Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Vinício Carrilho

Como seria uma "Ciência Materialista"?


Como seria uma "Ciência Materialista"? - Gente de Opinião

Trata-se de uma resposta muito complexa e que, obviamente, deve recusar toda forma reducionista de pensamento e de abordagem.  

Sob a égide do capitalismo, obrigatoriamente, tem-se que levar em consideração a força das contradições sistêmicas e sistemáticas. 

A produção da vacina contra a Covid-19 é um exemplo simples: em tempo recorde, tivemos respostas significativas que salvaram milhões ou mesmo bilhões de vidas.

Porém, a desigualdade econômica brutal no planeta resultou no fato de que a África vacinou apenas 15% do seu contigente populacional.  

Desse modo, pode-se concluir, nesse esboço, que a Ciência salva, mas não todo mundo.

Tal qual a realidade econômica exclui bilhões de pessoas da dignidade, a Ciência segue sendo seletiva. 

Isso sem considerar, ainda, que o que se chama de "inovação", na prática, não ultrapassa limites estreitos. Vejamos: 

1. O Cientista Materialista não condiz, imediatamente, com qualquer pensamento libertário.

1.1 Aliás, pode ser absolutamente reacionário ou desumano, como o lendário Menguele – algoz e agente do Nazismo alemão. 

2. O Cientista Materialista (digamos socialista, humanista) está submetido às relações capitalistas predominantes.

2.1 Isso quer dizer que, por mais que se empenhe na luta política contra o sistema, seu desempenho é avaliado pelas mesmas métricas de "relevância" aplicadas no chão de fábrica: oportunidade X lucratividade. 

3. A imensa maioria dos "exemplos de inovação" não passam de upgrade do que já se assentiu como "relevante", quer dizer, produtivo econômica e sistemicamente. 

4. O Cientista Materialista (digamos inovador, criativo), via de regra, será julgado por pares que desconhecem o que é criatividade e crítica, ou seja, não conhecem apropriadamente o que é "inovação".

4.1 Salvo exceções (e exceções confirmam a regra), esses pares e seus pareceres podem ser consubstanciados por suportes materialistas, contudo sem que se apliquem à condição óbvia da Ciência: "propor criticamente". 

5. Aplicando-se à duplicidade de suposta inovação (upgrade da mesmice), esse tipo reduzido de Cientista Materialista, no fundo, é um mero servidor burocrático do sistema operacional e produtivo. 

6. Por isso mesmo, o substrato ou a legenda Materialista não confere legitimidade científica a ninguém. 

7. A Ciência Materialista, nessa breve abordagem, deve ser capaz de revelar a "inovação societal": profundamente Ética e transformadora do status quo.

7.1 Tão transformadora que o próprio "status" do tal Cientista Materialista não coloque seu ego acima do Interesse Social e do Bem Maior, que é a dignificação da vida social. 

8. Nesse caso, revelando-se efetivamente, talvez o Cientista Materialista (neste século XXI) promovesse o encontro entre o homo sapiens e o homo faber – entre o pensador e o trabalhador. 

9. Como se vê na lição de Gramsci - o encontro entre o homo sapiens e o homo faber - um gênio do século XX, o Cientista Materialista não suporta os limites do laboratório.

9.1 Trata-se de todos que se ponham a serviço da real "inteligência social": do laboratório, escritório, gabinete, ao chão de fábrica. 

10. A inovação, em Ciência Materialista, é essa que supera fortemente o discurso capacitista da meritocracia capitalista. 

11. A Ciência Materialista que interessa à Humanidade (desde Marx ou Heráclito) é destinada à descompressão humana, à liberdade, à dignidade, à capacitação inovadora capaz de trazer respostas saudáveis aos conflitos e aflições humanas.

11.1 Fora disso, não há inovação, só réplica na esteira ou bolha de produção capitalista. 

12. Apenas desse modo pode-se falar de verdade na Ciência, como uma verdadeira Ciência.  

Portanto, sob esse prisma do Materialismo – que denominamos aqui Materialismo Ético –, toda Ciência será uma Ciência Social; posto que a Ciência Materialista tem que ser humana e humanizadora, assim como combater e tratar com desânimo tudo o que desumaniza. 

Por fim, numa última reflexão, pode-se dizer que saberíamos com exatidão que toda Ciência é política, mas ainda veríamos o surgimento de uma Ciência para a Política – não como pensava Weber, mas, sim, Gramsci: uma Ciência da Polis.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Estado laico - nota zero para a militarização do ensino público.

Estado laico - nota zero para a militarização do ensino público.

O Estado é laico e, assim sendo, tenho a obrigação constitucional de ser absolutamente contrário a qualquer "escola cívico-militar". Inclusise porq

“Sociologia dos Afetos”

“Sociologia dos Afetos”

           Está correto falar de/em afetos? Claro que sim. Isso fica evidente quando tratamos de relações pessoais ou de relações sociais. Num exemp

Inteligência artificial na política

Inteligência artificial na política

No caso específico das fake news na seara política, o ônus da prova está invertido: na prática, o atingido pelo áudio (supostamente feito por IA) te

Consciência social e de classe

Consciência social e de classe

         O título trata, sem dúvida, da consciência de classe. E, no caso brasileiro, é uma consciência que deve olhar para baixo e para dentro, an

Gente de Opinião Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)