Terça-feira, 30 de junho de 2026 - 11h55

ENGRENAGEM
Há escândalos que
rendem apenas manchetes passageiras. Outros deixam marcas profundas na história
das instituições. A denúncia que tramitava sob sigilo desde 2023 e somente
agora veio a público pertence à segunda categoria. Seu conteúdo, segundo a
acusação, revela uma engrenagem complexa montada no interior da Assembleia
Legislativa de Rondônia para influenciar a eleição da Mesa Diretora e assegurar
a permanência de um mesmo grupo no comando do Parlamento.
INVESTIGAÇÃO
A peça acusatória
descreve, em tese, um conjunto de ilícitos que inclui lavagem de dinheiro,
peculato, grilagem, "gafanhotagem" e outros crimes contra a
administração pública. Não se trata de uma narrativa construída apenas sobre
ilações. Segundo os autos, há um volumoso conjunto probatório reunido ao longo
da investigação, composto por interceptações telefônicas, escutas ambientais,
registros de encontros entre investigados em hotéis, além do monitoramento de
assessores transportando envelopes que, de acordo com a suspeita dos
investigadores, conteriam dinheiro destinado às operações descritas na
denúncia.
ESCÂNDALO
Caso esse acervo
probatório resista ao contraditório e seja confirmado pela Justiça, Rondônia
poderá estar diante de um dos mais graves escândalos políticos das últimas
décadas. O jornalista Rubens Coutinho, do portal Tudo Rondônia, foi quem
retirou o caso da sombra e revelou ao público detalhes da investigação.
ORIGEM
A denúncia menciona
os deputados estaduais Alex Redano, Laerte Gomes e Jean Oliveira, todos com
direito à ampla defesa e ao contraditório, garantias que devem ser respeitadas
em qualquer Estado Democrático de Direito. Mas há um aspecto impossível de
ignorar. O caso já deu origem a outros oito inquéritos, indicando que a
investigação pode alcançar dimensões ainda maiores.
REINCIDÊNCIA
A impressão
transmitida pelos autos é a de que as velhas práticas que tantos prejuízos
causaram à imagem da Assembleia Legislativa talvez nunca tenham desaparecido
completamente. Apenas permaneceram adormecidas por algum tempo.
DEGRADAÇÃO
É impossível não
recordar um passado recente, quando diversos ex-deputados estaduais acabaram
condenados e cumpriram longas penas por esquemas de corrupção que transformaram
o Parlamento rondoniense em símbolo nacional de degradação institucional. A
sociedade acreditou que aquela página havia sido definitivamente virada.
SEMELHANÇA
A denúncia agora
apresentada, se vier a ser confirmada pelo Poder Judiciário, sugere exatamente
o contrário: o enredo pode ter mudado de personagens, mas conserva um roteiro
perigosamente semelhante.
FANTASMA
A Assembleia
Legislativa existe para representar os interesses da população, fiscalizar o
Executivo e produzir leis. Quando passa a ocupar espaço predominante nas
páginas policiais, perde autoridade moral para cobrar ética de qualquer outro
Poder. Se as acusações forem improcedentes, que os investigados sejam
absolvidos e suas honras restauradas. Mas, se forem confirmadas, Rondônia
terá a amarga constatação de que o fantasma da corrupção parlamentar nunca foi
exorcizado. Apenas esperava a oportunidade para voltar à cena.
CRÍTICAS
O deputado federal e
pré-candidato ao Senado Fernando Máximo tem intensificado as críticas à
situação da saúde pública de Rondônia. O problema é que ele não observa esse
cenário da arquibancada. Durante quase quatro anos, foi secretário estadual de
Saúde do governo Marcos Rocha e ocupou a principal cadeira responsável pela
condução da política pública que hoje critica.
CONTRADIÇÃO
É natural que um
parlamentar fiscalize a administração. O que desperta questionamentos é quando
a crítica desconsidera o próprio histórico de gestão. Se os problemas
estruturais da saúde persistem, é inevitável que parte do debate recaia sobre
quem comandou a pasta por um período tão longo.
RESPONSÁVEL
O caso do Heuro
simboliza essa contradição. Fernando Máximo afirma que deixou o projeto
encaminhado e que os problemas surgiram apenas após sua saída da Secretaria.
Entretanto, toda a modelagem administrativa, os procedimentos preparatórios e a
condução do processo licitatório ocorreram durante sua gestão.
COMEMORAÇÃO
Mais do que isso, no
dia do leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, Fernando Máximo
estava ao lado do governador Marcos Rocha comemorando o resultado como uma
conquista histórica para Rondônia. À época, o discurso era de sucesso absoluto.
ATRASO
Com o passar do
tempo, porém, o projeto transformou-se em uma das maiores frustrações da saúde
pública estadual. O Estado acabou abortando o contrato ao constatar que a
empresa vencedora não reunia condições de executar uma obra dessa dimensão. O
resultado foi um enorme atraso para uma população que continua aguardando um
hospital prometido há anos. Politicamente, é difícil dissociar esse desfecho de
quem participou diretamente da concepção, da modelagem e da celebração do
processo.
DECISÃO
Outro argumento
frequentemente utilizado pelo parlamentar é a aquisição de um hospital durante
a pandemia. Evidentemente, a Secretaria de Saúde participou da condução técnica
da operação. Mas decisões dessa natureza pertencem ao governo e são tomadas sob
a liderança do chefe do Executivo. Atribuir exclusivamente a si uma decisão
institucional simplifica um processo que envolveu toda a estrutura
administrativa do Estado.
OMISSO
Também chama atenção
sua atuação discreta em temas de grande impacto para Rondônia, como a concessão
da BR-364. O modelo implantado gerou críticas pelo elevado custo dos pedágios e
pelas expectativas ainda não concretizadas em relação às obras de duplicação.
Como deputado federal, Fernando Máximo teve espaço para participar desse debate
com maior intensidade.
RESPONSÁVEL
O Hospital João Paulo
II permanece enfrentando problemas históricos. O novo hospital continua
distante da realidade. A saúde estadual ainda convive com dificuldades
conhecidas da população. São questões que fazem parte do legado de diferentes
governos, inclusive do período em que Fernando Máximo esteve à frente da
Secretaria.
ESTRATÉGIA
Agora, em
pré-campanha ao Senado, o deputado percorre os municípios reforçando a imagem
construída durante a pandemia e associando sua trajetória pública a frequentes
referências à fé. Trata-se de uma estratégia legítima de comunicação política.
Mas nenhuma narrativa, por eficiente que seja, substitui a necessidade de
prestar contas da própria gestão.
COERÊNCIA
Na política, a coerência continua sendo um dos critérios mais importantes para avaliar um homem público. Antes de cobrar os outros, todo candidato precisa estar disposto a responder pelas decisões das quais participou. O eleitor, por sua vez, ganha mais quando confronta discursos com fatos e marketing com resultados.
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