Porto Velho (RO) quarta-feira, 10 de agosto de 2022
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Vinício Carrilho

Como seria uma "Ciência Materialista"?


Como seria uma "Ciência Materialista"? - Gente de Opinião

Trata-se de uma resposta muito complexa e que, obviamente, deve recusar toda forma reducionista de pensamento e de abordagem.  

Sob a égide do capitalismo, obrigatoriamente, tem-se que levar em consideração a força das contradições sistêmicas e sistemáticas. 

A produção da vacina contra a Covid-19 é um exemplo simples: em tempo recorde, tivemos respostas significativas que salvaram milhões ou mesmo bilhões de vidas.

Porém, a desigualdade econômica brutal no planeta resultou no fato de que a África vacinou apenas 15% do seu contigente populacional.  

Desse modo, pode-se concluir, nesse esboço, que a Ciência salva, mas não todo mundo.

Tal qual a realidade econômica exclui bilhões de pessoas da dignidade, a Ciência segue sendo seletiva. 

Isso sem considerar, ainda, que o que se chama de "inovação", na prática, não ultrapassa limites estreitos. Vejamos: 

1. O Cientista Materialista não condiz, imediatamente, com qualquer pensamento libertário.

1.1 Aliás, pode ser absolutamente reacionário ou desumano, como o lendário Menguele – algoz e agente do Nazismo alemão. 

2. O Cientista Materialista (digamos socialista, humanista) está submetido às relações capitalistas predominantes.

2.1 Isso quer dizer que, por mais que se empenhe na luta política contra o sistema, seu desempenho é avaliado pelas mesmas métricas de "relevância" aplicadas no chão de fábrica: oportunidade X lucratividade. 

3. A imensa maioria dos "exemplos de inovação" não passam de upgrade do que já se assentiu como "relevante", quer dizer, produtivo econômica e sistemicamente. 

4. O Cientista Materialista (digamos inovador, criativo), via de regra, será julgado por pares que desconhecem o que é criatividade e crítica, ou seja, não conhecem apropriadamente o que é "inovação".

4.1 Salvo exceções (e exceções confirmam a regra), esses pares e seus pareceres podem ser consubstanciados por suportes materialistas, contudo sem que se apliquem à condição óbvia da Ciência: "propor criticamente". 

5. Aplicando-se à duplicidade de suposta inovação (upgrade da mesmice), esse tipo reduzido de Cientista Materialista, no fundo, é um mero servidor burocrático do sistema operacional e produtivo. 

6. Por isso mesmo, o substrato ou a legenda Materialista não confere legitimidade científica a ninguém. 

7. A Ciência Materialista, nessa breve abordagem, deve ser capaz de revelar a "inovação societal": profundamente Ética e transformadora do status quo.

7.1 Tão transformadora que o próprio "status" do tal Cientista Materialista não coloque seu ego acima do Interesse Social e do Bem Maior, que é a dignificação da vida social. 

8. Nesse caso, revelando-se efetivamente, talvez o Cientista Materialista (neste século XXI) promovesse o encontro entre o homo sapiens e o homo faber – entre o pensador e o trabalhador. 

9. Como se vê na lição de Gramsci - o encontro entre o homo sapiens e o homo faber - um gênio do século XX, o Cientista Materialista não suporta os limites do laboratório.

9.1 Trata-se de todos que se ponham a serviço da real "inteligência social": do laboratório, escritório, gabinete, ao chão de fábrica. 

10. A inovação, em Ciência Materialista, é essa que supera fortemente o discurso capacitista da meritocracia capitalista. 

11. A Ciência Materialista que interessa à Humanidade (desde Marx ou Heráclito) é destinada à descompressão humana, à liberdade, à dignidade, à capacitação inovadora capaz de trazer respostas saudáveis aos conflitos e aflições humanas.

11.1 Fora disso, não há inovação, só réplica na esteira ou bolha de produção capitalista. 

12. Apenas desse modo pode-se falar de verdade na Ciência, como uma verdadeira Ciência.  

Portanto, sob esse prisma do Materialismo – que denominamos aqui Materialismo Ético –, toda Ciência será uma Ciência Social; posto que a Ciência Materialista tem que ser humana e humanizadora, assim como combater e tratar com desânimo tudo o que desumaniza. 

Por fim, numa última reflexão, pode-se dizer que saberíamos com exatidão que toda Ciência é política, mas ainda veríamos o surgimento de uma Ciência para a Política – não como pensava Weber, mas, sim, Gramsci: uma Ciência da Polis.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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