Porto Velho (RO) domingo, 22 de setembro de 2019
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Política - Nacional

Sete mulheres recebem anistia política


Ana Luiza Zenker
Agência Brasil

Brasília - A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em sessão especial pelo Dia Internacional da Mulher, julgou o pedido de sete mulheres que enfrentaram a ditadura militar no Brasil. Confira abaixo o perfil das sete anistiadas. As informações foram fornecidas pelas próprias anistiadas no requerimento entregue ao Ministério da Justiça.

Ana Wilma Oliveira Moraes – Era secretária da Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), quando, aos 21 anos, foi presa e torturada pela primeira vez, em 1969. Companheira de um jornalista da Folha ligado à Aliança Nacional Libertadora (ANL), teve que pedir demissão, por causa da perseguição que sofria da ditadura. “Fui presa várias vezes, fiquei sem trabalho durante muitos anos, porque ninguém queria ficar perto de mim, porque eu era terrorista”, conta Ana Wilma. “Eles [policiais] entravam na minha casa e rasgavam os livros”, lembra.

Num período de mais de dez anos foi presa quatro ou cinco vezes – ela não sabe precisar. Presa, foi levada ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), torturada e interrogada por 26 dias. Chegou a ouvir propostas do delegado Sérgio Fleury para se tornar sua amante, em troca de regalias na prisão. Em uma das vezes em que esteve encarcerada, por conta da situação de perseguição e afastamento da filha, de dois anos de idade, teve um colapso nervoso e tentou se suicidar, em 1970, quando ficou 92 dias detida. Teve todos os seus documentos destruídos pela polícia. “Dinheiro nenhum no mundo paga o que a minha família sofreu, o que a minha filha sofreu”, diz.

Beatriz Arruda – Decoradora paulista, foi casada com o deputado estadual Fernando Leite Perrone (MDB), ligado à ANL. Por conta disso, acompanhou o marido no exílio no Chile e na França. Perrone foi para o Chile primeiro, em 1968. As filhas foram no meio de 1969. No final do ano Beatriz foi encontrar a família, depois que o mandato parlamentar do marido foi cassado. Ela retornou para o Brasil em 1979, após a Lei da Anistia. Ela diz que, frente às histórias de outras mulheres, se sente “um grãozinho de areia”. “O que eu contribuí foi tão pouco, mas uma postura ideológica foi uma coisa que sempre me acompanhou”, afirma.

Clara Charf – “O que você acha que eu fiz em 63 anos?” Ativista do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde os 20 anos de idade (está com 83), afastou-se da profissão de aeromoça em 1946. Teve seu registro profissional cassado, morou em Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo, sempre tentando escapar da repressão. Na década de 1950, já vivendo na clandestinidade, era responsável pelo trabalho do PCB com mulheres quando foi coordenar uma escola de formação de quadros do partido em Campinas (SP). Lá foi presa e, por não responder às perguntas dos policiais, foi considerada heroína pelos companheiros de cela.

Em 1964, depois do golpe militar, sua casa foi invadida, ela foi presa, seu companheiro, Carlos Marighella, fundador da ALN, quase foi morto a tiros dentro de um cinema. “Só não foi graças a um repórter da Folha da Manhã, que estava no cinema naquela hora com a filha e tirou a foto, que saiu no jornal. Senão, o povo não tinha sabido de nada”, lembra. Ambos presos, foram torturados. “Depois do golpe militar não teve um dia em que alguém não tivesse sido preso, torturado ou morto”, diz.

Em 1966 teve os seus direitos políticos cassados, por dez anos. Depois da morte de Marighella, em 1969, foi para o exílio em Cuba. Voltou em 1979, depois da Lei da Anistia, aos 54 anos, sem qualquer documento pessoal. Hoje trabalha no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM).

Halue Yamaguti de Melo – Costureira da cidade de Ponta grossa (PR), ela era ligada ao PCB. Foi presa e torturada várias vezes, em 1964, 1965, 1966, quando foi, com a filha, visitar o marido e as duas ficaram presas por três dias “em um cubículo”, e em 1975, desta vez pelo Dops de Curitiba, capital do estado.

Na primeira vez em que foi detida, os filhos também foram levados junto, para um asilo de doentes mentais, onde, segundo ela, sofreram ameaças de abuso sexual pelos internos. Ela relata que também lhe diziam que sua filha seria abusada se não dissesse onde o marido estava escondido.

Hoje, com quase 84 anos, diz que o casal decidiu se desligar do PCB por causa dos filhos. “Ficaram os três, até hoje, traumatizados, por causa das prisões dos pais”, conta. “Eu passei coisas horríveis.”

Estrella Dalva Bohadana – Estudante de arquitetura, judia e moradora de Barra do Piraí (RJ), no início dos anos 1970 militava na organização clandestina de esquerda Política Operária (Polop) e depois no Partido Operário Comunista (POC). Foi presa pela primeira vez em 1970, quando tinha 19 anos. Depois de liberada fugiu para São Paulo, onde foi presa novamente. Por conta da tortura, chegou a ser levada para o hospital militar.

Em 1973 foi novamente presa e torturada em Barra Mansa (RJ). No quartel do exército foi torturada por militares do exército, do Dops e do Destacamento de Operações de Operações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) e sofreu um aborto. Ficou oito meses no hospital, depois voltou a ser torturada e foi mandada para manicômio judiciário feminino. Segundo relato do irmão, chegou a tentar o suicídio.

Atualmente com 58 anos, ela conta que a violência sofrida durante a ditadura “aumenta a indignação e a consciência, no meu caso, aumentou muito a consciência daquilo que seria uma escolha de vida, de não silenciar, não perder a indignação diante das injustiças”.

Nancy Mangabeira Unger – Estudante da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na década de 1960, foi detida pelo Dops depois de assumir a direção do Diretório Acadêmico da faculdade. Em 1969 foi desligada da instituição e impedida de praticar qualquer estudo acadêmico. Por causa da ação policial, com invasões em sua casa, entrou para a clandestinidade.

Já morando em Recife (PE), passou a militar pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Novamente presa, durante a ação dói atingida por uma bala de fuzil, que decepou o dedo polegar da mão direita e atingiu também parte do fígado e do pulmão. Mesmo no hospital, foi interrogada e ameaçada. Em 1971, com 21 anos, foi incluída na lista de presos que seriam trocados pelo embaixador suíço. Depois de liberada, foi banida. Passou pelo Chile e foi para a Suíça. Voltou ao Brasil com a Lei da Anistia, em 1979. “Nós lutamos por um ideal e um conjunto de valores que no meu modo de ver constituem a própria essência vital de uma sociedade”, afirma.

Maria do Socorro de Magalhães – Em 1971 já participava de movimentos estudantis secundaristas. Estudante do quarto ano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), recebia bolsa de iniciação científica e lecionava em três escolas em 1972, quando foi presa pela polícia política federal, junto com companheiros. Voltava de uma seminário em Belo Horizonte (MG). Foi vendada, maltratada, interrogada, torturada, teve que ficar nua, deitada no chão molhado, com fios elétricos presos ao corpo.

Durante cerca de um mês foi interrogada e torturada todos os dias, duas vezes por dia. Foi solta à noite, com 37 quilos, e teve que dormir na escadaria do prédio onde a irmã morava, pois esta estava foragida e não permitiram que ocupasse o apartamento. Com o apoio do pastor da Igreja Luterana em Recife conseguiu uma bolsa de estudos na Alemanha. Voltou ao Brasil em 1979 e foi recebida pelo irmão, ex-militar, e pela irmã, que vivia clandestina no Brasil. Hoje, ela conta que “se perde muito a identidade” no exílio.
 

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