Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 - 07h55

ENGLISH / ESPANOL
As reflexões apresentadas neste ensaio possuem caráter teórico e estrutural, não sendo direcionadas a qualquer sistema jurídico, instituição ou jurisdição específica, mas a dinâmicas historicamente observáveis em sociedades marcadas por desigualdades no acesso à justiça.
A Divisão Histórica Entre os que Decidem e os que
Obedecem
A humanidade sempre esteve dividida entre aqueles que
decidem e aqueles que obedecem; entre os que acumulam e os que sobrevivem. Reis
e servos, senhores e escravizados, empregadores e explorados. Ao longo da história, essa
divisão foi apresentada como ordem natural ou
consequência do mérito individual.
No entanto, uma análise honesta revela algo menos nobre: um sistema em que
as regras são frequentemente moldadas para proteger privilégios, e não para
garantir justiça.
O filósofo Jean-Jacques Rousseau alertava que:
“O primeiro homem que, tendo cercado um
terreno, disse ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente ingênuas para acreditá-lo, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.”
Essa observação expõe uma verdade incômoda: boa parte do que chamamos de direito nasce não de
um consenso moral universal, mas da capacidade de impor narrativas que
legitimem a apropriação e a exclusão.
Quando o Direito Deixa de Ser Dever e se
Torna Poder
O Direito moderno foi concebido, ao menos em sua promessa
normativa, como um dever institucional — um
compromisso ético
de contenção do arbítrio e de proteção da
dignidade humana.
Sua legitimidade repousaria na ideia de que a força seria substituída pela norma, e o privilégio pelo princípio.
Contudo, na prática, observa-se um deslocamento silencioso: o Direito
deixa de operar como limite ao poder e passa a funcionar como sua tecnologia de
gestão.
Normas jurídicas, procedimentos técnicos e interpretações hermenêuticas passam a ser instrumentalizados não para assegurar
equidade, mas para administrar assimetrias — tornando-as
legalmente aceitáveis.
O que deveria constituir uma obrigação moral de justiça converte-se em um mecanismo funcional de manutenção de
hierarquias.
Nesse cenário,
o cumprimento da lei deixa de ser expressão de dever e transforma-se em exercício estratégico de poder.
A legalidade não mais protege o justo, mas o viável.
E o viável,
quase sempre, coincide com o economicamente defendável.
Quando a Justiça se Torna um Serviço Técnico
Com o passar do tempo, essas narrativas se sofisticaram.
A justiça, concebida como instrumento
de equilíbrio social, passou
gradualmente a funcionar como um serviço técnico — acessível apenas àqueles que dispõem de recursos financeiros suficientes
para custeá-la.
Em muitos casos, o desfecho de um processo judicial não é determinado
pela gravidade do ato cometido, mas pela qualidade da defesa contratada.
Essa defesa é frequentemente construída por profissionais que juraram observância à busca pela justiça, mas que, na prática, tornam-se mercenários dela —
pagos para reinterpretar fatos, diluir
responsabilidades ou transformar crimes em teses defensivas aceitáveis.
Assim, crimes deixam de ser julgados por seus efeitos e
passam a ser avaliados por sua viabilidade jurídica.
A verdade factual cede espaço à narrativa mais bem financiada.
E é nesse
ponto que se instala uma distorção perigosa: quando o tecnicismo prevalece
sobre os méritos
da justiça, transforma-se em
justificativa que garante a impunidade — e, por
consequência, a própria
injustiça.
A Lei que Não se Aplica aos Seus Próprios Criadores
Mais grave ainda: os próprios
mentores das leis e normas frequentemente não se submetem a elas.
Quando desmascarados violando aquilo que ajudaram a
instituir, veem seus crimes e transgressões atenuados por penas brandas que
estimulam a impunidade.
O recado transmitido à sociedade é devastador — a justiça deixa de ser um princípio universal e passa a operar como um apêndice funcional a serviço de elites econômicas e políticas.
Forma-se, assim, um cenário circense de ultrajante vergonha para a própria
dignidade humana.
O Princípio Ético que o Sistema Insiste em Ignorar
O filósofo Immanuel Kant sustentava que todo ser humano deve
ser tratado como um fim em si mesmo, nunca apenas como um meio.
No entanto, quando trabalhadores são reduzidos a estatísticas de produtividade e comunidades inteiras são
privadas de representação real, pessoas passam a ser tratadas como instrumentos
descartáveis de uma
engrenagem econômica.
Um Chamado à Consciência dos Operários da Justiça
Mais do que uma crítica estrutural, este é um
chamado à consciência elementar daqueles que se dizem operários da justiça.
Aos advogados cuja motivação, em muitos casos, parece
resumir-se ao alcance de fortunas construídas à custa
do sofrimento que aflige a parcela mais vulnerável da população — cidadãos
de baixo poder aquisitivo.
O exercício
do Direito não pode converter-se em um mercado onde a dor alheia se transforma
em oportunidade de lucro.
A desigualdade não pode ser tratada como modelo de negócios.
Quando a técnica jurídica
é usada
para blindar poderosos e abandonar desassistidos, a justiça deixa de cumprir sua função social e passa a
reproduzir, com verniz institucional, as mesmas assimetrias que deveria
combater.
Dignidade Não Deve Ser um Privilégio
A discrepância
entre a riqueza concentrada nas mãos de poucos e a privação enfrentada por
muitos não é apenas econômica — é ética.
Nenhum argumento técnico pode justificar moralmente que, em um planeta com
recursos suficientes para garantir o básico a todos, milhões ainda vivam sem acesso real à moradia, saúde ou educação.
A posse é temporária.
A dignidade deveria ser permanente.
Se uma ordem social depende da exclusão sistemática para funcionar, então ela não é apenas
imperfeita — ela é antagônica
ao próprio princípio de justiça que afirma defender.
E quando a legalidade protege o injusto, cabe à consciência
humana questionar não apenas quem viola a lei, mas quem a escreveu — e para
quem.
___________________________
ENGLISH
When Justice Is Reduced to Legal Abstraction and Dissolves into Privilege
The reflections presented in this essay are theoretical and structural in nature and are not directed at any specific legal system, institution, or jurisdiction, but rather at dynamics historically observed in societies marked by unequal access to justice.
Historical Divide Between Those Who Decide and Those Who Obey
Humanity has always been divided between those who
decide and those who obey; between those who accumulate and those who merely
survive. Kings and servants, masters and the enslaved, employers and the
exploited. Throughout history, this division has been presented as a natural
order or as a consequence of individual merit.
However, an honest analysis reveals something less
noble: a system in which rules are often shaped to protect privilege rather
than to guarantee justice.
The philosopher Jean-Jacques Rousseau warned that:
“The first man who,
having enclosed a piece of land, said ‘this is mine’
and found people naïve
enough to believe him, was the true founder of civil society.”
This observation exposes an uncomfortable truth: much
of what we call law emerges not from universal moral consensus, but from the
ability to impose narratives that legitimize appropriation and exclusion.
When Law Ceases to Be Duty and
Becomes Power
Modern law was conceived — at least in its normative
promise — as an institutional duty: an ethical commitment to restrain
arbitrariness and protect human dignity.
Its legitimacy would rest on the idea that force would
be replaced by norms, and privilege by principle.
Yet in practice, a silent shift becomes evident: law
ceases to operate as a limit to power and begins to function as a technology
for its management.
Legal norms, technical procedures, and interpretative
frameworks become instrumentalized not to ensure equity, but to administer
asymmetries — rendering them legally acceptable.
What should constitute a moral obligation to justice
becomes a functional mechanism for maintaining hierarchies.
In this scenario, compliance with the law ceases to be
an expression of duty and becomes a strategic exercise of power.
Legality no longer protects what is just, but what is
viable.
And what is viable almost always coincides with what
is economically defensible.
When Justice Becomes a Technical
Service
Over time, these narratives have grown more
sophisticated. Justice, conceived as an instrument of social balance, has
gradually come to function as a technical service — accessible only to those
with sufficient financial resources to afford it.
In many cases, the outcome of a legal proceeding is
determined not by the gravity of the act committed, but by the quality of the
defense retained.
Such defense is often constructed by professionals
sworn to the pursuit of justice but who, in practice, become its mercenaries —
paid to reinterpret facts, dilute responsibility, or transform crimes into
legally acceptable defensive theses.
Thus, crimes cease to be judged by their effects and
are instead evaluated by their legal viability.
Factual truth yields to the most well-funded
narrative.
And it is precisely here that a dangerous distortion
emerges: when technicality prevails over the merits of justice, it becomes a
justification that guarantees impunity — and, consequently, injustice itself.
The Law That Does Not Apply to Its
Own Creators
Even more troubling is the fact that the very
architects of laws and norms often do not submit to them.
When exposed for violating what they themselves helped
establish, their crimes and transgressions are frequently mitigated by lenient
penalties that foster impunity.
The message conveyed to society is devastating —
justice ceases to be a universal principle and begins to operate as a
functional appendage in service of economic and political elites.
A grotesque scenario of shame emerges, affronting the
very dignity of the human condition.
The Ethical Principle the System
Insists on Ignoring
The philosopher Immanuel Kant maintained that every
human being must be treated as an end in themselves, never merely as a means.
Yet when workers are reduced to productivity
statistics and entire communities are deprived of real representation, people
become disposable instruments in an economic machine.
A Call to the Conscience of Justice’s Practitioners
More than a structural critique, this is a call to the
fundamental conscience of those who claim to be practitioners of justice.
To lawyers whose motivation, in many cases, seems to
be the pursuit of fortunes built upon the suffering of society’s most vulnerable
— citizens of limited economic means.
The practice of law must not become a marketplace
where the pain of others is transformed into profit.
Inequality must not be treated as a business model.
When legal technique is used to shield the powerful
and abandon the unassisted, justice ceases to fulfill its social function and
begins to reproduce, under institutional varnish, the very asymmetries it was
meant to combat.
Dignity Should Not Be a Privilege
The discrepancy between wealth concentrated in the
hands of a few and the deprivation faced by many is not merely economic — it is
ethical.
No technical argument can morally justify that, on a
planet with sufficient resources to guarantee the basics for all, millions
still live without real access to housing, healthcare, or education.
Possession is temporary.
Dignity should be permanent.
If a social order depends on systematic exclusion to
function, then it is not merely imperfect — it is antagonistic to the very
principle of justice it claims to uphold.
And when legality protects the unjust, it is the
responsibility of human conscience to question not only those who violate the
law, but those who wrote it — and for whom.
_____________________
ESPANOL
Cuando la Justicia se Convierte en una Abstracción del Derecho y se Diluye en Privilegio
Las reflexiones presentadas en este ensayo tienen carácter teórico y estructural y no están dirigidas a ningún sistema jurídico, institución o jurisdicción específica, sino a dinámicas históricamente observables en sociedades marcadas por desigualdades en el acceso a la justicia.
La División Histórica Entre Quienes Deciden y
Quienes Obedecen
La humanidad siempre ha estado dividida entre
quienes deciden y quienes obedecen; entre quienes acumulan y quienes apenas sobreviven.
Reyes y siervos, amos y esclavizados, empleadores y explotados. A lo largo de
la historia, esta división ha sido presentada como un orden natural o como
consecuencia del mérito individual.
Sin embargo, un análisis honesto revela algo menos noble: un
sistema en el que las reglas son frecuentemente moldeadas para proteger
privilegios y no para garantizar justicia.
El filósofo
Jean-Jacques Rousseau advirtió que:
“El primer hombre
que, tras cercar un terreno, dijo ‘esto es mío’
y encontró personas lo suficientemente ingenuas para
creerle, fue el verdadero fundador de la sociedad civil.”
Esta observación
expone una verdad incómoda: gran parte de lo que llamamos derecho no surge de
un consenso moral universal, sino de la capacidad de imponer narrativas que
legitimen la apropiación y la exclusión.
Cuando el Derecho Deja de Ser Deber
y se Convierte en Poder
El derecho moderno fue concebido — al
menos en su promesa normativa — como un deber institucional: un compromiso ético
de contener la arbitrariedad y proteger la dignidad humana.
Su legitimidad descansaría en la idea de que la fuerza sería sustituida por la norma y el privilegio por
el principio.
Sin embargo, en la práctica, se observa un desplazamiento
silencioso: el derecho deja de operar como límite al poder y pasa a funcionar como una tecnología de gestión
del mismo.
Las normas jurídicas, los procedimientos técnicos
y las interpretaciones hermenéuticas comienzan a ser instrumentalizados no
para asegurar la equidad, sino para administrar asimetrías — haciéndolas
legalmente aceptables.
Lo que debería constituir una obligación moral de justicia se
convierte en un mecanismo funcional de mantenimiento de jerarquías.
En este escenario, el cumplimiento de la ley deja de
ser expresión de deber y se transforma en un ejercicio estratégico de poder.
La legalidad ya no protege lo justo, sino lo viable.
Y lo viable, casi siempre, coincide con lo
económicamente defendible.
Cuando la Justicia se Convierte en
un Servicio Técnico
Con el paso del tiempo, estas narrativas se han
sofisticado. La justicia, concebida como instrumento de equilibrio social, ha
pasado gradualmente a funcionar como un servicio técnico — accesible
solo para quienes disponen de recursos financieros suficientes para costearla.
En muchos casos, el desenlace de un proceso judicial
no está determinado
por la gravedad del acto cometido, sino por la calidad de la defensa
contratada.
La verdad factual cede espacio a la narrativa mejor
financiada.
Cuando el tecnicismo prevalece sobre los méritos
de la justicia, se convierte en una justificación que garantiza la impunidad — y,
por consiguiente, la propia injusticia.
La Dignidad No Debe Ser un
Privilegio
La discrepancia entre la riqueza concentrada en
manos de unos pocos y la privación que enfrentan muchos no es solo económica — es ética.
Ningún
argumento técnico puede justificar moralmente que, en un planeta
con recursos suficientes para garantizar lo básico a todos, millones aún vivan sin acceso real a vivienda, salud o
educación.
La posesión es temporal.
La dignidad debería ser permanente.
Si un orden social depende de la exclusión sistemática para funcionar, entonces no es simplemente
imperfecto — es antagónico al propio principio de justicia que afirma
defender.
Y cuando la legalidad protege lo injusto, corresponde a la conciencia humana cuestionar no solo a quienes violan la ley, sino a quienes la escribieron — y para quién.
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