Segunda-feira, 8 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

Quem sou eu para julgar?


João Baptista Herkenhoff

A frase do Papa Francisco transpõe, a meu ver, a situação concreta à face da qual foi pronunciada. O Papa não pode, nem qualquer pessoa pode etiquetar pessoas, lançar anátemas, estabelecer abismos entre bons e maus, proscrever, humilhar. Quem pode julgar senão Deus?

Sob o clima de Fé que a visita do Papa Francisco suscitou, parece-me oportuno refletir a respeito de três grupos humanos a respeito dos quais paira um sentimento muito comum de condenação e opróbrio: presidiários, prostitutas, menores de rua.

Comecemos pelos presos.

As sociedades humanas, para sobreviver, estabelecem leis e algumas pessoas recebem a missão de julgar. Mas é um julgamento circunstancial, falível, que nunca deve ser alimentado pelo ódio, orgulho ou vaidade mas, pelo contrário, deve ser um julgamento humilde, pleno de esperança e amor.

No Brasil, há definição de direitos do preso, mas os direitos não são respeitados. Em favor do preso que não foi julgado, por exemplo, existe a presunção de inocência. Essa presunção só vigora em favor de cidadãos poderosos, eventualmente aprisionados, fato bem raro.

Tentemos agora pousar nas prostitutas um olhar cristão. Há legislações que consideram a prostituição um crime, o que não é o caso do Brasil. Entretanto, embora transitando na faixa da legalidade, as prostitutas são assiduamente presas, sem fundamento legítimo. Maltratadas e ofendidas física e moralmente, vivem em condições econômicas quase sempre subumanas, isoladas do restante da população, como um grupo excluído. Não têm acesso a cuidados médicos, previdência social, amparo da lei. São consideradas não-pessoas. Embora o mundo tenha sofrido grandes transformações, a figura da prostituta perdura, na paisagem humana, como negação de Humanismo e Justiça. Na maioria dos casos, como pesquisas sócio-jurídicas revelam, ganhar o pão através da entrega do corpo não é uma escolha. É uma imposição de circunstâncias econômicas e sociais. Por motivos religiosos ou humanitários, organizações da sociedade civil encampam as lutas das próprias prostitutas. Os voluntários desta missão refletem, no íntimo da alma, como o Papa Francisco: quem somos nós para julgá-las?

Finalmente falemos desse grupo que o preconceito etiquetou com a designação de menores de rua. Crianças e adolescentes são culpados de estarem na rua ou culpados somos todos nós, por omissão? Uma sociedade, na qual existam menores de rua, não pode profanar o nome de Jesus Cristo definindo-se como sociedade cristã. Este problema depende de uma mobilização coletiva. Vamos arregaçar as mangas fazendo o que nos cabe como integrantes da sociedade civil. Vamos pressionar os governos (municipal, estadual, federal) e exigir as ações que aos três poderes competem.

João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.
E-mail: [email protected]
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520


 

Gente de OpiniãoSegunda-feira, 8 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Saúde estadual – a tragédia anunciada

Saúde estadual – a tragédia anunciada

A crise que se instalou no sistema de saúde de Rondônia é mais antiga do que o Código de Hamurabi. Lembro-me que, em outubro de 1994, matéria do ext

Alemanha perde para Portugal a corrida ao Conselho de Segurança da ONU

Alemanha perde para Portugal a corrida ao Conselho de Segurança da ONU

Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleiçãoPortugal conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU

Cai N’Água: Uma História de Amor Não Correspondido

Cai N’Água: Uma História de Amor Não Correspondido

O Cai N’Água continua sendo cantado pela boemia como se fosse um altar romântico da vida ribeirinha. Mas basta chegar perto para perceber que o enca

A cantilena demagógica da transposição

A cantilena demagógica da transposição

Não sei você, mas eu não suporto mais ouvir essa conversa mole de transposição de servidores do ex-Território de Rondônia para os quadros da União.

Gente de Opinião Segunda-feira, 8 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)