Terça-feira, 28 de abril de 2026 - 10h05

Silenciosa, comum e muitas vezes negligenciada, a
hipertensão arterial segue como um dos principais gatilhos para duas das
doenças que mais matam no país: infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Só em 2025, o Brasil registrou 156.981 mortes por
infarto e 130.963 por AVC, segundo levantamento da Organização Nacional de
Acreditação (ONA), com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM),
do Ministério da Saúde (DATASUS).
Os dados incluem diferentes tipos de eventos
cardiovasculares e reforçam o tamanho do problema: foram ainda 64.109 óbitos
por insuficiência cardíaca. Para 2026, os números ainda estão em consolidação,
mas já indicam a continuidade do cenário preocupante. Total de 352.053 óbitos
por infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
Em Rondônia, foram registrados 970 óbitos por
infarto; 696 por AVC e 556 por insuficiência cardíaca, totalizando 2.222
mortes.

Uma doença silenciosa e perigosa - A hipertensão é
considerada uma doença silenciosa justamente porque, na maioria dos casos, não
apresenta sintomas. É um dos principais fatores de risco para doenças
cardiovasculares no mundo, como infarto e AVC. “Ela pode causar lesões
progressivas nos órgãos-alvo, como coração e cérebro, mesmo antes do surgimento
de sintomas. Infelizmente, muitos pacientes desconhecem que são hipertensos e
acabam recebendo o diagnóstico apenas após um evento mais grave”, alerta o
intensivista e membro da ONA, dr. Fábio Basílio.
O especialista ressalta, no entanto, que a
hipertensão arterial é considerada um fator de risco modificável. “Quando
identificada precocemente e devidamente acompanhada, é possível reduzir de
forma significativa o risco de complicações ao longo do tempo, mas não deve ser
subestimada justamente por seu caráter silencioso”.
Para o doutor, a identificação precoce é uma das
estratégias mais importantes para prevenir eventos cardiovasculares graves e
reduzir mortes evitáveis. “Quando o paciente descobre a hipertensão
tardiamente, muitas vezes já existe algum grau de comprometimento
cardiovascular. Por isso, o diagnóstico precoce faz toda a diferença”.
Como identificar um AVC precoce? O SAMU destaca a
escala de Cincinatti utilizada como uma ferramenta de reconhecimento precoce.
“É importante sempre pedir para a pessoa sorrir, levantar os braços e falar.
Qualquer sintoma novo como assimetria na face durante um sorriso, perda de
força em um dos braços ou fala enrolada, o indivíduo deverá procurar
atendimento de urgência”, alerta o doutor.
Quando começar a tratar - As Diretrizes Brasileiras
de Hipertensão Arterial, atualizadas em 2025 por sociedades médicas
(Cardiologia, Hipertensão e Nefrologia), reforçam que níveis de pressão
arterial acima de 120 por 80 mmHg já são associadas ao aumento do risco
cardiovascular, inclusive em indivíduos aparentemente saudáveis. “A aferição da
pressão arterial é fundamental, mesmo na ausência de sintomas. A prevenção
começa com acompanhamento, mudança de hábitos e controle dos fatores de risco”,
explica o doutor.
AVC: fatores de risco e sinais de alerta - O AVC
está diretamente associado a fatores como envelhecimento, hipertensão,
diabetes, tabagismo, sedentarismo, estresse, colesterol elevado e histórico
familiar. Pessoas acima de 55 anos têm maior risco, especialmente quando
acumulam essas condições.
“É uma soma de fatores. A hipertensão, sozinha, já
é um risco importante, mas quando combinada com outros hábitos e doenças, o
perigo aumenta exponencialmente”, destaca o dr. Fábio.
Os sinais de alerta exigem atenção imediata:
alteração no equilíbrio e coordenação; dificuldade para falar ou compreender;
alteração na visão; dor de cabeça súbita e intensa; e fraqueza ou paralisia em
um lado do corpo. “Diante de qualquer um desses sintomas, não se deve esperar.
O tempo de resposta é determinante para evitar sequelas e até a morte”, reforça
o intensivista.
Tipos de AVC - Existem dois tipos principais de
AVC:
Isquêmico: causado pela obstrução de uma artéria,
impedindo a chegada de oxigênio ao cérebro (cerca de 85% dos casos)
Hemorrágico: ocorre quando há rompimento de um vaso
cerebral, com sangramento (mais grave e com maior risco de morte)
Falhas no atendimento ainda agravam casos de AVC -
Apesar de ser uma condição tratável, o AVC ainda enfrenta falhas importantes no
cuidado em saúde e muitas delas evitáveis.
Na fase inicial, é comum a dificuldade em
reconhecer os sinais ou até a sua subestimação, além da confusão com outras
condições, como enxaqueca ou vertigem. Também há atrasos na realização de
exames essenciais, como a tomografia, o que compromete decisões rápidas.
Durante o atendimento, um dos principais problemas
é a perda do tempo ideal para uso de medicamentos que dissolvem o coágulo, além
do controle inadequado da pressão arterial e da falta de encaminhamento para
procedimentos que podem retirar o coágulo do vaso, quando indicados.
“Cada minuto perdido no AVC significa perda de
função cerebral. Quando o atendimento falha, o impacto pode ser irreversível”,
alerta o cardiologista.
Na internação, persistem falhas como erros de
medicação, monitoramento insuficiente e problemas na comunicação entre equipes,
além da prevenção inadequada de complicações, como pneumonia e trombose.
Após a alta, a ausência de um plano estruturado de
reabilitação e a investigação incompleta da causa do AVC aumentam
significativamente o risco de novos episódios.
Infarto: sinais que não podem ser ignorados - Os
principais sintomas de infarto incluem dor ou pressão no peito — que pode
irradiar para braço, mandíbula ou costas — além de falta de ar, suor frio,
náuseas e tontura.
Em alguns casos, os sinais podem ser confundidos
com problemas digestivos, o que atrasa a busca por atendimento. “Desconfortos
abdominais, como náuseas e indigestão, também podem indicar infarto e não devem
ser ignorados”, alerta o cardiologista. “Muitos pacientes ainda chegam tarde ao
hospital porque não reconhecem os sinais. Isso reduz drasticamente as chances
de recuperação”, complementa.
Erros evitáveis no cuidado ao infarto - Entre as
falhas mais comuns estão o atraso no atendimento, problemas no uso de
medicamentos, diagnóstico tardio e falta de continuidade do cuidado após a alta
hospitalar.
Esses fatores impactam diretamente a evolução do
paciente e aumentam o risco de complicações e morte. “Não basta tratar o evento
agudo. É fundamental garantir continuidade do cuidado para evitar novos
episódios”, destaca.
Acreditação: organização que salva vidas - A adoção
de processos estruturados de qualidade e segurança — como os modelos de
acreditação em saúde, a exemplo da Organização Nacional de Acreditação — tem
impacto direto na prevenção de eventos graves, como infarto e AVC.
Instituições acreditadas operam com protocolos
rigorosos que permitem identificar precocemente pacientes de risco e agir com
rapidez em situações críticas. Isso se traduz em monitoramento mais eficiente,
atendimento padronizado, redução de erros e maior integração entre equipes.
Mais do que processos, a acreditação fortalece uma
cultura de segurança, na qual sinais não são ignorados e decisões são baseadas
em evidências.
“Quando falamos de infarto e AVC, tempo e precisão
fazem toda a diferença. Serviços organizados conseguem agir mais rápido,
reduzir complicações e salvar vidas”, conclui.
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