaratar alguns núcleos importantes, desde o esfacelamento do MR-8 até o fechamento de dezenas de “aparelhos” que vinham agindo livremente. No começo e na evolução da guerrilha, Marighela representou um capítulo importante, que agora se encerra. Esse homem, filho de mãe negra e pai italiano, escalou todas as etapas da luta no “underground”, desde os tempos de estudante de engenharia em Salvador, quando entrou para o Partido Comunista.
Ao longo de sua vida nos subterrâneos, incluem-se prisões em Fernando de Noronha e no Recife, eleição à Constituinte de 46, cassação do mandato em 47, nova prisão logo após a Revolução de 64, libertação através de um “habeas corpus”, passagem pela Conferência da OLAS em Cuba, expulsão do PC e fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Tinha predileção pelos atentados a bomba e pelas ações espetaculares, como aquela de 15 de agosto deste ano, quando ocupou a Rádio Nacional de São Paulo e transmitiu um longo manifesto contra o Governo. Seu estilo era muito espanhol, no molde da “hispanidad”, grosso, másculo, como aquele “physique du rôle”, que o denominou de “gigante de ébano”. Ultimamente, estava calvo e gordo. Fizera uma plástica grosseira para mudar o rosto e usava frequentemente uma velha peruca.
Nunca admitiu a hipótese de ser apanhado vivo: sabia por experiência própria das torturas que o aguardavam e trazia sempre consigo um vidro de cianureto. A única homenagem que recebeu, depois da morte, foi a do filho e do irmão, à beira de sua cova rasa. Nos próprios quadros da subversão, ele era tido como um superado. Consideravam-no já velho, completaria 58 anos agora no dia 5 de dezembro, e doente, já tivera dois enfartes. É bem provável que seus poucos mas fiéis seguidores partam agora para algumas ações desesperadas como vingança pela morte do chefe. Um dos alvos prediletos seria o Delegado Fleury, que comandou a ação e o tiroteio fatais. Dois grupos disputavam-lhe a liderança:
1. O da Vanguarda Popular Revolucionária, sob a chefia do ex-deputado estadual Joaquim Câmara, sempre eleito pelo voto dos comunistas de São Paulo. Esse grupo identificou-se rapidamente com os estudantes e jovens militares para ações mais inteligentes e sofisticadas, como o sequestro do Embaixador Burke Elbrick. É constituído de rapazes e moças pertencentes a famílias de destaque. Sua tese: as ações devem ser simpáticas para granjear adeptos e admiradores.
2. O da Vanguarda Armada Revolucionária, sob o comando do ex-Capitão Carlos Lamarca, campeão de tiro e instrutor de antiguerrilhas, que cuida mais das expropriações e dos assaltos a bancos, tendo ligações íntimas com outros subgrupos como o da Colina e do MR-26.
Todos eles contavam com o apoio, a simpatia e a cobertura de alguns frades da Ordem dos Dominicanos, que haviam transformado o Convento das Perdizes num refúgio seguro para os terroristas, com ramificações no Convento de Cristo Rei (jesuíta) em São Leopoldo. A posição dos dominicanos implicados não é nada fácil e está preocupando seriamente não apenas o Governo como a Igreja. Na ausência dos Cardeais Jaime Câmara e Agnelo Rossi, que se encontravam na Europa, o Bispo Aloisio Lorscheider foi a São Paulo e a Porto Alegre para reunir os dados necessários a uma tomada de posição. As ligações dos dominicanos com grupos extremistas datam dos tempos da Ação Popular. Os primeiros contatos foram feitos pelo padre Vaz, jesuíta, que depois transferiu o encargo para os dominicanos. Na noite em que ia ser comemorada em Brasília a vitória do Deputado Márcio Alves, cujo mandato a Câmara se recusara a cassar, três dominicanos apareceram em sua residência:
Nada disto. Vamos embora. Vocês não têm ideia do que está para acontecer.
Dali mesmo rumaram para Paracatu, depois Campo Grande, em seguida Assunção e Santiago e por último Roma. Frei Ivo e Frei Fernando, agora presos, tiveram de fornecer à polícia informações preciosas sobre toda a extensão da rede. A polícia, há vinte dias, havia prendido o estudante Paulo de Tarso e conseguido dele a pista decisiva: a gravação de um telefonema de Marighela para o Convento das Perdizes. Esse telefonema foi a ponta do fio da meada que levou o Delegado Fleury a prender os dois religiosos e usá-los como isca para atrair Marighela ao local fatídico. Só mesmo a credibilidade e a confiança que os dois frades infundiam a Marighela seriam suficientes para fazê-lo atender ao chamado e acreditar na senha que apenas eles conheciam. Os dois conseguiram assim atrair e trair Marighela, tentando ainda fugir no exato momento em que ele era metralhado.
A Operação Bandeirantes desencadeada em São Paulo pelo DOPS com o apoio do II Exército representou um verdadeiro pente fino, que desbaratou os principais focos, fazendo-os transferir-se provisoriamente da capital para o interior paulista. Em torno de Joaquim Câmara e de Carlos Lamarca, todas as notícias até agora divulgadas não passam de especulações e balões de ensaio. A própria polícia não tem certeza se eles estão no Brasil ou no Uruguai. Os indícios de que ambos haviam conseguido cruzar a fronteira chocam-se com outros sintomas segundo os quais eles continuavam no interior de São Paulo, sem condições de escapulir.
A divulgação da notícia de que Lamarca havia fugido para Montevidéu, levando NCr$ 4 bilhões, pode ter tido apenas o objetivo de fazê-lo despreocupar-se das rigorosas cautelas com que sempre se cercou e torná-lo mais vulnerável às próximas ações repressivas. Também teve caráter de despistamento a veiculação de informes sobre a vinda de Brizola para assumir o posto vago com a morte de Marighela: “o engenheiro continua confinado no balneário de Atlântida, de onde não pretende sair tão cedo”. É evidente que o Governo está em franca ofensiva contra o terror, buscando acuá-lo mais ainda. Os êxitos, até agora, têm sido parciais. Não existe a ilusão de que a guerrilha possa, a curto prazo, ser definitivamente eliminada. Todos os tratadistas do assunto reconhecem que ela é quase invencível. Se assim não fosse, os americanos já teriam resolvida o problema do Vietnã. (MANCHETE N° 918)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);



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