Porto Velho (RO) sábado, 31 de julho de 2021
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Política - Nacional

Desafios do movimento negro



Jaime Carlos Patias, imc *

Adital - A articulação de diversas entidades do movimento negro com pesquisadores das relações étnico-raciais tem demonstrado que o dia 13 de maio de 1888 não foi o dia da abolição dos negros, mas dos brancos, que não tiveram mais que se comprometer com a manutenção dos que eram submetidos à escravidão. Hoje, o 13 de maio é celebrado como o Dia de Luta Contra o Racismo e o 20 de novembro, quando se faz memória do líder negro Zumbi dos Palmares, Dia Nacional da Consciência Negra. Para falar sobre o movimento negro no Brasil e a Pastoral Afro, entrevistamos o padre Luiz Fernando de Oliveira, assessor da Pastoral Afro da arquidiocese de São Paulo.

Padre Luiz Fernando, como foi que surgiu esta idéia?

Alguns historiadores e sociólogos sempre registraram que a luta dos negros foi constante desde a necessidade de libertá-los a si mesmos e aos indígenas, da escravidão. A mão-de-obra escrava que construiu o Brasil foi se fazendo através dos ciclos da cana-de-açúcar, do café, do gado e do ouro. Nas grandes capitais do período colonial como em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, foram surgindo grandes manifestações que contribuíram para a Abolição da Escravatura. Podemos lembrar a Revolta dos Malês, a Lei do Ventre Livre e a Lei Sexagenária, até chegar à Lei Áurea, do dia 13 de maio de 1888. Contudo, todos esses decretos não representam soluções para o povo negro e sim uma nova etapa da luta pela sua integração na sociedade de classes. O negro foi criando diversas associações tais como as Irmandades dos Homens Pretos e a Frente Negra Brasileira, além da tentativa de fundar partidos políticos. Todas essas manifestações contribuíram para o fortalecimento da consciência negra. O crescimento dos grandes centros urbanos e a rota migratória levou-os a encontrar seus espaços, no entanto, permaneceu a discriminação, o preconceito e a falta de oportunidades, mantendo gerações imensas excluídas dos direitos básicos de cidadania. Por isso, as favelas, os cortiços, os morros e as periferias são hoje bolsões de pobreza e miséria, verdadeiros territórios onde se encontra uma grande população negra. Foi através do conhecimento da realidade que grupos chamados militantes de diversas tendências políticas, religiosas e intelectuais, no dia 7 de julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, decretou que o dia 20 de novembro, em memória de Zumbi dos Palmares, seria o Dia Nacional da Consciência Negra. Na ocasião foi criada uma entidade do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação (MNUCR). A partir desse fato intensificaram-se outras formas de organizações em todas as grandes cidades. É bom lembrar que, na época, ainda estava vigente a ditadura militar e os negros vieram somar na luta pelas liberdades democráticas.

E a articulação dos negros na Igreja, entre teólogos e historiadores, como aconteceu?

Em 1980 realizou-se o primeiro Seminário de Teologia Negra, desencadeando uma reflexão mais ampla entre a Igreja e o Movimento Negro. Com este espírito nasceu o que se conhece hoje como pastoral negra. Em quase uma década foram surgindo alguns grupos presentes até hoje nos espaços das comunidades e paróquias tais como o GRUCON (Grupo de União de Consciência Negra), o IN-Pe.BATISTA (Instituto do Negro Padre Batista), a APNs (Agentes de Pastoral Negros), a PAB (Pastoral Afro Brasileira), que é um órgão assumido pela CNBB. Mas o grande impulso veio em 1988, com a comemoração do Centenário da Abolição da Escravatura. Através da Campanha da Fraternidade, CF, a Igreja no Brasil refletiu sobre a população negra, os seus grandes desafios e conflitos. Não foi uma tarefa fácil, porque muitos não dominavam o assunto, mas acabou aparecendo a verdadeira realidade do racismo em relação à cultura negra em todos os seus aspectos.

Quais são os objetivos da Pastoral Afro e como ela está organizada no Brasil?

Hoje a Pastoral Afro compreende algumas instâncias. Temos a representação de secretariado dentro das pastorais sociais na CNBB, onde o bispo referencial é dom João Alves, de Paranaguá, PR, e o padre Ari Antônio, como assessor. Existe também o IMA (Instituto Mariama), um organismo de articulação de bispos, padres e diáconos negros do Brasil, que se reúne anualmente em diversas cidades e que já completou 20 anos de atuação. Outras organizações são o CONENC (Congresso Nacional de Entidades Negras Católicas), que se encontra a cada dois anos, em um determinado estado (o próximo será no mês e julho de 2009, em São Luís, MA); o COEENC (Congresso Estadual de Entidades Negras Católicas), que se encontra anualmente, para fortalecer os grupos de base nos vários estados; o ATABAQUE (Grupo de Teologia Negra), que congrega pesquisadores multidisciplinares e auxilia na formação e na publicação de temas ligados à questão negra; o EPA (Encontro de Pastoral Afro Latino-Americana), órgão ligado ao CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) através de um secretariado chamado SEPAFRO, que tem hoje à frente dom Gílio Felício, bispo diocesano de Bagé, RS.

Quais os maiores desafios que essa pastoral enfrenta nas dioceses e paróquias?

O grande desafio é compreender os valores da contribuição dos negros no Brasil, na arte, na cultura, na religião, na culinária. Mas pela deficiência na área da educação, até mesmo os negros, na sua maioria não compreendem os seus valores e o seu papel na sociedade. Isto acaba aumentando os preconceitos e as discriminações contra a pele negra. Existe um imaginário onde se diz: o que é bom é branco, e o que é feio é negro, o que é do branco é santo, e o que é do negro é satânico. Portanto, a cultura negra é sinônimo de coisas negativas, e isso acaba refletindo em quase todos os aspectos da vida humana. Quando se fala das questões sociais o negro se torna pobre, quando se fala do homem e da mulher negra, eles se tornam invisíveis, seja pela mídia e outros meios de comunicação, principalmente no que se refere hoje ao poder de decisão e das ocupações profissionais do grande mercado.

Poderia destacar algumas atividades e eventos promovidos durante o ano?

As nossas programações ao longo do ano estão na formação de crianças negras, encontro com a juventude negra, encontro com as famílias e oficinas de penteados afro, para elevar a auto-estima, e celebrações afros. Além disso, a Pastoral Afro participa dos vários eventos organizados pelas outras entidades do movimento negro.

Informações: Pastoral Afro Brasileira. E-mail: [email protected]
Na cidade de São Paulo: Rua Venceslau Brás, 78 - Sala 01 - Tel.: (11) 3106-2352 E-mail: [email protected]

[Publicado na edição N 09 - Novembro 2008 - Revista Missões.
www.revistamissoes.org.br]

Fonte: ADITAL

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