Porto Velho (RO) sábado, 28 de novembro de 2020
×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

A Terceira Margem – Parte LXXIII - Real Forte do Príncipe da Beira - X


A Terceira Margem – Parte LXXIII - Real Forte do Príncipe da Beira - X - Gente de Opinião

Bagé, 26.10.2020

 

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XLII

 

Real Forte do Príncipe da Beira - X

 

Abre-se num saguão de pouco mais ou menos 10 m de comprido, composto de duas partes distintas, das quais a anterior é um quadrado perfeito de 4,5 m, e a outra de 5,5 m de fundo sobre 4,38 m de largo. Nesta ficam, à esquerda, a casa da guarda e xadrez, e à direita os calabouços, tudo abobadado, e estes muito escuros, úmidos e faltos de ar. A casa da guarda é dividida em dois compartimentos, ambos de 4,4 m de largura, mas o primeiro comprido de 8,2 m, e o outro de 3,38 m. O calabouço que se abre em frente a esta sala tem 4 m de fundo e de largura 4,4 m; o outro a este contíguo, com respiradouros para a Praça d’armas, guarda a mesma largura, tendo 8,35 m de comprimento.

 

Na parede do primeiro desses calabouços, escreveu um moderno Tasso ([1]) sentidas endeixas ([2]), onde a nova Eleonora pouco é lembrada, mas em compensação o triste poeta buscava enganar sua desdita, escrevendo, nesses segredos da masmorra, louvores aos que o tinham encarcerado; trabalho que é de supor baldado, pois sem dúvida o ficaram ignorando, sendo mais provável que, se soubessem do escrito, teria sido raspado e apagado, e o poeta punido por estar danificando as obras do Estado. Conquanto supinamente toscos, mal medidos e mal rimados, gostei de, na tristeza desse ergástulo ([3]), copiar as linhas que o tempo deixou legíveis: e pouco se me dá que se considere perdido o tempo que nisso gastei, e o que emprego em transcrevê-los aqui. As quatro paredes do cárcere tinham sido completamente cobertas deles, divididos em estâncias separadas por traços em quadrados; letras, traços e tudo, aberto na alvenaria à ponta de um estilete qualquer.

Ei-los:

 

Desta horrorosa prisão

De ti me despeço brioso

Tendo suportado gostoso

Por ti mui dura aflição Firmina.

 

Embora me persiga o fado

Querendo a vida tirar

A Virgem me há de ajudar,

Por ela serei amparado,

Pois aqui encarcerado

Estou bem crente na sina

Que hei de sempre te amar Firmina.

 

Agradecido e obrigado

Às graças que me tens feito,

Capitão Cunha, em meu peito

Teu nome tenho gravado.

Nele será conservado

Enquanto vida eu tiver

E só depois que morrer,

Calarei os teus louvores

Que nem mesmo... [...]

 

Se Mato Grosso prendeu-me

O Forte me cativou.

Aqui cativo estou

De quem tanto favoreceu-me.

 

Quando eu for em liberdade

Agradecerei a bondade

Com que alguns bons senhores

Nesta minha adversidade

E destino desgraçado [...]

 

E mais um cento de quadrados com versos do mesmo jaez. Ninguém pode orientar-me sobre quem seria o pobre versejador, nem mesmo quem fosse o Capitão Cunha, a quem tão agradecido se mostra, talvez por conta de favores, ainda em desejos. Suponho que sua prisão coincidirá com outra inscrição que aí também se lê, e a qual não é de somenos interesse:

 

No dia 18 de setembro pelas 2 horas da tarde, tremeu a terra, 1832.

 

Mais tarde verifiquei que o Capitão Cunha devia ser José Francisco da Cunha, Cmt do Forte até 1831, em que morreu, segundo se depreende destas palavras do ofício do Presidente Antônio Correia da Costa ao Ministro do Império José Lino Coutinho, dando conta de várias sedições e amofinações do povo e tropa:

 

Não tardou muito tempo quando foi participado pelo Comandante-militar do Forte do Príncipe a este governo, a sublevação da guarnição e povo do mesmo Forte, contra o alferes adido ao Estado Maior do Exército Antônio José da Silva Negrão, que para ali fora nomeado Comandante, a substituir aquele que interinamente servia no lugar do finado Sargento-mor José Francisco da Cunha, conforme participei a V. Ex.ª em ofício de 06.06.1831.

 

III

 

Ao sair do saguão, na Praça, uma escada, à esquerda, conduz à meia cortina da frente, donde pode-se circular toda a Fortaleza pelas cortinas e baluartes. Na Praça, paralelas às cortinas, há duas ruas de casas, compostas, a mais próxima de seis edifícios que eram destinados a armazéns, oficinas e quartéis da tropa, e a interna de outras tantas casas para oficiais, comandância, Capela e enfermaria, estas três na face fronteira à da entrada do Forte.

 

No centro, há uma grande cisterna, com os escoadouros necessários para o excesso de águas, cuja abertura de saída vê-se na barranca do Rio, como um corredor quadrado, de dois palmos de face, fechado por uma grade de ferro. Caídos por terra, junto às canhoneiras, existem ainda 13 canhões de ferro, calibre 6, e um de 12. Nos depósitos e arrecadações, hoje completamente derruídos, e que são os edifícios da segunda rua ao fundo da Praça, há alguns falconetes ([4]), pedreiros ([5]) e pequeninos canhões de bronze, de 2 palmos de tamanho; e entre os destroços de muita peça de palamenta ([6]), inúmeras alcanzias, panelas de barro semelhando às granadas, cujo fim talvez fosse arrojar aos assaltantes azeite fervendo, como nas antigas guerras.

 

Fora da Fortaleza houve, nos seus bons tempos de mocidade, um povoado, e também chácaras e sítios. Em frente ao baluarte de NE. [Santo Antônio] tinha o comando uma grande chácara, toda cercada de grossa e alta muralha, e dividida em grandes canteiros orlados de cantaria, e dispostos simetricamente afetando a forma de uma estrela. Está apenas a uns 200, ou pouco mais, metros do fosso, e todavia, apesar de irmos com o Cmt do Forte, que já é prático desses sítios, custamos a encontrá-la, tão alta, densa e cerrada é a mata que aí cresce e encobre seus muros, ainda hoje em pé.

 

O que ainda mais revela a desídia, preguiça, descomunal indolência e imprevisão do futuro de todos quantos têm, há longos anos, vivido nesse Forte, que melhor local não poderiam encontrar para suas plantações, a não ser os próprios baluartes e cortinas que converteram em roça, o que, entretanto, ninguém poderia esperar.

 

Dos vegetais que acompanham o homem, ainda aí vimos todos os comuns nessas paragens, beldroegas, caruru de sapo, tanchagem, labaça, etc., apesar de decorrerem já talvez mais de cinco lustros do seu completo abandono. Das árvores de fruto pelos antigos plantadas, apenas vimos bananeiras; não sendo crível que de tantas outras que os antigos cultivaram, e que naturalmente deviam ornar a chácara dos Governadores, não existam hoje árvores de laranjas, limas, limões, atas, café, canas, etc., talvez que a mata oculte ainda os destroços do pomar; no mais, o elemento selvagem, como de costume, matou e destruiu as plantas da civilização.

 

IV

 

Concluiu-se o Forte em agosto de 1783. Seu primeiro Comandante foi o Capitão de dragões da Companhia de Goiás, José de Mello de Souza Castro e Vilhena, que se achava desterrado em Mato Grosso. A 31 daquele mês – foi ocupá-lo com a guarnição do Forte da Conceição, cujas minas, só com algum custo, podem ser descobertas hoje. O novo há de custar a derrocar-se, nas suas obras principais, tão solidamente foi construído. Todas as suas dependências internas e externas, casas, quartéis, depósitos, ponte, portas, estradas, chácaras e mesmo o fosso, uns destruíram-se e os outros vão pouco a pouco, já estando a maioria em ruína completa. Mas essas muralhas são tão fortes, tão bem alinhadas, tão bem acabadas – tão – quase, perfeitas, que hão de passar os séculos antes que se derruam; e ainda hoje, mantendo, pelo menos exteriormente, toda a ideia da grandeza e poder que lhes imprimiu o seu autor, testificam a consciência do trabalho e o esforço assinalado dos seus obreiros.

 

À perfeição da mão de obra junta-se a boa qualidade do material e, cousa notável, o ferro, que tão facilmente se decompõe nos países quentes e úmidos, que no Egito estraga-se em uma dezena de anos, que aqui na Corte, nas grades expostas, vemo-lo em poucos anos completamente carcomido nas suas barras, corroídas pela oxidação, aí, no Forte, conservam-se inalteráveis e tão puros como si foram novos, apesar de um século de exposição, os gatos de ferro que prendem as pedras das muralhas, e que ostentam nitidamente a cor azulada do ferro de fresco forjado. Os edifícios internos, hoje em ruínas, foram também construídos com a mesma consciência do trabalho, mas eram relativamente mais débeis e necessitavam do zelo para conservarem-se: suas paredes são de pedra e cal, e o arcabouço de tal ordem que poucas são as vigas que estejam prejudicadas. Estragadas as ripas e os caibros, abatidas as telhas, apareceram as goteiras, e o tempo começou sem óbices o seu processo de destruição.

 

São as muralhas da frente as que guardam a mais esplêndida integridade: o mesmo já não se dá com as outras, que vão cedendo à força da vegetação que aí se desenvolve por entre as fendas do muro, ou sobre os parapeitos. Enormes embaúbas e gameleiras já assoberbavam seus troncos, empurrando com as raízes os blocos da pedra quando visitamos o Forte. Os terraplenas dos baluartes, as cortinas e a Praça seriam mata virgem se a guarnição, temerosa das onças e dos selvagens, não preferisse fazer neles os seus roçados de mandioca e milho, feijões [...].

 

Em todos os quartéis e casas, vive grande, imenso número de morcegos, a praga dos povoados velhos da Província; mas, assim mesmo, não em tanta quantidade como noutros lugares, e como aí mesmo em outros tempos, em que, segundo diz Pizarro:

 

 

Principiando a sair uma hora antes da entrada do Sol, o encobriam formando uma densa nuvem pelo esmo dilatado da sua carreira, até os campos de Espanha, donde voltavam de madrugada.

 

Nossa presença no Forte trouxe pela primeira vez em, talvez, dezenas de anos, a vantagem de limpar-se suas muralhas, cortando-se e buscando-se extirpar as árvores que aí cresciam, e também derrubando a mataria externa que cobria o fosso e o seu perímetro. Infelizmente pequeno foi o tempo da nossa demora para vê-lo completamente limpo: todavia as muralhas ficaram escorreitas ([7]), e o Forte livre, em muitas braças, da floresta que o afogava. À instâncias nossas, começou o Comandante o plantio de laranjeiras, então apenas três, na ladeira, e agora aumentadas de umas vinte, dispostas em dois renques desde o Porto até o fosso; todos arbustos já de metro e mais, e que, ao retirarmo-nos do Forte, deixamos vivos e pegados.

 

No Forte mora somente a guarnição composta atualmente de 14 soldados e um Sargento. O Comandante reside numa casinha, na barranca, a uns 10 m acima do Porto, aí tem também uma pequena horta. Em frente à casa há um pequeno destorcedor de cana, e um aparelho tosco para o preparo da farinha. Ao contemplar-se essa Fortificação que tem tanto de grandiosa como de estólida ([8]), não se sabe o que mais admirar, se o mérito da obra, o dinheiro e tempo gastos, as fadigas e misérias dos trabalhadores, isto é, a soma de esforços nessa construção empregados; se a fantasia do Capitão-General em querer ligar o seu nome a uma obra de guerra no gênero das de Macapá e Cabedelo, talvez cioso das glórias e recompensas que obtiveram os construtores destas. Não havendo pedra calcárias no sítio, foi a necessária para as obras conduzida das margens do Paraguai ao registro do Jauru, daí por terra à Vila Bela e Guaporé abaixo até o Forte; e essa obra monumental ficou concluída dentro de sete anos, tempo diminutíssimo, se atendermos às dificuldades que deveriam acompanhar uma construção tão longínqua e tão balda de recursos próximos: o que é um padrão do esforço e da tenacidade de Luiz de Albuquerque.

 

Para bem se o avaliar, basta consignar-se que, anos depois, em 1825, 4 canhões de bronze, de calibre 24’, remetidos do Pará, pelo Tapajós, com destino a ele, só conseguiram chegar a Mato Grosso em 1830. Mas já o Forte tinha perdido sua importância; e o Presidente deliberou fazê-los de novo remontar o Alto Guaporé até a estrada de Cuiabá, com direção a essa Capital; e ali houveram por uns vinte anos, até que, em 1851, o Barão de Melgaço as fez descer para o Forte de Coimbra. (FONSECA) (Continua...)

 

 

Bibliografia

 

FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil (1875 – 1878) – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Volume 2 – Typografia de Pinheiro & Ciª, 1881.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·     Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·     Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·     Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·     Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·     Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·     Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·     Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·     Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·     Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·     Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·     Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·     Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·     Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·     E-mail: hiramrsilva@gmail.com.



[1]   Tasso: o autor se refere ao amor impossível do poeta Torquato Tasso pela Princesa Eleonora na Corte de Ferrara.

[2]   Endeixas: poesias fúnebres.

[3]   Ergástulo: cárcere.

[4]   Falconetes: pequenas peças de artilharia.

[5]   Pedreiros: morteiro antigo que arremessava pedras.

[6]   Palamenta: aparelhos e petrechos de uma boca de fogo.

[7]   Escorreitas: sem danos.

[8]   Estólida: absurda.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Hiram Reis e Silva

A Terceira Margem – Parte XCVII + Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVIII

A Terceira Margem – Parte XCVII + Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVIII

Bagé, 27.11.2020 Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXVI Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVIII No dia 30.10.1910, foi inaugurado o segundo tr

A Terceira Margem – Parte XCVI - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVII

A Terceira Margem – Parte XCVI - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVII

Bagé, 26.11.2020 Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXV Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVII Ano de 1909 Em janeiro de 1910, o Ministro da Via

A Terceira Margem – Parte XCV - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVI

A Terceira Margem – Parte XCV - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVI

Bagé, 25.11.2020 Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXIV Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XVI Tratado de Petrópolis e a Ferrovia A Revolução Ac

A Terceira Margem – Parte XCIV - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XV

A Terceira Margem – Parte XCIV - Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XV

Bagé, 24.11.2020 Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXIII Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XV Comissão Morsing X Comissão Júlio Pinkas