Porto Velho (RO) sexta-feira, 30 de julho de 2021
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Gente de Opinião

Sérgio Ramos

Necrofilia ou empatia


Necrofilia ou empatia - Gente de Opinião

Mosca necrófila? Mosca empática? Existe isso?

Não sei o que você está pensando sobre essas questões. Para mim, ainda está sendo surpreendente ter que pensar nisso. Tanto que tive que escrever.

Bom, onde moro estamos em pleno inverno. Além das chuvas com seus benefícios para a agricultura, para o abastecimento da população, para as plantas, para os animais, para os amantes de lagoas – que se formam entre dunas -, seus transtornos como na maioria das cidades – alagamentos -, também abre a temporada de insetos. É isso mesmo. A chuva também é ótima para eles. Em particular, para as moscas. O que é péssimo para os humanos.

Não são muitas, consigo até contá-las. Sorte minha. A questão é a expertise desse maravilhoso inseto em se divertir ou trabalhar me importunando. Raul Seixas tinha razão. Se eu matar uma vem outra em seu lugar. Indício de consciência de revezamento.

Um pouco sobre moscas. São muitas as espécies. Vou parodiar Caetano na música Mel. A negra, branca, de figo, mutuca de cavalo, do chifre, doméstica, varejeira, da banana, tsé-tsé, caçadora. Tem seu lugar no mundo. Afinal, a natureza é um sistema perfeito, nada existe sem utilidade. A finalidade benéfica das moscas para o homem, é que podem ser utilizadas como cobaias para experimentos científicos para melhorar a nossa capacidade de nos manter vivos. Para a natureza, são polinizadoras, decompositora de matéria orgânica, fonte de alimento para vários animais, predadoras de larvas de borboletas e besouros, e no controle biológico. Há quem a use como isca.

Não seriam perfeitas se não tivesse também a sua finalidade negativa. São transmissoras de várias doenças. Além do incômodo que provoca quando você se concentra com uma ou várias delas. Ela perturba o seu sono. Ela “zumbiza” no seu quarto. Pousa na sua sopa. Ela abusa de você. A sua imaginação é o limite. Não por acaso foi imortalizada na canção Mosca na sopa, pelo já citado Rei do Rock. Seu prestígio também foi reconhecido por Hollywood. Ganhou a telona, agora no streaming, com o filme A mosca [The fly, USA, 1986, de David Cronenberg].

William Blake, poeta inglês se rendeu aos encantos ou aos desencantos da nossa personagem. Escreveu o poema A mosca: “Pequena mosca, / com minha mão / bruta, / cortei / teu jogo vão. / Não serei, mosca, / um igual teu? / Ou não és tu / homem, como eu? / Pois amo a dança, / canções, bebida, / até que a mão cega / me corta a vida. / Porque danço / e bebo, e canto / até que alguma mão cega / me arranque a asa. / Se o pensamento é vida, / fortaleza e alento; / e a ausência / de pensamento é morte; / então eu sou / uma mosca feliz, / se vivo, ou se morro.

Não posso deixar de reconhecer que ela tem seus méritos.

É claro que a minha relação com as moscas não é de hoje. Sempre experiências negativas. Estou no mundo e no mundo há moscas. Não há como evitar esses encontros.

Tornou-se um... como direi... esporte, caçá-las. Isso me fez prestar atenção nessas criaturinhas fascinantes. Primeiro utilizei raquetes. Funciona, mas não é prática. É grande. Não me adaptei. Adotei o velho pedaço de tecido em forma de toalha. O que exigiu outra estratégia, com a qual me adaptei rapidamente. Mais dinâmica porque não necessita de muito espaço, já que o movimento é vertical. Ainda não sou um exímio matador de moscas. Creio que entre dez, consigo livrar o mundo de cinco. Uma boa média. Reconheço.

O que me faz chamar as moscas de fascinantes é sua velocidade e percepção e ainda a dureza. Passei a acreditar que ela tem mais vidas do que um gato. Como é resistente. Não é fácil levá-las ao final da vida antes do prazo natural. Ela consegue iniciar um voo já na velocidade máxima. O Porsche 911 Turbo S, consegue chegar a 100 km em 2,7 s. É considerado um dos carros mais rápidos do mundo. Tenho a impressão que uma mosca já decola na velocidade máxima. Não há tempo entre zero e a velocidade máxima. Seria como decolar a 100 km. Não há tempo de resposta. Ou seja, ao perceber o perigo – ela simplesmente sai debaixo da toalha a meio centímetro [eu acho] de distância, a 100 por hora.

Mesmo dopado, o recordista dos 100 metros rasos de 2002, o americano Tim Montgomery, com tempo de 9,78, teve um tempo de reação de 0,104. É esse número que interessa. É o menor já registrado. Trata-se do tempo que o atleta leva para iniciar a corrida após ouvir o tiro de largada. O recorde de Montgomery foi devidamente anulado.  O recordista atual é Usain Bolt, com a marca de 9,58s. O tempo de reação dele não é dos melhores, 0,146. O forte dele é quando ganha velocidade durante a corrida. Certamente perdem para o tempo de reação das moscas. Creio que seja impossível medir seu tempo de reação. As que consigo matar, certamente estavam distraídas. Ou ainda estariam vivas.

Outra coisa que percebi nas moscas é sua capacidade de acasalamento em alta velocidade em pequenos espaços, como é o do meu escritório. Fazem manobras espetaculares embaixo da mesa. Também creio que não haja transa mais veloz. A sincronia delas não tem como não impressionar. As manobras são bruscas. São capazes de virar para a esquerda, por exemplo, depois para a direita antes de percorrer um centímetro, sem sair de cima da parceira ou parceiro. Manobram para os lados, para cima e para baixo, na diagonal como se estivessem voando em linha reta. Sem perder velocidade. Parecem fazer curvas em 90º ou até menos, como uma manobra do Gabriel Medina na crista de uma onda. Só que muito mais rápido. Observe e tire suas próprias conclusões.

Agora vamos tratar do título deste texto. Hoje pela manhã, estava no escritório. E como sempre, recebi as visitas ilustres das mosquinhas. Nunca aparecem mais que três ou quatro. Mas é o suficiente para parar e caçá-las. Ou não consigo trabalhar. Já pensei em ignorá-las quando pousam e levantam inquietamente em mim. Até já consegui algumas vezes. Se treinar mais conseguiria ignorá-las. Mas lembro que elas são transmissoras de doenças e a caçada começa. O que, em certa medida, é muito divertido. Nessa luta fica clara a peleja entre a lentidão total e a rapidez total. Quando consigo matar alguma encaro como vitória, mas não garante que da próxima vez consiga novamente. Elas são muito mais espertas do que eu. Lembro da cena do filme Karatê Kid, na qual Daniel San, pega uma mosca com hashi [palitinhos japoneses usados para comer]. Kesuke Miyagi, está sentado à mesa, na sala de sua casa, com seu hashi tentando pegar uma mosca em pleno voo. Daniel San chega, observa, senta-se à mesa e indaga: “Com mata-moscas não seria mais fácil?” Seu mestre responde: “Homem que mata mosca com pauzinhos realiza qualquer coisa.” San faz nova pergunta: “Já pegou uma?” “Ainda não.” Foi a resposta. Daniel pede para tentar. Senhor Miyagi, sorri com o canto da boca, e responde “Se deseja...”. Daniel pega seus pauzinhos e na terceira tentativa consegue pegar a mosca. Kesuke olha-o com os olhos um pouco arregalados, ironiza novamente, levanta-se da mesa e exclama: “Você... sorte de principiante”.

O curioso nessa cena é que a mosca parece desafiá-los. Está lá se divertindo se livrando dos pauzinhos. Lembrei-me de quando como o Anderson Silva quando perdeu para Chris Weidman. Parou de lutar e passou apenas a se esquivar dos socos do desafiante. Estava se divertindo, parou de lutar. Até que... o resto é história.

Uma das coisas que aconteceram hoje é um pouco parecida com essa cena. Uma mosca sentou sobre o meu caderno, em uma posição muito favorável. Distância perfeita. Nem precisei me levantar. Peguei a toalha. Me posicionei e ataquei. Como sempre, a mosca saiu debaixo da toalha no último milésimo de segundo para ser atingida. E deu meia volta antes de completar 10 centímetros de distância e voltou para o mesmo lugar. Ataquei novamente. A cena se repetiu, por mais incrível que pareça, por quatro vezes. Voou zombando de mim e não voltou mais.

Agora a cena mais impressionante.

Humilhado pela mosca, decidi me vingar em outras. Matei a primeira. Caiu ao lado direito da mesa, embaixo da mesinha do ventilador. Vibrei. Apareceu outra desafiante. Matei também. Só que a segunda mosca caiu praticamente no mesmo lugar da segunda. Satisfeito e vingado, voltei aos meus escritos.

Em um dado momento, olhei para as moscas mortas. O que vi foi inacreditável. Uma terceira mosca apareceu e protagonizou uma cena que não sei dizer se trata-se de necrofilia ou empatia. A mosca, freneticamente, pousava sobre as outras duas, alternadamente, em posição de acasalamento. Saía de cima de uma e ia para outra na velocidade de sempre. Fiquei impressionado. Chegou até confundir uma sujeira com uma mosca. Até que se acomodou sobre uma e ficou. Não sei dizer se se tratava de acasalamento com cadáveres ou comoção por encontrá-las mortas. Seriam amigas? Seriam amantes? A mosca parecia pedir reação.

Fui para internet pesquisar sobre necrofilia e empatia entre insetos. Não encontrei nada. Se alguém souber algo sobre isso, gostaria de tomar conhecimento. Ficaria muito grato por isso. Por outro lado, descobri que alguns animais, além de humanos, praticam necrofilia. A empatia entre animais em casos de morte ou ferimento ou mesmo de perigo já é conhecida. Mas necrofilia foi novidade para mim.

Assim, para a minha surpresa, descobri que corvos, cangurus, patos, sapos, pinguins, leões marinhos, lagartos teiús, saguis, lontras e golfinhos, já foram flagrados nessa prática. Da lista, que já é impressionante, o corvo, por ser uma ave, me causou mais impacto. Isso porque além de acasalar com os da mesma espécie, já foram observados praticando necrofilia com pombo, ou, com outra espécie.

Assim, considerando que há registros de necrofilia no reino não humano, posso inferir, mesmo com mínimas dúvidas, que presenciei um caso de necrofilia entre as moscas. No caso, necrofilia múltipla, duas sem vida, diga-se. 

Para o caso das moscas, pode haver uma explicação muito interessante. Segunda uma nova pesquisa conduzida por cientistas americanos descobriu-se que a falta de sexo prejudica a saúde e causa a morte prematura das moscas de fruta. Assim, a falta de sexo pode reduzir em até 40% a vida de uma mosca. O tempo de vida de uma mosca é entre 15 a 30 dias.

Ah, o nome correto para esses casos é “comportamento sexual interespecífico”.

A natureza e seus inesgotáveis segredos.

Fontes de apoio técnico:

10 casos de necrofilia observados em animais fofos - https://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2018/07/25/144971-10-casos-de-necrofilia-observados-em-animais-fofos.html – acessado em 07/04/2021, às 15h05min.

Moscas que acasalam menos morrem mais cedo, diz estudo - https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/12/131129_moscas_falta_sexo_expectativa_vida_lgb - acessado em 20/04/2021, às 14h50min.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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