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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

A lógica simples da desigualdade capitalista

A lógica significa entendimento coerente e claro de alguma coisa.


Vinício Carrilho Martinez - Gente de Opinião
Vinício Carrilho Martinez

Imaginemos uma sociedade entre duas pessoas: cada uma exercendo uma função diferente e complementar.

Mas com rendimentos iguais na exploração do negócio: 50% para cada uma. 


Imaginemos que, após algum tempo, uma delas reivindique a criação da ideia do negócio e exija um bônus pelo trabalho criativo: trabalho intelectual e gestão das operações organizativas. 


Na prática, a exigência seria de um bônus de mais 5% na rentabilidade. 

Passaria de 50% a 55% da mais valia, do lucro. 

Ao outro, o parceiro que não teve a "brilhante ideia capitalista", restariam 45% e não mais a partilha igualitária dos 50% originais. 

A partir daqui teria início o discurso ideológico: a Ideologia "pacificadora", da "inexistência de exploração".

Veremos que o discurso por retribuição de mérito (meritocracia) esconde uma crescente espiral de exploração. 

O capitalista, o detentor de 55%, diria ao sócio explorado de 45%: "veja bem, eu fiquei com 'apenas' 5% a mais do que você; afinal, tenho uma função organizadora do negócio e você 'apenas' a função de vender o resultado do negócio". 

Pois bem, o capitalista colocou lógica no seu discurso. Sem dúvida. 

Só "esqueceu" de demonstrar a matemática da exploração e da desigualdade. 

O capitalista furtou-se de apresentar a lógica básica que se espelha da realidade. 

E qual é a realidade?

É simples: da igualdade inicial, da diferença inexistente entre ambos (50% = 50%), em rápido movimento, não se alterou em "apenas" 5%, mas, sim, em 10%.

A diferença entre suas capacidades, trabalho, empenho, suor e lágrimas, foi precificada em 10%. 

Significa que um vale 10% a mais do que o outro. 

Na prática, portanto, não se agregou "apenas" 5% a alguém, como se retirou (por efeito de mágica), os mesmos 5% de outra pessoa.

Daí que a lógica capitalista passou de zero na diferença de exploração para 10%. Um vale "só" 45%, enquanto o outro embolsa 55%.

A DESIGUALDADE É DE 10% e não 5%, como quis empreender a meritocracia do explorador. 

Sem contar o efeito dos juros compostos, pois no segundo mês a diferença entre ambos seria de 10% vezes 10% e o resultado já seria de 11%.

No terceiro mês a diferença seria de 12,1%.

E assim sucessivamente. 

Conclusões:

Não há recompensa.

Não há construção. 

Não há valor agregado. 

A lógica é simples: pra um ganhar o outro tem, obrigatoriamente, que perder.

A meritocracia é um tipo de cassino difundido alegremente. 


* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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