Porto Velho (RO) sábado, 17 de agosto de 2019
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PAPAI NOEL SEM CORAÇÃO


No dia 15 de dezembro, numa quarta-feira, por volta das 19 horas, como de hábito, fui levar meus pais ao templo da Assembléia de Deus Missionária, localizada no bairro 10 de Abril. Seu Hugo e D. Maria são cristãos assíduos que costumam não faltar aos cultos.

Ao retornar para casa, decidi dirigir pela Avenida VX de Novembro, via arterial que corta o coração da Pérola do Mamoré, dotada de iluminação suficiente e adequada para se conduzir veículos no horário noturno. Coisa rara nesta cidade.

PAPAI NOEL SEM CORAÇÃO  - Gente de Opinião
Imagem: http://antigodoquevaiadiante.blogspot.com

Quem mora em Guajará-Mirim, ou apenas passa pela cidade para fazer compras na Bolívia, sabe que a urbe tem pouquíssima iluminação pública. Os moradores dos bairros populares da cidade, há anos não sabem o que são pontos incandescentes afixados nos postes distribuídos pelas vias públicas da Pérola do Mamoré.

Neste período do ano, o espírito natalino invade todos os corações (ou melhor, quase todos). Ganha as ruas, as fachadas e varandas das casas do mais simples e humilde cidadão ao fidalgo. Inunda os frontões de algumas repartições públicas que, por esta ocasião, são revestidos com adornos inspirados na temática natalina e arrematados por milhares de mini-lâmpadas que piscam freneticamente.

O clima de festa natalina faz despertar em nós, adultos, a criança há muito adormecida. Sorrimos, sonhamos e até fazemos os nossos secretos pedidos, acreditando realmente que Papai Noel virá nos visitar na noite de 25 de dezembro.

Fico imaginando: o que Papai Noel faz nascer na imaginação de todas as crianças? Quais os desejos, os sonhos, as fantasias dos pequeninos carentes? O que meninos e meninas das famílias que possuem rendas modestas, ou ainda, sem renda alguma, desejam receber do Papai Noel na noite de 25 de dezembro?

Ah, nesta época do ano, literalmente, as crianças enlouquecem e nos deixam também loucos! Vibram com os presépios natalinos. Sonham com o menino Jesus. Tem verdadeiros ataques histéricos ao passarem em frente de uma decoração retratando cenas de natal, ricamente iluminada. Em vias públicas, fazem-nos parar, para admirar o cenário da natividade, o Menino Jesus na manjedoura, a árvore de natal frondosamente decorada.

E como é lindo vê-las sonhando de olhinhos abertos, que brilham como lâmpadas natalinas!

Victor Gabriel, meu sobrinho-neto, de dois anos e quatro meses, dentro do carro, grita, aponta, alegremente, na direção de todas as decorações natalinas: “Ô Papai Noel, ô Papai Noel!”

Este ano, a mais frondosa e bela decoração natalina é ostentada, pomposamente, pelo Fórum Ministro Nelson Hungria, localizado na Av. XV de Novembro. Vários são os elementos alegóricos e aderecistas erguidos, representando diversos símbolos natalinos: Papai Noel gigante, árvores de natal, boneco de neve, trenó, dentre tantos outros, que são emoldurados por milhares de lâmpadas e, assim, compõem o presépio do Fórum Ministro Nelson Hungria.

Naquele dia, ao passarmos em frente ao Fórum, Victor Gabriel não se conteve, enlouqueceu e me intimou a parar o carro. Pediu para descer. Queria brincar com Papai Noel. Grita! Pula! Bate palmas! É Papai Noel, é Papai Noel, exclama ele!

Enquanto eu estacionava, Victor desce e passa, correndo, pelo portão do Fórum. Caminho até ao portão e lá já encontro Janaína Maria, mãe de Victor, dando conta de informações que não podíamos entrar para admirar, junto com Victor, a decoração natalina – que, empolgado e afoito, já se encontrava no átrio interno do Fórum.

Um casal - prováveis servidores públicos - explica a razão do impedimento: a visitação só é permitida mediante a contribuição de um quilo de alimento não perecível. Muito justo e altruísta, penso eu, uma vez que os alimentos recolhidos serão distribuídos às famílias carentes, segundo nos é informado.

Diante do imprevisto, analisei rapidamente e conclui: trata-se de contribuição e não obrigação. Minha decisão de parar havia sido repentina, em razão da euforia de Victor, de forma que, naquele momento não dispunha, ali, de um quilo de alimento. Insisti para entrar, explicando meus motivos e, irredutíveis, os servidores do Fórum persistiram no impedimento.

Diante do impasse, só me restou uma única alternativa: retirar Victor Gabriel de dentro do espaço do Fórum que, aos gritos e em prantos, pedia para ficar com Papai Noel.

Saí dali indignado e me perguntando: qual é a função social de um presépio? Qual é a verdadeira mensagem natalina?

Confraternizar, partilhar, congregar, reencontrar são palavras que definem valores nobres e constantemente evocados ao cumprimentarmos as pessoas, algumas que nem conhecemos, neste período em que celebramos o nascimento do Menino Jesus.

Será que esses sentimentos fraternos povoam o coração do Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria? Ele tem coração? Ele já foi criança? Um dia, será que ele sonhou? Será que o Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria já comemorou, em família, um natal!?

 É paradoxal (para não dizer preconceituosa e esdrúxula) a ação do Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria, em Guajará-Mirim. Dispõe-se a recolher alimentos para doar aos pobres, na noite em que o mundo cristão celebra o nascimento do Menino Jesus, ritual no qual todos nós nos lembramos de Sua vida e Seus ensinamentos.

Nem a criança carente de Guajará-Mirim e, menos ainda, sua família será recebida pelo Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria. Poderá até ganhar um prato de comida daquele Papai Noel desalmado, mas um abraço fraterno não! É uma conclusão muito simples: por serem carentes, não possuem alimentos sobrando para doarem ao próprio Papai Noel de coração frio do Fórum Ministro Nelson Hungria. Melhor dizendo: são famílias que não dispõem das entradas, em forma de contribuição-obrigatória de alimentos não perecíveis e, assim sendo, não serão recebidas e nem abraçadas pelo Papai Noel excludente.

O Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria deixa aos pobres, como principal mensagem natalina, uma máxima eternizada pelo grande poeta e artista Cazuza: “Não me convidaram/Pra essa festa pobre/Que os homens armaram pra me convencer”.

A essas famílias desprovidas de posses - muito provavelmente descentes de negros, índios, mestiços, bolivianos e, com certeza, periféricos – cabem-lhes tão-somente a função que lhe é predestinada há décadas: “fiquei na porta estacionando os carros” (Cazuza), enquanto observa, pelo lado de fora, a elite arcaica e conservadora da decadente Pérola do Mamoré desfilar por entre as decorações natalinas do Fórum Ministro Nelson Hungria.

Esqueçamos as trocas de presentes, a beleza das ruas iluminadas e passemos, verdadeiramente, a valorizar o que realmente se comera neste dia, sem importar as diferenças sociais, religiosas e culturais: somos todos filhos de um mesmo Deus, e por conseqüência irmãos.

Natal representa a renovação da esperança, a afirmação da fraternidade, o fortalecimento da união e o reconhecimento do respeito, sempre, entre negros e brancos, homens, mulheres e homossexuais, crianças, jovens e idosos, ricos e pobres, centro e periferia, analfabetos e letrados, índios e não-índios.

Quanto ao comportamento do Papai Noel do Fórum Ministro Nelson Hungria, esqueçam. Isto não pode afetar nosso espírito natalino.

Trata-se apenas do Papai Noel que somente representa os sentimentos de alguns servidores públicos daquela casa de justiça. E, como já sabemos, a justiça é cega. Logo, por conseguinte, o Papai Noel Sem Coração do Fórum Ministro Nelson Hungria, assim como a justiça, arrisco dizer, além de cego, é também surdo e mudo: não vê, não ouve e nem fala com pobres.

Você, um excluído, lembre-se que nem o próprio Menino Jesus, em pessoa, teria permissão para visitar a representação de seu nascimento instalado no Fórum Ministro Nelson Hungria, sendo Ele uma criança pobre, filho de um carpinteiro com uma dona de casa, nascido em um estábulo, numa manjedoura forrada por gramas, certamente, com este perfil de Menino pobre, seria mais um inocente retirado à força do átrio daquele Fórum, um espaço – pasmem! - estabelecido com dinheiro do contribuinte para promoção da justiça.

FELIZ NATAL PARA TODOS, sem exclusão!!!

* Ariel Argobe é Artista Plástico, Presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de Rondônia e funcionário público do quadro técnico da UNIR.

Texto revisado por Cristiane de Almeida Anastassioy, Especialista em Língua Portuguesa – UNIR. Técnica em Assuntos Educacionais – UNIR.

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