Porto Velho (RO) domingo, 25 de agosto de 2019
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Os carrascos também morrem


                      Guido Bilharinho

                   Em maio de 1942, em Praga, antiga Checo-Eslováquia, foi assassinado o reichsprotektor, Reinhard Heydrich, imposto ao país pela invasão e ocupação procedidas pela Alemanha nazista.

                   As consequências desse atentado constituem o assunto do filme Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die, EE.UU., 1943), do austríaco Fritz Lang (1890-1976). Ou seja, o incidente nem estava assimilado e esclarecido, nem interna e muito menos externamente, e já se transformara em tema fílmico do outro lado do Atlântico.

                   Por se tratar de ocorrência histórica, o compromisso do cineasta não se restringe aos aspectos humanos e estéticos da realização. Além deles, e concomitantemente com eles, incide a fidelidade aos fatos. Por infringência a esses requisitos, quase todos, para não se dizer todos, os filmes “históricos” de qualquer procedência só o são parcialmente.

                   As necessidades e injunções da narrativa ficcional e, principalmente, de tornar o filme palatável ao espectador, além, evidentemente, do maior ou menor conhecimento da verdade histórica, imprimem seu selo à realização.

                   No primeiro caso, agregam-se aos episódios, construindo-lhes em torno ou mesmo, o que é pior e mais grave, em seus núcleos, dramas pessoais de personagens fictícias e mesmo históricas, de modo a estruturar enredo meramente convencional.

                   Na segunda hipótese, nessa operação costuma-se desvirtuar a realidade, deturpando a veracidade histórica para submetê-la às exigências da narrativa segundo os usuais padrões cinematográficos a que o público está condicionado.   

                   Por fim, a fidedignidade aos fatos jaz soterrada sob o peso da conveniência mercadológica, não interessando, por isso, retratar com fidelidade a situação focalizada, da qual apenas se pesquisam e se divulgam os lineamentos gerais, o eixo central, por se tratar justamente do pretexto fílmico.

                   Ocorre no presente caso a impossibilidade de se saber como realmente o incidente se deu. Em plena guerra e no calor do sucedido ainda não se poderia conhecer seus pormenores e autores.

                   Em consequência, resulta da simultaneidade desses fatores, o aspecto fantasista do filme a respeito dos acontecimentos que o recheiam, sobrando para a verdade histórica apenas o atentado, o horror que os checos tinham de Heydrich, a surda oposição do povo à ocupação e a seus agentes, a ação do movimento checo de resistência, em cuja existência Himmler até então recusava-se a acreditar, conforme relata o historiador Alan Wykes, e, finalmente, a repressão que se lhe seguiu, que o filme apenas bordeja e que, na realidade, extrapola de muito o que ligeiramente revela.

                   Por sinal, Wykes obteve certa notoriedade à época porque em plena Segunda Guerra moveu, sem sucesso, companha para substituir a interpelação das sentinelas “quem vem lá?” por “quem vem cá?” (in Heydrich. Rio de Janeiro, editora Renes, 1977).

                   A fragilidade, incompletude e deturpação da verdade histórica são também responsáveis pelas limitações cinematográficas do filme.

                   Não seria para menos nem de outro modo, visto que Lang apenas objetivou narrar (dramatizando) o evento, subordinando e sacrificando, com isso, a linguagem cinematográfica e a fixação dos relacionamentos humanos, limitando-se a expô-los convencional e linearmente.

                   Ao cinema propriamente dito restaram competência e segurança direcional, apropriada construção tipológica de algumas personagens (notadamente nazistas, à exceção de Heydrich, apresentado como maníaco afeminado), eficaz direção e interpretação dos atores, lógica articulação dos fatos fílmicos (não dos reais), belos décors deinteriores e de aspectos urbanos e a criação da sufocante ambiência de submissão e terror estabelecida pelo nazismo.

                   Mesmo sendo relevantes esses predicados, não chegam, porém, a conferir ao filme o status artístico cinematográfico que alguns pretendem lhe outorgar.

                   Além de ilusório, o enredo apresenta discrepâncias.

                   Uma delas, a circunstância do tido (pelo filme) como autor da eliminação de Heydrich perambular ao léu pela cidade logo após o ato sem ter para onde ir, refugiando-se até mesmo em sessão de cinema e, depois, aleatoriamente, face ao toque de recolher, em residência alheia de desconhecidos.

                   Ora, se essa personagem é - no filme bem entendido – médico cirurgião de nomeada e com domicílio fixo, por que não se dirigiu a ele, prosseguindo normalmente sua rotina?

                   Outra, é a particularidade (fílmica) de que a Gestapo, conhecendo o movimento de resistência até em seus mínimos detalhes, visto ter nele informante, e sabendo-o responsável pelo atentado (o que não é real, eis que os quatro executores foram da Grã-Bretanha por avião), não o incomodou e, ao invés disso, que é verdade histórica, promoveu vasta investigação e perseguição, praticando criminosa represália de prisões e fuzilamentos diários.

                   Tais incoerências não o são em relação à realidade, que, no caso, é simplesmente ignorada, porém, decorrem internamente da própria trama fantasiosamente montada. Àquela, o filme contraria, à esta, fragiliza e compromete.

(do livro A Segunda Guerra no Cinema. Uberaba, Instituto Triangulino de Cultura, 2005)

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensãode 1980 a 2000 e autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional.

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