Sexta-feira, 12 de junho de 2026 - 13h35

Na coreografia da fuga coletiva. O estádio apenas revela, em cores festivas, uma fraqueza
mais profunda da espécie humana: a facilidade com que multidões entregam a própria lucidez a símbolos, líderes, deuses, bandeiras, ideologias e espetáculos.
A bola, nesse contexto, é apenas mais um pêndulo diante dos olhos de uma humanidade
treinada — e talvez
vocacionada — para
entrar em transe.
1. O teatro
iluminado da ausência de razão
O que chamamos
de civilização talvez seja, em grande parte, apenas o nome elegante dado ao
espetáculo patético realizado no vazio deixado pela ausência da
razão. Um teatro planetário bem iluminado, ruidoso, colorido e lucrativo, onde
multidões se distraem com a bola, com os deuses, com as telas, com os ídolos,
com as bandeiras, com as fantasias e com as promessas — enquanto
a realidade, silenciosa e brutal, continua soterrando milhões sob a fome, a
guerra, a miséria, a violência, a ignorância e a destruição
ambiental.
O problema da
humanidade não é falta
de informação. É falta
de coragem moral para encará-la.
A humanidade
moderna aperfeiçoou como poucas espécies a
arte de fugir daquilo que sabe. Já não pode alegar inocência. Os números existem.
As imagens existem. Os relatórios
existem. As estatísticas existem. A tragédia está documentada, medida, arquivada,
traduzida, publicada e, ainda assim, convenientemente ignorada.
2. A
coreografia da fuga coletiva
Enquanto
alguns olham para a esquerda, outros para a direita, outros para o céu e milhões para a direção em que uma bola é chutada, o planeta continua produzindo
cadáveres, famintos, mutilados, explorados, abandonados e esquecidos. A
coreografia é quase perfeita: a multidão suspira,
grita, canta, reza, aplaude e consome. Poucos pensam. Menos ainda ousam
interromper o delírio coletivo para perguntar que tipo de civilização comemora
tanto enquanto fracassa no básico.
Não se trata
de condenar a alegria. Trata-se de denunciar a anestesia.
O problema
começa quando a distração deixa de ser pausa e se transforma em fuga moral.
Quando o espetáculo serve para ocultar a ruína. Quando a fé substitui
a responsabilidade. Quando o entretenimento substitui a consciência. Quando o
consumo substitui a compaixão. Quando a fantasia coletiva passa a valer mais do
que a realidade concreta de seres humanos e animais esmagados pela engrenagem.
3. A indústria
da alienação
A indústria do
entretenimento compreendeu perfeitamente a fragilidade humana: é mais lucrativo vender fuga do que
promover lucidez. A religião organizada, em muitos casos, também compreendeu. A política, igualmente. A mídia,
nem se fala. Todas descobriram que multidões emocionalmente conduzidas são mais
previsíveis do que cidadãos racionalmente despertos.
O indivíduo
que pensa incomoda. O indivíduo que torce, consome, teme, idolatra ou obedece
movimenta mercados.
Nesse cenário,
a civilização se revela menos racional do que pretende parecer. Ela ergue estádios,
templos, palcos, cassinos, centros de consumo e impérios midiáticos, mas ainda aceita como normal
que bilhões vivam sem saneamento adequado, que milhões morram de fome ou
desnutrição, que guerras sejam tratadas como tabuleiros estratégicos, que animais sejam sacrificados em escala industrial
e que a destruição ambiental seja contabilizada como efeito colateral do
progresso.
4. A
contabilidade moral do planeta
A ironia se
torna ainda mais obscena quando a festa é colocada
ao lado dos números. Para a Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos,
Canadá e México, a previsão oficial revisada da FIFA aponta
receita total próxima de US$
8,9 bilhões no ano do evento, impulsionada principalmente por transmissão,
ingressos, hospitalidade e marketing.
Nada disso
seria problema se o planeta também
demonstrasse a mesma eficiência, pressa e criatividade para enfrentar suas tragédias essenciais. Mas a contabilidade moral da
humanidade revela outro quadro.
Nas guerras
recentes, o número de mortos já alcança
patamares que deveriam constranger qualquer discurso civilizatório. A guerra Rússia-Ucrânia
acumula centenas de milhares de militares mortos e dezenas de milhares de civis
atingidos. O conflito Israel-Gaza/Hamas produziu dezenas de milhares de mortos
em Gaza, além das vítimas israelenses
de 7 de outubro de 2023. O confronto Israel-Líbano/Hezbollah acrescenta
milhares de vidas perdidas. Os episódios
envolvendo EUA, Israel e Irã somam também
mortos militares e civis, dependendo do período e da fonte considerada.
Enquanto isso,
a fome e a desnutrição continuam matando em silêncio burocrático.
As estimativas globais apontam algo na ordem de 8 a 9 milhões de mortes por
ano associadas à fome e à desnutrição — cerca
de 22 mil a 25 mil pessoas por dia.
Não é uma tragédia
ocasional. É uma máquina diária
de desaparecimento humano.
No campo do
saneamento básico, aproximadamente 42% da população mundial ainda vive
sem acesso a saneamento seguro ou adequadamente gerenciado. Em termos humanos,
isso representa cerca de 3,4 bilhões de pessoas expostas a condições incompatíveis com qualquer ideia
minimamente séria de civilização.
Na saúde, mais
de 4,5 bilhões de seres humanos ainda vivem sem acesso pleno a serviços
essenciais de saúde. Enquanto nações disputam influência, mercados disputam
lucros e multidões disputam narrativas, metade da humanidade segue vulnerável
diante de necessidades básicas de atendimento.
A destruição
ambiental, por sua vez, já não pode ser tratada como abstração. Guerras,
combustíveis fósseis, agricultura
predatória, poluição, desmatamento e exploração
econômica irresponsável produzem danos estimados em dezenas de trilhões de dólares
por ano. Algumas estimativas ambientais chegam à ordem de US$ 45 trilhões
anuais em prejuízos associados à produção insustentável, impactos climáticos,
destruição da natureza, poluição e custos à saúde e à economia.
Na distribuição
da riqueza, a obscenidade ganha forma matemática. Os 10% mais ricos
concentram cerca de 75% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre
da humanidade possui aproximadamente 2%.
A razão,
diante disso, não pergunta se há desigualdade. Pergunta como ainda há quem
chame esse arranjo de ordem natural, mérito
ou progresso.
A violência cotidiana também
desmonta a fantasia civilizatória. Homicídios intencionais no mundo giram em
torno de 450 mil a 500 mil mortes por ano, algo próximo de 52 mortes por hora. Mulheres e
meninas continuam sendo mortas por parceiros, familiares ou agressores próximos em números moralmente insuportáveis.
Em muitos casos, a omissão, a resposta tardia ou a fragilidade institucional
apenas completam o círculo da negligência.
E há ainda os
animais — os seres sem discurso, sem advogado,
sem bandeira, sem religião, sem nacionalidade e quase sempre sem defesa.
Aproximadamente 88 bilhões de animais terrestres são abatidos por ano
para alimentação. Quando os peixes entram na contabilidade, a escala deixa os
bilhões e alcança os trilhões. Populações
monitoradas de vertebrados selvagens caíram drasticamente desde 1970, enquanto
cerca de 1 milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção.
Essa é a contabilidade moral do planeta.
De um lado,
cifras bilionárias para espetáculos capazes de mobilizar paixões, consumo,
publicidade, turismo e emoção coletiva. De outro, fome, guerra, abandono sanitário,
colapso ambiental, concentração indecente de riqueza, violência diária e sacrifício
industrializado da vida animal.
A matemática,
quando exposta sem maquiagem, torna-se uma forma de julgamento moral.
5. A espécie que foge do espelho
Eis a ironia:
a espécie que se
proclama racional precisa de distrações permanentes para não enlouquecer
diante do espelho. Talvez por isso prefira o ruído. O silêncio obrigaria a
pensar. E pensar, para uma humanidade treinada na fuga, tornou-se quase um ato
de insubordinação.
A humanidade
aprendeu a cruzar oceanos, perfurar montanhas, decifrar genes, produzir inteligência
artificial, transmitir imagens em tempo real e sonhar com a colonização de
outros planetas. Mas ainda não aprendeu a impedir que crianças morram de fome,
que populações inteiras vivam na sujeira, que inocentes sejam esmagados por
guerras, que mulheres sejam assassinadas dentro de suas próprias casas, que animais sejam tratados
como mercadoria descartável e que a natureza seja saqueada como se não houvesse
amanhã.
Superior em técnica, talvez. Em maturidade moral,
certamente não.
6. Marte não absolverá a barbárie terrestre
Há algo de profundamente ridículo — e tragicamente revelador — em uma espécie
que pretende levar sua presença a Marte enquanto ainda não resolveu a barbárie
moral que carrega na Terra. Como se mudar de planeta fosse suficiente para
purificar a mente que devastou este.
O ser humano
pode transportar máquinas, satélites,
bandeiras e discursos grandiosos para outros mundos; mas, se levar consigo a
mesma ganância, a mesma vaidade, a mesma ignorância e a mesma mediocridade
tribal, apenas exportará o circo.
A questão fundamental não é tecnológica. É
ética. Não é espacial.
É mental. Não é a
falta de céu. É a falta de razão.
7. As
liturgias da fuga: fé, política
e entretenimento
A fé, quando convertida em delírio coletivo, oferece
uma das fugas mais antigas. Promete compensações invisíveis
para injustiças visíveis.
Ensina muitos a tolerar na Terra aquilo que esperam ser corrigido em outro
plano. O resultado é confortável
para os exploradores da miséria:
quanto mais o sofrimento é espiritualizado,
menos ele é enfrentado. Quanto mais se promete uma
salvação futura, menos se exige justiça
presente.
A política
também vende suas liturgias. A diferença é que troca
santos por líderes,
dogmas por slogans e templos por palanques. O mecanismo psicológico é semelhante: simplificar o mundo, fabricar
inimigos, explorar ressentimentos e dispensar o cidadão do trabalho cansativo
de pensar com autonomia.
Onde a razão
exigiria análise, a propaganda oferece pertencimento. Onde a realidade exigiria
responsabilidade, a ideologia oferece desculpa.
O entretenimento
fecha o triângulo da anestesia. Ele não precisa convencer ninguém de
uma verdade. Basta impedir que a verdade incomode por tempo suficiente. Uma
bola rolando, uma tela acesa, uma celebridade em exposição, uma polêmica inútil, uma fantasia coletiva, uma comoção
fabricada — e pronto: a atenção humana, esse
recurso precioso, é sequestrada de
novo.
8. A realidade
não grita. Ela cobra.
Enquanto isso,
a realidade permanece. Não grita como a torcida. Não canta como o culto. Não
seduz como o espetáculo. Apenas cobra.
Cobra no corpo
faminto.
Cobra
no rio contaminado.
Cobra
no animal abatido.
Cobra
na criança sem hospital.
Cobra
na mulher desprotegida.
Cobra
no trabalhador explorado.
Cobra
no refugiado sem pátria.
Cobra
na floresta devastada.
Cobra no silêncio cúmplice
dos que preferem não saber.
A barbárie já não precisa se esconder. Ela
aprendeu a coexistir com a festa.
9. O
julgamento da razão
Sob a ótica da razão, isso é indefensável.
Nenhuma
civilização pode se declarar moralmente avançada enquanto trata a fome como
paisagem, a guerra como estratégia, a
desigualdade como mérito, a
destruição ambiental como custo operacional, a violência como rotina e a
crueldade contra animais como detalhe da cadeia produtiva.
O espetáculo civilizacional continuará,
naturalmente. As multidões continuarão marchando atrás de símbolos, gritando por ídolos,
consumindo distrações, rezando
por soluções que não virão
dos céus e aplaudindo eventos que fazem a realidade
parecer menos insuportável por algumas horas. O circo sempre encontra público,
especialmente quando pensar exige mais coragem do que torcer, consumir ou
acreditar.
Mas a razão,
ainda que minoritária, observa. E ao observar, acusa.
Acusa uma
humanidade que sabe e finge não saber.
Acusa
uma civilização que mede tudo, exceto a própria
vergonha.
Acusa
uma espécie que se ajoelha diante de fantasias, mas se
recusa a curvar-se diante dos fatos.
Acusa
o espetáculo por sua função mais perversa: transformar a tragédia em ruído de fundo.
10. A pergunta
final
No fim, talvez
a pergunta mais dura não seja por que o mundo sofre tanto. A pergunta mais dura
é por que tantos conseguem celebrar tão
confortavelmente enquanto sabem disso.
A resposta
talvez seja a mais demolidora de todas: porque a civilização aprendeu a
produzir distrações em escala muito maior do que aprendeu a produzir consciência.
The Civilizational Spectacle: Humanity Between the
Circus, Faith, the Ball, and the Debris of Reason
By Samuel Saraiva
The Choreography of Collective Escape
The stadium merely reveals, in festive colors, a deeper weakness of the
human species: the ease with which crowds surrender their own lucidity to
symbols, leaders, gods, flags, ideologies, and spectacles.
In this context, the ball is merely another pendulum before the eyes of
a humanity trained — and perhaps even predisposed — to enter into trance.
1. The
Illuminated Theater of the Absence of Reason
What we call
civilization is perhaps, to a large extent, merely an elegant name given to the
pathetic spectacle performed within the void left by the absence of reason. It
is a well-lit, noisy, colorful, and lucrative planetary theater where crowds
distract themselves with the ball, with gods, screens, idols, flags, costumes,
and promises—while reality, silent and brutal, continues to bury millions under
hunger, war, misery, violence, ignorance, and environmental destruction.
The problem
with humanity is not a lack of information. It is a lack of moral courage to
face it. Modern humanity has perfected, like few other species, the art of
fleeing from what it knows. It can no longer plead innocence. The numbers
exist. The images exist. The reports exist. The statistics exist. The tragedy
is documented, measured, archived, translated, published, and yet, conveniently
ignored.
2. The
Choreography of Collective Flight
While some
look to the left, others to the right, others to the sky, and millions toward
the direction where a ball is kicked, the planet continues to produce corpses,
the hungry, the mutilated, the exploited, the abandoned, and the forgotten. The
choreography is nearly perfect: the crowd sighs, shouts, chants, prays,
applauds, and consumes. Few think. Fewer still dare to interrupt the collective
delusion to ask what kind of civilization celebrates so much while failing at
the basics.
This is not
about condemning joy. It is about denouncing anesthesia. The problem begins
when distraction ceases to be a pause and transforms into a moral flight. When
the spectacle serves to conceal the ruin. When faith replaces responsibility.
When entertainment replaces awareness. When consumption replaces compassion.
When collective fantasy becomes worth more than the concrete reality of human
beings and animals crushed by the gears.
3. The Alienation
Industry
The
entertainment industry understood human fragility perfectly: it is more
profitable to sell escape than to promote lucidity. Organized religion, in many
cases, understood this too. Politics, equally so. The media, goes without
saying. They all discovered that emotionally driven crowds are more predictable
than rationally awakened citizens. The individual who thinks is a nuisance. The
individual who roots, consumes, fears, idolizes, or obeys moves markets.
In this
scenario, civilization reveals itself to be less rational than it pretends to
be. It builds stadiums, temples, stages, casinos, consumer hubs, and media
empires, yet it still accepts as normal that billions live without adequate
sanitation, that millions die of hunger or malnutrition, that wars are treated
as strategic chessboards, that animals are sacrificed on an industrial scale,
and that environmental destruction is accounted for as a side effect of
progress.
4. The Moral
Accounting of the Planet
The irony
becomes even more obscene when the celebration is placed side-by-side with the
numbers. For the 2026 World Cup, hosted by the United States, Canada, and
Mexico, official revised FIFA forecasts point to a total revenue close to $8.9
billion in the year of the event, driven mainly by broadcasting, ticketing,
hospitality, and marketing. None of this would be a problem if the planet also
demonstrated the same efficiency, urgency, and creativity in confronting its
essential tragedies. But the moral accounting of humanity reveals a different
picture.
In recent
wars, the death toll has already reached levels that should embarrass any
civilizational discourse. The Russia-Ukraine war accumulates hundreds of
thousands of military deaths and tens of thousands of civilian casualties. The
Israel-Gaza/Hamas conflict has produced tens of thousands of deaths in Gaza, in
addition to the Israeli victims of October 7, 2023. The
Israel-Lebanon/Hezbollah clash adds thousands of lost lives. The episodes
involving the US, Israel, and Iran also add military and civilian deaths,
depending on the period and source considered.
Meanwhile,
hunger and malnutrition continue to kill in bureaucratic silence. Global
estimates point to something on the order of 8 to 9 million deaths per year
associated with hunger and malnutrition—about 22,000 to 25,000 people per day.
This is not an occasional tragedy. It is a daily machine of human
disappearance.
In the field
of basic sanitation, approximately 42% of the world's population still lives
without access to safe or adequately managed sanitation. In human terms, this
represents about 3.4 billion people exposed to conditions incompatible with any
minimally serious idea of civilization.
In healthcare,
more than 4.5 billion human beings still live without full access to essential
health services. While nations dispute influence, markets dispute profits, and
crowds dispute narratives, half of humanity remains vulnerable regarding basic
care needs.
Environmental
destruction, for its part, can no longer be treated as an abstraction. Wars,
fossil fuels, predatory agriculture, pollution, deforestation, and
irresponsible economic exploitation produce damages estimated at tens of
trillions of dollars per year. Some environmental estimates reach the order of
$45 trillion annually in losses associated with unsustainable production,
climate impacts, the destruction of nature, pollution, and costs to health and
the economy.
In the
distribution of wealth, obscenity gains mathematical form. The richest 10%
concentrate about 75% of global wealth, while the poorest half of humanity owns
approximately 2%. Reason, faced with this, does not ask if there is inequality.
It asks how there are still those who call this arrangement a natural order,
merit, or progress.
Daily violence
also dismantles the civilizational fantasy. Intentional homicides worldwide
hover around 450,000 to 500,000 deaths per year, close to 52 deaths per hour.
Women and girls continue to be killed by partners, family members, or close
attackers in morally unbearable numbers. In many cases, omission, delayed
response, or institutional fragility merely complete the circle of negligence.
And then there
are the animals—beings without discourse, without lawyers, without flags,
without religion, without nationality, and almost always without defense.
Approximately 88 billion terrestrial animals are slaughtered each year for
food. When fish enter the ledger, the scale leaves billions behind and reaches
trillions. Monitored populations of wild vertebrates have dropped drastically since
1970, while about 1 million animal and plant species are threatened with
extinction.
This is the
moral accounting of the planet. On one side, billion-dollar figures for
spectacles capable of mobilizing passions, consumption, advertising, tourism,
and collective emotion. On the other, hunger, war, sanitation abandonment,
environmental collapse, an indecent concentration of wealth, daily violence,
and the industrialized sacrifice of animal life. Mathematics, when exposed
without makeup, becomes a form of moral judgment.
5. The Species
That Flees From the Mirror
Behold the
irony: the species that proclaims itself rational needs permanent distractions
so as not to go mad in front of the mirror. Perhaps that is why it prefers
noise. Silence would force it to think. And thinking, for a humanity trained in
flight, has become almost an act of insubordination.
Humanity has
learned to cross oceans, drill through mountains, decipher genes, produce
artificial intelligence, transmit images in real time, and dream of colonizing
other planets. But it has not yet learned how to prevent children from dying of
hunger, entire populations from living in filth, innocents from being crushed
by wars, women from being murdered inside their own homes, animals from being
treated as disposable commodities, and nature from being plundered as if there
were no tomorrow. Technical superiority, perhaps. In moral maturity, certainly
not.
6. Mars Will
Not Absolve Earthly Barbarism
There is
something deeply ridiculous—and tragically revealing—about a species that
intends to take its presence to Mars while it has not yet resolved the moral
barbarism it carries on Earth. As if changing planets were enough to purify the
mind that devastated this one. Human beings can transport machines, satellites,
flags, and grandiose speeches to other worlds ; but if they carry within
themselves the same greed, the same vanity, the same ignorance, and the same
tribal mediocrity, they will merely export the circus.
The
fundamental question is not technological. It is ethical. It is not spatial. It
is mental. It is not a lack of sky. It is a lack of reason.
7. The
Liturgies of Flight: Faith, Politics, and Entertainment
Faith, when
converted into collective delusion, offers one of the oldest escapes. It
promises invisible compensations for visible injustices. It teaches many to
tolerate on Earth that which they expect to be corrected on another plane. The
result is comfortable for the exploiters of misery: the more suffering is
spiritualized, the less it is confronted. The more a future salvation is
promised, the less present justice is demanded.
Politics also
sells its liturgies. The difference is that it trades saints for leaders,
dogmas for slogans, and temples for podiums. The psychological mechanism is
similar: simplifying the world, manufacturing enemies, exploiting resentments,
and exempting the citizen from the tiresome work of thinking autonomously.
Where reason would demand analysis, propaganda offers belonging. Where reality
would demand responsibility, ideology offers an excuse.
Entertainment
closes the triangle of anesthesia. It does not need to convince anyone of a
truth. It merely suffices to prevent the truth from bothering anyone for long
enough. A rolling ball, a glowing screen, a celebrity on display, a useless
controversy, a collective fantasy, a manufactured commotion—and presto: human
attention, that precious resource, is hijacked once again.
8. Reality
Does Not Shout.
It
Collects.
Meanwhile,
reality remains. It does not shout like the fans. It does not sing like the
service. It does not seduce like the spectacle. It merely collects.
It collects in
the starving body. It collects in the contaminated river. It collects in the
slaughtered animal. It collects in the child without a hospital. It collects in
the unprotected woman. It collects in the exploited worker. It collects in the
stateless refugee. It collects in the devastated forest. It collects in the
complicit silence of those who prefer not to know. Barbarism no longer needs to
hide. It has learned to coexist with the celebration.
9. The
Judgment of Reason
Under the lens
of reason, this is indefensible. No civilization can declare itself morally
advanced while it treats hunger as landscape, war as strategy, inequality as
merit, environmental destruction as an operational cost, violence as routine,
and cruelty against animals as a detail of the production chain.
The
civilizational spectacle will continue, naturally. Crowds will continue
marching behind symbols, shouting for idols, consuming distractions, praying
for solutions that will not come from the heavens, and applauding events that
make reality seem less unbearable for a few hours. The circus always finds an
audience, especially when thinking requires more courage than rooting,
consuming, or believing.
But reason,
though in the minority, observes. And in observing, it accuses. It accuses a
humanity that knows and pretends not to know. It accuses a civilization that
measures everything except its own shame. It accuses a species that kneels
before fantasies but refuses to bow before facts. It accuses the spectacle of
its most perverse function: turning tragedy into background noise.
10. The Final
Question
In the end,
perhaps the hardest question is not why the world suffers so much. The hardest
question is why so many manage to celebrate so comfortably while knowing it.
The answer is
perhaps the most devastating of all: because civilization has learned to
produce distractions on a much larger scale than it has learned to produce consciousness.
_________
Español
El
Espectáculo Civilizatorio: La Humanidad Entre el Circo, la Fe, el Balón y los
Escombros de la Razón
By Samuel Saraiva
La coreografía de la fuga colectiva
El estadio apenas revela, en colores festivos, una debilidad más profunda de la especie humana: la facilidad con
que las multitudes entregan su propia lucidez a símbolos, líderes, dioses, banderas, ideologías y espectáculos.
En ese contexto, la pelota es apenas otro péndulo ante los ojos de una humanidad entrenada — y quizá incluso predispuesta — a entrar en trance.
1. El teatro
iluminado de la ausencia de razón
Lo que
llamamos civilización tal vez sea, en gran parte, solo el nombre elegante dado
al espectáculo patético realizado en el vacío dejado por la ausencia de la razón.
Un teatro planetario bien iluminado, ruidoso, colorido y lucrativo, donde las
multitudes se distraen con el balón, con los dioses, con las pantallas, con los
ídolos, con las banderas, con las fantasías y con las promesas —mientras la
realidad, silenciosa y brutal, continúa sepultando a millones bajo el hambre,
la guerra, la miseria, la violencia, la ignorancia y la destrucción ambiental.
El problema de
la humanidad no es la falta de información. Es la falta de coraje moral para
enfrentarla. La humanidad moderna ha perfeccionado como pocas especies el arte
de huir de aquello que sabe. Ya no puede alegar inocencia. Los números existen.
Las imágenes existen. Los informes existen. Las estadísticas existen. La
tragedia está documentada, medida, archivada, traducida, publicada y, aun así,
convenientemente ignorada.
2. La
coreografía de la fuga colectiva
Mientras
algunos miran hacia la izquierda, otros hacia la derecha, otros hacia el cielo
y millones hacia la dirección en la que se patea un balón, el planeta continúa
produciendo cadáveres, hambrientos, mutilados, explotados, abandonados y
olvidados. La coreografía es casi perfecta: la multitud suspira, grita, canta,
reza, aplaude y consume. Pocos piensan. Menos aún se atreven a interrumpir el
delirio colectivo para preguntar qué tipo de civilización celebra tanto
mientras fracasa en lo básico.
No se trata de
condenar la alegría. Se trata de denunciar la anestesia. El problema comienza
cuando la distracción deja de ser una pausa y se transforma en fuga moral.
Cuando el espectáculo sirve para ocultar la ruina. Cuando la fe sustituye a la
responsabilidad. Cuando el entretenimiento sustituye a la conciencia. Cuando el
consumo sustituye a la compasión. Cuando la fantasía colectiva pasa a valer más
que la realidad concreta de seres humanos y animales aplastados por el
engranaje.
3. El sector
de la alienación
La industria
del entretenimiento comprendió perfectamente la fragilidad humana: es más
lucrativo vender evasión que promover lucidez. La religión organizada, en
muchos casos, también lo comprendió. La política, igualmente. La prensa, ni se
diga. Todas descubrieron que las multitudes emocionalmente dirigidas son más
previsibles que los ciudadanos racionalmente despiertos. El individuo que piensa
incomoda. El individuo que apoya a un equipo, consume, teme, idolatra u obedece
mueve mercados.
En este
escenario, la civilización se revela menos racional de lo que pretende parecer.
Levanta estadios, templos, escenarios, casinos, centros de consumo e imperios
mediáticos, pero aún acepta como normal que miles de millones vivan sin
saneamiento adecuado, que millones mueran de hambre o desnutrición, que las
guerras sean tratadas como tableros estratégicos, que los animales sean
sacrificados a escala industrial y que la destrucción ambiental sea
contabilizada como un efecto colateral del progreso.
4. La
contabilidad moral del planeta
La ironía se
vuelve aún más obscena cuando la fiesta se coloca al lado de los números. Para
la Copa del Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, Canadá y México, la
previsión oficial revisada de la FIFA apunta a ingresos totales cercanos a los
8,900 millones de dólares en el año del evento, impulsados principalmente por
transmisiones, entradas, hospitalidad y marketing. Nada de esto sería un
problema si el planeta también demostrara la misma eficiencia, prisa y
creatividad para enfrentar sus tragedias esenciales. Pero la contabilidad moral
de la humanidad revela otro panorama.
En las guerras
recientes, el número de muertos ya alcanza niveles que deberían avergonzar
cualquier discurso civilizatorio. La guerra Rusia-Ucrania acumula cientos de
miles de militares muertos y decenas de miles de civiles afectados. El
conflicto Israel-Gaza/Hamas ha producido decenas de miles de muertos en Gaza,
además de las víctimas israelíes del 7 de octubre de 2023. El enfrentamiento
Israel-Líbano/Hezbolá añade miles de vidas perdidas. Los episodios que
involucran a EE. UU., Israel e Irán suman también muertos militares y civiles,
dependiendo del período y de la fuente considerada.
Mientras
tanto, el hambre y la desnutrición continúan matando en un silencio burocrático.
Las estimaciones globales apuntan a algo del orden de 8 a 9 millones de muertes
por año asociadas al hambre y a la desnutrición —cerca de 22,000 a 25,000
personas por día. No es una tragedia ocasional. Es una máquina diaria de
desaparición humana.
En el campo
del saneamento básico, aproximadamente el 42% de la población mundial aún vive
sin acceso a un saneamiento seguro o adecuadamente gestionado. En términos
humanos, esto representa cerca de 3,400 millones de personas expuestas a
condiciones incompatibles con cualquier idea mínimamente seria de civilización.
En la salud, más
de 4,500 millones de seres humanos aún viven sin acceso pleno a servicios
esenciales de salud. Mientras las naciones se disputan influencia, los mercados
se disputan ganancias y las multitudes se disputan narrativas, la mitad de la
humanidad sigue vulnerable ante las necesidades básicas de atención.
La destrucción
ambiental, por su parte, ya no puede ser tratada como una abstracción. Guerras,
combustibles fósiles, agricultura depredadora, contaminación, deforestación y
explotación económica irresponsable producen daños estimados en decenas de
billones de dólares por año. Algunas estimaciones ambientales llegan al orden
de 45 billones de dólares anuales en pérdidas asociadas a la producción
insostenible, impactos climáticos, destrucción de la naturaleza, contaminación
y costos para la salud y la economía.
En la
distribución de la riqueza, la obscenidad gana forma matemática. El 10% más
rico concentra cerca del 75% de la riqueza global, mientras que la mitad más
pobre de la humanidad posee aproximadamente el 2%. La razón, ante esto, no pregunta
si hay desigualdad. Pregunta cómo hay todavía quien llama a este arreglo orden
natural, mérito o progreso.
La violencia
cotidiana también desmonta la fantasía civilizatoria. Los homicidios
intencionales en el mundo giran en torno a 450,000 o 500,000 muertes por año,
algo cercano a 52 muertes por hora. Mujeres y niñas continúan siendo asesinadas
por parejas, familiares o agresores cercanos en números moralmente
insoportables. En muchos casos, la omisión, la respuesta tardía o la fragilidad
institucional solo completan el círculo de la negligencia.
Y están también
los animales —los seres sin discurso, sin abogado, sin bandera, sin religión,
sin nacionalidad y casi siempre sin defensa. Aproximadamente 88,000 millones de
animales terrestres son sacrificados al año para alimentación. Cuando los peces
entran en la contabilidad, la escala deja los miles de millones y alcanza los
billones. Las poblaciones monitoreadas de vertebrados silvestres cayeron drásticamente
desde 1970, mientras que cerca de 1 millón de especies animales y vegetales están
amenazadas de extinción.
Esta es la
contabilidad moral del planeta. Por un lado, cifras multimillonarias para
espectáculos capaces de movilizar pasiones, consumo, publicidad, turismo y
emoción colectiva. Por el otro, hambre, guerra, abandono sanitario, colapso
ambiental, concentración indecente de la riqueza, violencia diaria y sacrificio
industrializado de la vida animal. La matemática, cuando se expone sin
maquillaje, se convierte en una forma de juicio moral.
5. La especie
que huye del espejo
He aquí la
ironía: la especie que se proclama racional necesita distracciones permanentes
para no enloquecer ante el espejo. Tal vez por eso prefiera el ruido. El
silencio obligaría a pensar. Y pensar, para una humanidad entrenada en la
huida, se ha convertido casi en un acto de insubordinación.
La humanidad
aprendió a cruzar océanos, perforar montañas, descifrar genes, producir
inteligencia artificial, transmitir imágenes en tiempo real y soñar con la
colonización de otros planetas. Pero aún no ha aprendido a impedir que los niños
mueran de hambre, que poblaciones enteras vivan en la suciedad, que los
inocentes sean aplastados por las guerras, que las mujeres sean asesinadas
dentro de sus propias casas, que los animales sean tratados como mercancía
desechable y que la naturaleza sea saqueada como si no hubiera un mañana.
Superior en técnica, tal vez. En madurez moral, ciertamente no.
6. Marte no
absolverá la barbarie terrestre
Hay algo
profundamente ridículo —y trágicamente revelador— en una especie que pretende
llevar su presencia a Marte mientras aún no ha resuelto la barbarie moral que
carga en la Tierra. Como si cambiar de planeta fuera suficiente para purificar
la mente que devastó este. El ser humano puede transportar máquinas, satélites,
banderas y discursos grandiosos a otros mundos ; pero si lleva consigo la misma
codicia, la misma vanidad, la misma ignorancia y la misma mediocridad tribal,
solo exportará el circo.
La cuestión
fundamental no es tecnológica. Es ética. No es espacial. Es mental. No es la
falta de cielo. Es la falta de razón.
7. Las
liturgias de la fuga: fe, política y entretenimiento
La fe, cuando
se convierte en delirio colectivo, ofrece una de las huidas más antiguas.
Promete compensaciones invisibles para injusticias visibles. Enseña a muchos a
tolerar en la Tierra aquello que esperan que sea corregido en otro plano. El
resultado es cómodo para los explotadores de la miseria: cuanto más se
espiritualiza el sufrimiento, menos se le enfrenta. Cuanto más se promete una
salvación futura, menos se exige justicia presente.
La política
también vende sus liturgias. La diferencia es que cambia santos por líderes,
dogmas por slogans y templos por tribunas. El mecanismo psicológico es
semejante: simplificar el mundo, fabricar enemigos, explotar resentimientos y
dispensar al ciudadano del trabajo cansado de pensar con autonomía. Donde la
razón exigiría análisis, la propaganda ofrece pertenencia. Donde la realidad
exigiría responsabilidad, la ideología ofrece una excusa.
El
entretenimiento cierra el triángulo de la anestesia. No necesita convencer a
nadie de una verdad. Basta con impedir que la verdad incomode por el tiempo
suficiente. Un balón rodando, una pantalla encendida, una celebridad en
exposición, una polémica inútil, una fantasía colectiva, una conmoción
fabricada —y listo: la atención humana, ese recurso precioso, es secuestrada de
nuevo.
8. La realidad
no grita.
Cobra.
Mientras
tanto, la realidad permanece. No grita como la afición. No canta como el culto.
No seduce como el espectáculo. Solo cobra.
Cobra en el
cuerpo hambriento. Cobra en el río contaminado. Cobra en el animal sacrificado.
Cobra en el niño sin hospital. Cobra en la mujer desprotegida. Cobra en el
trabajador explotado. Cobra en el refugiado sin patria. Cobra en el bosque
devastado. Cobra en el silencio cómplice de los que prefieren no saber. La
barbarie ya no necesita esconderse. Aprendió a coexistir con la fiesta.
9. El juicio
de la razón
Bajo la óptica
de la razón, esto es indefendible. Ninguna civilización puede declararse
moralmente avanzada mientras trata al hambre como paisaje, a la guerra como
estrategia, a la desigualdad como mérito, a la destrucción ambiental como costo
operativo, a la violencia como rutina y a la crueldad contra los animales como
un detalle de la cadena productiva.
El espectáculo
civilizatorio continuará, naturalmente. Las multitudes seguirán marchando detrás
de símbolos, gritando por ídolos, consumiendo distracciones, rezando por
soluciones que no vendrán de los cielos y aplaudiendo eventos que hacen que la
realidad parezca menos insuportable por algunas horas. El circo siempre
encuentra público, especialmente cuando pensar exige más coraje que apoyar a un
equipo, consumir o creer.
Pero la razón,
aunque minoritaria, observa. Y al observar, acusa. Acusa a una humanidad que
sabe y finge no saber. Acusa a una civilización que lo mide todo, excepto su
propia vergüenza. Acusa a una especie que se arrodilla ante fantasías, pero se niega
a inclinarse ante los hechos. Acusa al espectáculo por su función más perversa:
transformar la tragedia en ruido de fondo.
10. La
pregunta final
Al final, tal
vez la pregunta más dura no sea por qué el mundo sufre tanto. La pregunta más
dura es por qué tantos logran celebrar tan cómodamente mientras lo saben.
La respuesta
tal vez sea la más demoledora de todas: porque la civilización aprendió a
producir distracciones a una escala mucho mayor de lo que aprendió a producir
conciencia.
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