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Gente de Opinião

Sérgio Ramos

Não há atalho para aprender


Não há atalho para aprender - Gente de Opinião

Tutóia – um Paraíso no Maranhão, 17 de maio de 2021

“Não tente achar um atalho, porque não há atalhos. O mundo é uma luta, é árduo, é uma tarefa penosa, mas é assim que a pessoa chega ao pico.” OSHO


As coisas têm que ser aprendidas da forma como tem que ser: sem atalhos.


Atalho é um caminho secundário derivado de um principal, pelo qual se chega mais rápido. É o que diz o dicionário. Logo, pegar um atalho é desviar do principal. O principal, em tese, não pode ser substituído por atalho sem consequência, na maior parte dos casos, negativa. Afinal, não é o principal por acaso. Há motivos para ser assim.


Quando seria aconselhável escolher atalhos? Bom, em princípio, em nenhuma situação. Se há o principal – a maneira certa de fazer a coisa -, optar por outras formas será uma aposta ao risco.


Estamos em plena tragédia sanitária, agravada por apostas em atalhos. Apenas para exemplificar. Fato.


Os riscos têm a características de serem imprevisíveis, apesar de acreditarmos que possamos fazer previsão em determinados casos, após cálculos milimétricos. Acertarmos, com precisão, sempre será a exceção. Atalho é uma fonte inesgotável de novidades ruins, no mais das vezes no futuro. Como fumar, as consequências chegam muito depois.


Por alguma razão sempre acreditei nisso: buscar a forma correta de fazer as coisas. A mais importante consequência dessa crença, é o número reduzido de problemas. Sim. Me considero uma pessoa com poucos problemas. Gosto disso. Resolvê-los me traz paz e tranquilidade. Não fujo deles. É a minha melhor característica. Chamo isso de Mudar Para Viver Melhor. Não posso aumentar os riscos pegando atalhos para resolver problemas. Agora aos 60 anos, vejo isso com muito mais clareza. Certamente, não foi sempre assim.


Gosto de acreditar que sou o resultado dos meus acertos menos os meus erros. Atribuo aos meus acertos a forma correta como os realizei e aos erros resultados de atalhos. Ou nem estaria escrevendo textos assim, positivos. Isso deve representar que optei mais pelo principal do que por formas alternativas, secundárias. As consequências por seguir por atalhos me fizeram retornar ou me manter o principal. Mais difícil, mais lento, mais seguro. Seguir pelo caminho correto é estar consciente do resultado. É ter a certeza de que esqueletos não se esconderão em armários. É optar por uma vida sem sustos, sem surpresas desagradáveis. Gosto disso.


Sou conservador nas minhas decisões. Isso não significa que não me arrisco. Sei que estar vivo é a primeira condição para morrer. Estou no mundo e tenho consciência dos perigos. Viver é muito mais difícil do que se imagina.


Quero falar, na verdade, sobre aprendizagem. Sobre os riscos que envolvem uma má formação. Sou daqueles que acredita que a educação é o principal vetor do desenvolvimento humano. Dentre os conhecimentos obrigatórios para uma educação básica – escolar, por exemplo – aprender o idioma é o mais importante. Sem isso, é impossível aprender outros conhecimentos básicos.


Sem conhecimento básico do idioma não conseguimos nos expressar com exatidão. Idiomas são muito complexos. Dominá-lo é para poucos.
A pobreza está diretamente relacionada ao conhecimento do idioma. Quanto menor for o conhecimento da língua pátria, maior a dificuldade para se colocar no mercado de trabalho e ter acesso a uma renda que garanta alguma dignidade.


Não saber ler significa não saber se expressar minimamente correto. Pois é, há a forma correta de falar. Pegar atalho para isso significa que será muito difícil se expressar de forma que possa ser compreendido. Não falo da comunicação de rotina. Você sabendo algumas frases em inglês, como pedir comida em um restaurante, perguntar sobre preços ou endereços, cumprimentar pessoas, pedir informações simples, entre outras, você será capaz de se virar nos Estados Unidos. Assim, com vocabulário básico na língua pátria uma pessoa pode viver melhor. A questão é que com uma linguagem básica, não se consegue evoluir socialmente. Porque é preciso ter capacidade para entender conceitos mais complexos. De expor sentimentos mais complexos. A vida não é simples.


O estilo musical “brega”, por exemplo, fala de amor de forma direta, sem rodeios. Porque acreditam que é assim que o “povão” consegue entender. Simplificam as relações amorosas, que são complexas. Os compositores do estilo MPB falam também de amor: de forma sofisticada. O público é outro. Usam e abusam das possibilidades de expressão da nossa língua.


O homem é um ser muito complexo para ser entendido em sua plenitude com poucas palavras. Não por acaso os idiomas oferecem recursos sofisticados para que essa complexidade possa ser explorada. Por isso temos institutos gramaticais como: “figuras de palavras ou semânticas: estão associadas ao significado das palavras, como metáfora, comparação, metonímia, catacrese, sinestesia e perífrase; figuras de pensamento: trabalham com a combinação de ideias e pensamentos, tais como: hipérbole, eufemismo, litote, ironia, personificação, antítese, paradoxo, gradação e apóstrofe; figuras de sintaxe ou construção: interferem na estrutura gramatical da frase, assim como: elipse, zeugma, hipérbato, polissíndeto, assíndeto, anacoluto, pleonasmo, silepse e anáfora; figuras de som ou harmonia: estão associadas à sonoridade das palavras, por exemplo: aliteração, paronomásia, assonância e onomatopeia.”


Muitas dessas não conheço. Apesar dos meus esforços. Isso me impede o acesso a determinados entendimentos.


Assim como as letras dos “bregas” são facilmente assimiladas, os discursos de autoridades populares também seguem o mesmo padrão. O povo iletrado entende muito melhor o discurso de autoridades populistas. Afinal, eles sempre têm soluções simples para problemas complexos. O povo entende e os problemas continuam e se agravam.


No Brasil, por conta do famigerado Politicamente Correto, entendeu-se – as autoridades -, que o povo não precisa ler, escrever ou falar da forma correta. O português é o idioma oficial do País e há um padrão que deve ser seguido. Ou seja, há uma forma correta de falar, escrever e ler português. Assim, ao invés de se investir no ensino do idioma, preferiu-se criar artifícios para tranquilizar os sem acesso ao ensino de qualidade e desobrigar o Estado de investir na qualidade do ensino, criaram-se institutos legitimadores da ignorância e do descaso como, preconceito linguístico – combate a forma correta, legitimando a forma errada de falar.


Uma das políticas públicas implementadas nesse sentido foi a simplificação de obras como as do escritor Machado de Assis e José de Alencar, para a população incapacitada – por falta de oportunidade – pudesse entender. Isto é, traduzir português correto para uma versão incorreta. O atalho como política pública. O autor sabe porque usou determinada palavra e não outra. Elas estão no dicionário. Há diferenças entre elas. Não se pode substituir simplesmente uma palavra por outra sem prejuízo de perda de qualidade, sem comprometimento da ideia original.


A outra forma, a correta, seria ensinar o idioma de forma que os alunos pudessem ler originais. Isso está mais que comprovado que não há interesse nesse sentido. Basta observar o sucateamento do Ministério da Educação. Em tempos de pandemia a situação somente agravou. Não há estudos que possam medir o tamanho da tragédia nesta área. Os prejuízos são incalculáveis. Não se tem ideia em quanto tempo o déficit educacional será sanado.


A banalização do ensino, na verdade, a simplificação, não cobrar a forma certa, aceitar a forma errada como um direito do aluno, é colocada com uma forma de inclusão.


A única "inclusão" possível nesse tipo de postura é condenar mais pessoas à marginalidade do conhecimento básico. Ou seja, mais pessoas falando errado e sendo respeitadas por isso. Quiçá, até elogiadas.


Este texto foi inspirado na coluna do articulista português da Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho: ''Escrita inclusiva não passa de uma fantasia da indústria de justiça social”. Veio ao encontro de uma das minhas questões políticas importantes. Sempre acreditei que se a escola pelo menos garantisse ao aluno a conclusão do ensino médio fluente em português e pensamento lógico [matemática], teria realizado um grande trabalho. Na pior das hipóteses, estaria formando autodidatas. Pessoas capazes de enfrentar a forma principal de fazer as coisas. Escapar das armadilhas dos atalhos.


Não sou tão letrado quanto gostaria de ser. Há muito tento compensar o déficit de conhecimento da língua. Não fujo de livros e textos grandes e complexos. Recorro aos dicionários e ao próprio Google para entender determinadas passagens. Isso me habilita a escrever. Me sinto gratificado, um privilegiado mesmo, por poder escrever. Isso é fruto dos meus esforços pessoais, porque entendi – em algum momento da minha vida -, que queria trabalhar em lugares onde eu pudesse usar calças, camisas mangas longas, sapatos, meias, e gravatas, não sentir calor e ainda receber salário que possibilitasse alguma dignidade. Consegui. E vi essa possibilidade nos estudos. No modo de falar. No modo de escrever. As empresas exigem padrão correto de fala e escrita para determinados cargos. Eu queria um desses. Sou fruto dessa crença: me expressar e escrever pelo menos próximo do correto para encontrar o trabalho desejado. A consequência lateral que está se tornando a principal - estou aposentado -, é poder ajudar pessoas com textos que possam ajudá-las a encontrar formas de melhorar seus pensamentos e assim, melhorar suas vidas.


Tenho baixa tolerância para erros. Principalmente com os meus. É uma obsessão: evitar erros que possam prejudicar terceiros. Continuo falando errado e escrevendo errado. Jamais me acomodarei com isso. As pessoas que me conhecem sabem que podem me corrigir, de preferência em particular e com respeito, claro. Sempre serei muito grato por gestos assim.


Coutinho escreveu no seu texto a definição perfeita sobre “escrita inclusiva”. Não é só no Brasil que há movimentos políticos ou sociais contra o desenvolvimento humano fundamental, o Reino Unido também. Infelizmente.


Escreveu João: “... algumas universidades britânicas estão dispostas a permitir erros ortográficos, gramaticais e de pontuação aos alunos. A ideia é promover uma “escrita inclusiva”, o que significa que grupos marginalizados, incapazes de escrever uma frase com sujeito, predicado e complemento direto, não devem ser penalizados por isso”.


Sabemos que as línguas evoluem. Geralmente no sentido da simplificação, assim como as formalidades. Cada vez que isso acontece há, sim, um empobrecimento ou mesmo um retrocesso [um atalho] da questão do desenvolvimento humano. Há coisas que não podem ser mudadas sem prejuízos incalculáveis. Não há como mudar o resultado de dois mais dois. Ouso a comparar o empobrecimento linguístico com o atalho para combater uma pandemia, quando a ciência é ignorada. Nesse caso, há consequências imediatas. No caso da flexibilização na escola quanto a forma de falar e escrever, terá também consequências. Mais dia menos dia. Isso tudo está acontecendo como fruto de ideias passadas sobre eliminar as formalidades. Simplificar a vida. Não dá certo porque é uma solução muito simples para um problema muito complexo. Me parece que se trata de um processo irreversível. Estamos piorando em nome da inclusão. Não há como prever dias melhores. Cuidemos de nos adaptar e continuar evitando atalhos, mesmo que se tornem um padrão.


Realmente há a necessidade de se modular a linguagem de acordo com o público. Profissões têm seus respectivos dicionários técnicos. Na verdade, há mais dicionários além do Aurélio. Quando estão entre seus pares, a linguagem e a escrita devem obedecer a um padrão específico. O terror dos alunos de graduação é o artigo científico e suas regras de formatação e escrita. É um sintoma da deficiência linguística. Não duvido que apareçam movimentos para acabar com os trabalhos de conclusão de curso, já bem simplificado. Antes, era exigido a produção de uma monografia. Mais complexa.


Se você precisa modular sua linguagem todas as vezes que tiver que falar com pessoas de classes sociais diferentes é um sinal claro do abismo que separa socialmente as pessoas. A linguagem separa as pessoas. O preconceito linguístico é um atalho para aproximar os destituídos de conhecimentos básicos do idioma nacional dos demais. Bom, o único resultado é maior o afastamento. Pode até tolerar, mas não haverá a aceitação plena. Não haverá a percepção de igualdade, apenas de tolerância, até para não ser acusado de preconceituoso, e até levar um processo.


Quando li a notícia da flexibilização da língua no Reino Unido – tenho sempre como referência, países da Europa quando se fala de conhecimento, desenvolvimento humano etc. -, assim como o Coutinho, confirmei “uma vez mais o caminho de ruína que as humanidades escolheram há muito”. Se países de primeiro mundo aderem a esse tipo de inclusão, isso de certa forma credencia a prática em nosso país. Temos tendências para copiar práticas ruins de países desenvolvidos. Talvez nunca se transformem em um país de terceiro mundo. O fato é que não se chega ao patamar de país desenvolvido flexibilizando desenvolvimento humano. Nem mesmo um indivíduo chega à excelência pegando atalhos. O contrário é verdadeiro. Pessoas e países que abandonam formas corretas ou de referência para se desenvolverem perdem qualidade. Definham.


O Brasil precisa que os brasileiros conheçam a língua para chegar ao patamar de países de primeiro mundo. Isso cada vez está mais distante. Não há indícios para acreditar que um dia nos tornaremos um país realmente desenvolvido. Para isso, não podemos pegar atalhos. Somos conhecidos como o “país do jeitinho” – atalhos. Isso está impregnado no povo. Ainda, de certa forma, nos orgulhamos da nossa esperteza. Continuo à espera de um milagre. A ignorância chegou ao topo. Difícil reverter. A ver.


O empobrecimento do conhecimento da língua facilita a crença em soluções simples para problemas complexos, e até mesmo na disseminação de Fake News? Facilita a crença na informação em redes sociais e a hostilizar a informação mais aprofundada dos grandes jornais ou de analistas reconhecidos? A ideologia cega - atalho. A técnica ilumina – forma correta.


O fato é que há pessoas que podem modular discurso para atingir qualquer público. A questão é que os empobrecidos linguisticamente não entendem outra linguagem a não ser a simplista e não tem a capacidade de modular. Isto é, adequar o discurso de acordo com o público. Falam e escrevem da mesma forma para qualquer público.


O conhecimento de inclusão, segundo o articulista, é apenas uma questão romântica, “Mas, no mundo real, a “matemática inclusiva” levaria à queda de pontes; a “física inclusiva” levaria à queda de aviões; e se o leitor, no bloco operatório, soubesse que o seu cirurgião era versado em “anatomia inclusiva”, o melhor era tentar fugir dali antes que a anestesia começasse a fazer efeito.” Completo raciocínio acrescentando que o “português inclusivo” ou a “literatura inclusiva”, levaria e leva a estagnação, a ignorância, a falta de perspectiva, a incapacidade de autodesenvolvimento entre muitas outras consequências danosas.


Como você pode observar, até para ajudar tem que ser da maneira certa. Não pode haver gambiarra para ensinar, principalmente uma língua. Não pode haver atalhos no aprendizado.


Ok! Fazemos o que está ao nosso alcance. O importante quando estiver ensinando alguém de maneira simplificada, é deixar claro, muito claro mesmo, sem restarem dúvidas, que o que está passando é um atalho e que a pessoa deve procurar a forma correta para aprender ou fazer algo. Afinal, na incapacidade de se iniciar algo por falta do conhecimento correto, atalhos que possam induzir ao início de um movimento, ainda é melhor que não fazer nada. O erro, o crime é passar um atalho como o principal. Como sendo a única maneira. Deixar claro que o que foi ensinado ou está sendo ensinado servirá somente para uma determinada coisa e, se pretender fazer mais, terá que procurar a maneira certa de fazer. Isso é bondade de gente boa. A propaganda de remédios comuns destaca que: se os sintomas persistirem procure um médico. O ideal mesmo seria procurar um médico. O ideal é ter a percepção correta de quando podemos resolver algo pegando atalhos e ter noção da possibilidade de efeitos colaterais graves. Em emergências, na impossibilidade de fazer a coisa certa, pode-se apelar ao atalho. O risco será sempre maior, se não funcionar. E se funcionar, terá o tempo para fazer a coisa certa e resolver o problema de vez. O fundamental é ter consciência que está praticando um atalho e não a maneira correta.


Sou consciente que preciso melhorar na minha forma de escrever. Para isso tenho que melhorar a minha forma de pensar. O que consegui aprender até agora – incluindo as aprendidas por atalhos -, me capacitam a escrever assim. Sei que há formas corretas, há um padrão para escrever e ser reconhecido por isso. Por outro lado, escrever como consigo agora é o exercício necessário para a minha evolução. A cada texto é uma oportunidade para melhorar.


O Marcelo D2 tem uma música intitulada “A procura da batida perfeita”. Eu sei que existem textos perfeitos. Estou à procura dos meus. Sem atalhos.


Mudar Para Viver Melhor

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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