Porto Velho (RO) sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
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Revestimento de liberdade



Bruno Peron

O lançamento do filme A Entrevista (The Interview) pela Sony estava previsto para 25 de dezembro de 2014. Além deste filme ter recebido críticas de comentaristas e especialistas em cinema, uma polêmica se armou sobre o roteiro de A Entrevista. O filme que se propõe como comédia retrata a ridicularização do governo da Coreia do Norte e um plano para que jornalistas estadunidenses assassinem o líder norte-coreano Kim Jong-un.

Apenas algumas semanas antes do lançamento oficial de A Entrevista, hackers denominados Guardiões da Paz (Guardians of Peace) responsabilizaram-se por um ataque virtual à Sony através do qual eles tiveram acesso a informações sigilosas. Esses hackers também ameaçaram espalhar o terror em salas de cinema que exibissem o filme.

Por isso, a Sony resolveu que adiaria a estreia do filme no Natal, embora ele tenha sido distribuído pela Internet e em salas de cinema independentes em USA Fora-da-Lei. A própria Sony, pouco tempo depois, autorizou a distribuição via Internet do filme para não ter prejuízo com os gastos nele.

A diplomacia de USA Fora-da-Lei chegou a um ponto de combinar cinismo trágico com mentira deslavada. USA Fora-da-Lei mente descaradamente para defender seus interesses nacionais. Porta-vozes desse império de língua inglesa temem o desincentivo à liberdade de expressão enquanto acusam o governo norte-coreano de cometer crimes virtuais e incitar o ódio.

Pessoas ligadas à Agência Federal de Investigação (da sigla em inglês FBI, Federal Bureau of Investigation) desconfiam de que o governo norte-coreano esteja por trás dos ataques virtuais à Sony. No entanto, esta acusação reproduzida nos meios de comunicação tem sido tomada como fonte verídica para condenar a suposta reação norte-coreana ao filme A Entrevista.

O questionamento que muitos fazem é: como fica o tema da liberdade de expressão diante desses acontecimentos? Minha visão é que a ideia de liberdade de USA Fora-da-Lei não se deve aplicar ao mundo como um valor universal. Também, não há excesso de liberdade que justifique a agressão a outras nações com produtos cinematográficos. Imaginemos a reação de USA Fora-da-Lei se outro país propusesse um filme em que se incite o assassinato de Barack Obama e que circule as telas de cinema mundiais.

Em países onde se garante o funcionamento das leis, ninguém pode falar e fazer qualquer coisa somente para dar vazão à sua liberdade de expressão. Não acho que as pessoas têm o direito de dizer e fazer qualquer coisa, ainda que suas palavras e atos se amparem nos véus da ficção. Há que assegurar um equilíbrio global entre observância às normas e respeito às diferenças.

Mentiras se lançam nos circuitos mundiais de comunicação até que, de cada cem pessoas que as aceitam como verdadeiras, duas ou três desconfiarão de que há algo errado nessas narrativas hegemônicas e imperiais.

O aspecto mais vistoso nessas narrativas é que elas orientam o desejo de espectadores e ultrapassam a finalidade de entretê-los livremente. Filmes não são, desse modo, apenas um produto cultural que visa a divertir audiências que consomem produtos criativos por lazer. Eles também são instrumentos de incitação política e de manipulação de opinião pública.

Para mim, está claro que o objetivo de A Entrevista é o de banalizar o ataque a um país asiático primeiramente através de um produto cultural que intenciona entreter seus espectadores. Portanto não entendo o constrangimento da Sony, já que houve uma resposta proporcional a suas ações em vez de uma ação espontânea que emerge do ódio infundado.

Embora a Sony seja uma empresa japonesa, ela tem contratos e faz negócios com empresários de USA Fora-da-Lei. Neste país, Barack Obama é apenas um dos cínicos que incitam o ódio contra a Coreia do Norte, não se responsabilizam pelas consequências de seus atos, e ainda dizem que o ódio emana dos “rebeldes”, “subversivos” e “terroristas” de outros países.

Em realidade, os meios de comunicação dão atenção exagerada a alguns aspectos desta ocorrência, mas se esquecem de outros como o de que a Coreia do Norte há muitos anos compõe o “Eixo do Mal” propagandeado por USA Fora-da-Lei. Este país ataca a Coreia do Norte; não o contrário.

Há que ter cautela com tantas mentiras que se lançam por aí revestidas de liberdade e de verdade. É preciso comparar fatos e entender os motivos.

 

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