Porto Velho (RO) quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
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Política - Nacional

Linhão Tucuruí-Manaus tem na logística um dos maiores obstáculos para concretização


 

Alexandre Canazio, da Agência CanalEnergia, Expansão

Os projetos do setor elétrico desenvolvidos na Amazônia sempre são cercados de polêmica. Isso volta a ocorrer com o linhão Tucuruí-Manaus-Macapá a ser leiloado no próximo dia 27 de junho. O empreendimento vai cortar 1.876 quilômetros de florestas com o objetivo principal de interligar Manaus (AM) ao Sistema Interligado Nacional. Especialistas consultados pela Agência CanalEnergia mostram que, após o licenciamento ambiental, a logística para levar equipamentos e pessoal para áreas inóspitas será o grande obstáculo para a execução da obra avaliada em R$ 3,7 bilhões.

O linhão foi repartido em três lotes para a licitação desse mês que atraiu grandes players do setor como as estatais Eletronorte e Chesf, a colombiano-brasileira Isa Cteep, e as espanholas Isolux e Abengoa. Por outro lado, a Terna Participações, uma das maiores transmissoras privadas do país, preferiu ficar de fora do leilão desses lotes. "O retorno que essas linhas irão proporcionar não são compatíveis com os riscos oferecidos", avaliou Paulo Seidal, gerente Financeiro e de Relações com Investidores da companhia, em teleconferência com analista em maio passado.

A mesma avaliação tinha, em março, a Isa Cteep, segundo Sidnei Martini, presidente da companhia, em entrevista à Agência CanalEnergia na época. O executivo explicou que o linhão é uma obra de alto risco devido aos desafios técnicos, como torres com 280 metros de altura. "Elas estão fora dos padrões", completou ele. A Isa Cteep participa do consórcio Trans-Manaus, com 25% de participação, ao lado de Alupar Investimentos, Cymi e Elecnor para disputar o lote A. Para os lotes B e C, a empresa está no consórcio Solimões com Cobra Instalaciones y Servicios, Alupar e Elecnor.

Duas expedições realizadas pela Associação Brasileira de Infra-estrutrua e Indústria de Base em abril confirmaram as dificuldades que terão que ser vencidas pelos vencedores dos lotes. De acordo com Edison Carneiro, coordenador-executivo do comitê de transmissão da Abdib, a logística para execução da obra será um grande desafio. "Há uma preocupação muito grande de que os custos superem o previsto e não sejam remunerados pelas tarifas estabelecidas pela Aneel", comenta Carneiro. Os lotes A, B e C têm receita anual permitida máxima de R$ 294,283 milhões, segundo o edital do leilão.

A preocupação de Carneiro é compartilhada pelo diretor-presidente do Cigré-Brasil, José Henrique Machado Fernandes. Para ele, a logística vai definir o vencedor do leilão. "A decisão sobre logística e equipamentos será fundamental para o lance vencedor", frisa. A obra do linhão será marcada pelas grandes tranvessias e torres, algumas maiores que a Torre Eiffel, de 324 metros de altura.

Segundo Fernandes, apesar de haver esse tipo de travessias de rio no mundo, esse projeto é único devido à multiplicidade de cruzamentos de vias fluviais, inclusive o rio Amazonas, por longos trajetos. Além disso, em alguns trechos as torres terão que subir acima das copas das árvores.

As empresas, explica Fernandes, terão que pensar em como levar equipamentos para o meio da floresta, manter funcionários no local durante as obras, tudo isso influi nos custos logísticos. Além disso, ele lembra que, por serem áreas isoladas, as estruturas terão que ser praticamente imunes a acidentes. "Imagine ter que consertar uma torre de mais de 200 metros de altura no meio da Amazônia. São equipamentos únicos que não estão disponíveis para troca imediata", chama atenção o diretor-presidente do Cigré.

Tempo de construção - Por tudo isso, o valor da obra ainda é uma incógnita. O Programa de Expansão da Transmissão 2008-2012 coloca o investimento em R$ 3,7 bilhões, em valores de 2004. Já a Aneel prevê um investimento de R$ 2,86 bilhões para todos os 12 lotes do leilão. Segundo Jandir Amorim, superintendente de Transmissão e Distribuição da agência, o preço foi estabelecido, levando em consideração, os preços de mercado ocorridos nos últimos leilões. "Tem-se o preço de consulta de banco de dados, que é o da EPE, e o preço de mercado, que está ocorrendo nos leilões", compara Amorim, acrescentando que os preços, por isso, foram ajustados aos deságios.

Além do valor do investimento, o tempo de construção da linha também é motivo de ansiedade no setor. A Aneel colocou como meta a construção dos trechos em 36 meses após a assinatura do contrato. Segundo Amorim, esse prazo foi fixado para um período de 12 meses para o licenciamento ambiental e 24 meses para a construção. "Esse prazo mais estendido de licenciamento é para o lote C, que cruza os estados do Pará e do Amazonas; portanto, está na esfera federal", diz Amorim. Para os outros, a Aneel trabalha com a concessão da licença entre seis a oito meses.

Para Fernandes, a construção da linha não ficaria em tempo menor que quatro anos. "Somente a construção das torres levaria um ano", diz o diretor-presidente do Cigré. Ele lembra que o país tem expertise para a construção das torres, por ser um dos país com maior número de obras em transmissão no mundo. Mas ele tem dúvidas se não será necessário recorrer à importação de equipamentos devido à falta de capacidade. "Como essas torres não são fabricadas em série, terão que ser encomendas. Isso pode levar ao fechamento de unidades fabris para fazê-las", alerta, referindo-se às torres maiores.

De acordo com Amorim, a Aneel não desconhece as dificuldades impostas pelo empreendimento. "Trabalhamos individualmente cada travessia", ressalta. O superintendente afirmou que os prazos foram impostos, olhando também para a necessidade de atendimento da carga de Manaus. "O prazo que temos é muito apertado. A a energia terá que chegar à cidade no início de 2012", observa ele, acrescentando que se houvesse mais prazo no planejamento seria colocado mais tempo para as obras.

Como nos outros leilões, a Aneel garante aos empreendedores a possibilidade de ajuste nos prazos de execução da obra, em conseqüência de embargos ambientais, administrativos ou judiciais. "Além do mais, se ficar comprovado um desequilíbrio econômico-financeiro, ele pode ser reequilibrado pela Aneel", salienta Amorim. Tanto Fernandes, do Cigré, como Carneiro, da Abdib, não acreditam em grandes deságios para esse leilão. Eles disseram que os investidores vão pesar muito todas as dificuldades do empreendimento antes de fazer um lance e não descartam a possibilidade de não haver proposta em algum dos lotes.

"Isso é especulação minha, mas pode não haver deságio e há dúvida se haverá proponente. Mas ainda é cedo. As equipes estão debruçadas sobre o projeto para definir as melhores estratégias", disse Fernandes. O executivo também é assessor da diretoria de Planejamento e Engenharia da Eletronorte. "A Eletronorte está estudando o projeto", resumiu. A estatal está no consórcio Amazonas, no qual tem 30%, composto também por Chesf, Abengoa Concessões Brasil e Fundo de Investimentos em Participação Brasil Energia. O consórcio está na disputa dos três lotes.


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