Porto Velho (RO) quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
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Opinião: Um breve comentário para o professor Nazareno



Opinião: Um breve comentário para o professor Nazareno - Gente de OpiniãoEMMANOEL GOMES

Professor Nazareno, meu amigo. Sinto, já há algum tempo, o desejo de escrever sobre suas opiniões em relação ao nosso Estado, Porto Velho e essa cultura e história “beradeira”. Creio que esse seja o momento oportuno.

Tive a honra de conviver com o senhor quando lecionava em Porto Velho. Primeiro, no Coopeduc e depois no Classe A. Hoje estou residindo na cidade de Vilhena, onde mantenho minha militância em prol da cultura, história do Brasil e da Amazônia. Acompanho os seus textos com muita atenção, pois os considero de excelente qualidade, porém, gostaria de fazer alguns comentários sobre algumas opiniões que, a meu ver, não combinam, coadunam com sua postura equilibrada e humanitária com a qual convivi.

Em primeiro lugar, gostaria de lembrar que concordo com a maioria das afirmativas feitas em relação a Porto Velho, Rondônia e mesmo ao Brasil. A questão é, que seus textos, que são suas tentativas de ser e estar no mundo, assim como os meus ou os textos de qualquer pessoa séria, transmitem a idéia de que absolutamente tudo em Rondônia é profundamente ruim e de mau gosto.

Desculpe se estou exagerando, mas é o que sinto ao ler algumas afirmativas, como a comparação feita entre órgãos sexuais de jumento e as três caixas d’água que simbolizam a cidade de Porto Velho. Poderia citar outros exemplos de afirmativas que me fazem sentir seu profundo desprezo e até ojeriza pelos elementos históricos e culturais de Rondônia.

Quero lembrá-lo que na maioria das afirmativas o senhor acerta e possui o meu respeito. Porto Velho, realmente, é uma cidade possuidora de terríveis mazelas. A cidade e seus munícipes realmente penam por conta do gigantesco desrespeito praticado por governantes e por boa parcela da própria população.

O problema, professor, é que muitas coisas para serem boas ou ruins dependem dos olhos do observador e sua consciência crítica. Esse olhar é amalgamado pela caminhada cultural de cada um, que a meu ver, pode ser criticada, porém, precisa ser respeitada.

Temos, concretamente, a realidade dessa cidade, e deste Estado. Provavelmente seremos sepultados por essas terras e pouco restará de nós, nosso legado depende de nossas ações no hoje. Em função disso, devemos fazer uma opção, ou ajudar para que as coisas melhorem, ou empurrar de vez para o fundo do precipício. Acredito, que por ter escolhido viver aqui, é muito mais coerente atuar para que a primeira opção se concretize.

Tenho a mais clara noção de que, tanto em Porto Velho quanto em Rondônia, existem elementos inspiradores que qualificam de alguma forma esse torrão e essa cultura em franca transformação, no qual elementos de várias regiões, inclusive o nosso Nordeste se entrelaçam. Gostaria de exemplificar: apesar do terrível quadro educacional, carregado de mazelas, sei da existência de professores que praticam um modelo de educação de altíssima qualidade. Para não ser injusto cito três exemplos de escolas em Rondônia que seriam modelo para o restante do Estado e até para a região Norte: João Bento, escola estadual de Porto Velho, Classe A, escola também de Porto Velho, onde, inclusive, o senhor leciona e com muita qualidade. Cito ainda a escola do Professor Vanks, aqui em Vilhena, educandário com características impressionante. São experiências educacionais que se diferenciam em muito de centenas de outras escolas rondonienses e brasileiras.

Professor, na história do Brasil, não existe e nem existiu uma região com tantas dificuldades para sua ocupação e colonização como Rondônia. As coisas por aqui só estão começando. Porto Velho possui menos de cem anos e os demais municípios rondonienses em média trinta anos. Só para lembrar, existem algumas centenas de cidades no Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil que possuem mais de trezentos e cinquenta anos que não passam de vilas miseráveis, com toda a sorte de males e chagas.

As pessoas que um dia resolveram carregar suas “matulas” para esse pedaço de Brasil, como você, eu e a maioria das pessoas que fazem parte de nossa geração, buscam ainda hoje reflexões sobre o homem, a natureza, o rio e a terra. Procuram um encontro com um mundo que ainda está em formação, um mundo não concluso, com dezenas de máculas, ferimentos, tragédias, porém, com experiências fantásticas que precisam ser ressaltadas para serem repetidas, preservadas etc.

As pessoas que se aventuraram nessas terras não possuíam ideia do que enfrentariam em relação a dificuldades e sofrimentos: a distância exaustiva, o calor equatorial, doenças com índices de mortalidade medieval, povos indígenas lutando por seus valores, em fim, uma cultura absurdamente diferente, contraditória, surrealista. Uma floresta, às vezes, alagada, outras enxuta; num momento, silenciosa, noutro ensurdecedora, comparada, num período com o paraíso, noutro com o inferno verde, que engole homens e coisas.

Um mundo carregado pelo sagrado e profano, fantástico, incoerente e mágico. Permeado por absurdos impraticáveis que misturam o novo com o velho, o mitológico com o real, o claro com o obscuro. As pessoas de ontem e de hoje não podem dar conta do espaço resultante desses conflitos.

Hoje, esse mesmo mundo, é ocupado e castigado por uma imensidão de mazelas praticadas por coronéis políticos e seus jagunços, lacaios, escondidos pela proteção dos altos cargos, alimentados pela prática excludente e parasitária desse Estado tão nocivo ao seu pobre e ignorante povo. Políticas que perpetuam as práticas culturais que assolam e assaltam os valores éticos, morais e humanos aqui e nas periferias existentes em todo o planeta.

Professor, ocorre que aqui também tem gente boa, pessoas nobres, beradeiros e beradeiras, que em suas simplicidades vivem seu mundo com dignidade, trabalhadores, agricultores, professores, feirantes, cantores, aliás, temos uma musicalidade que até os mocos reconhecem. Sei que sua visão não se seduz pelo por do sol seja do Guaporé, Mamoré, Madeira ou Cabixi, mas acredite, milhares de pessoas são seduzidas, inclusive este pobre e claudicante historiador.

Talvez eu cometa o pecado de gostar mais do por do sol, das curvas dos nossos rios, dessa floresta equatorial do que das obras de Oscar Niemeyer, as pinturas de Cândido Portinari ou das praias nordestinas. Gosto dos textos do Antônio Serpa do Amaral, nosso querido Bazinho, Paulo Queiroz, Professor Nazareno, Zola Xavier, Antônio Cândido, Francisco Matias, Kafka, Montezuma Cruz, Nietzsche, Borges, Alberto Caldas, Júlio Hiriarte, Carlos Moreira, Hugo Evangelista, Shakespeare etc.

Gosto muito das toadas de Boi do Silvio Santos, Chico da Silva, musicalidade do Binho, Bado, Gilson, Betânia, Baaribú, Chico César, Paulinho Pedra Azul, Ceissa, Keila, Chico Buarque, Nilson Chaves, Rogério Cabal, Miléo, Gonzagão, Torrinho, Zeca Baleiro, Gil, entre tantos outros.

Talvez eu seja indesculpavelmente ridículo ao ser assim, mas sou e não posso negar. Gosto dos temperos de Rondônia, como gosto do sabor da Bahia e do Pará.

Tenho apego aos eventos históricos dessa terra. Tenho profundo apego a este “gueto”, esta tribo, este lugar. Viajo pelo mundo e sinto saudades daqui. Desculpe se isso é atraso cultural, literário e musical, é o meu jeito de ser e sentir o mundo.

Acredito que você, amigo, já sabia disso tudo, pois acompanhou um pouco minha caminhada no Barco Escola, na Estrada de Ferro Madeira Mamoré, que mesmo apodrecida insiste em sobreviver. Você conhece minha luta em prol do pobre Forte, enfraquecido e abandonado pelo cinismo desmedido dos homens, minha militância que tenta recontar, relembrar aos jovens o abandonado cemitério da Candelária. Em fim, você sabe que tudo pode ser refletido, revelado com grandiosidade, até aquilo que parece em sua estética com algo sem valor ou sem importância.

Tenho desenvolvido uma militância exaustiva em prol de nossa musicalidade, história, poesia. Professor, assim como você, constantemente sou convidado a me calar, sofro enxovalhos, intimidações, minha vida achincalhada, amigos e familiares ameaçados e importunados. Os donos do poder não admitem a independência o livre pensar.

Tenho atirado com minha metralhadora cultural contra uma imensidão de situações que nos desqualifica nos extermina, nos bestifica. Tenho enfrentado consequências que atingem minha filha, mulher e minha intimidade, pois vivemos numa sociedade, no qual a covardia e hipocrisia são os elemento culturais mais presentes.

Nosso Estado é infestado por “Coronéis” da pior espécie, gente que em pouco tempo de atividade política supera as práticas nefastas dos Coronéis exploradores da ignorância, seca, miséria e despolitização nordestina.

Não pretendo abandonar minhas convicções e militância em função dos problemas e retaliações sofridas ao longo dessa atuação cultural, nem desejo, meu amigo, que você abandone a sua digna, nobre caminhada. Porém, gostaria de afirmar ao amigo que podemos encontrar neste pobre Estado, lutas, militâncias, combates, guerrilhas em prol da música, história, literatura e poesia.

Existem expressões musicais dentro das toadas de boi que brotam dos sonhos e devaneios de pessoas beradeiras que desejam um mundo melhor. Os poucos elementos que compõem o nosso patrimônio arquitetônico que vive apodrecendo, são sim resultado de sonhos e devaneios de outrora. De alguma forma, os homens e mulheres do tempo das minas do Guaporé, da Fundação de Vila Bela da Santíssima Trindade, do Forte Beradeiro de Costa Marques, da Esquecida Estrada de Ferro, dos pobres prédios que compõem nossa cinzenta experiência arquitetônica, aqueles homens e mulheres que sobreviveram nos seringais em meio às onças, cobras e insetos, nunca se deram conta de que estavam abrindo o caminho para o Nordeste e demais regiões que o senhor, eu e tantos outros representamos. Eles, assim como nós, deixaram suas marcas quando parecia impossível a própria sobrevivência. E agora, quais serão as nossas marcas para os que desejarem no futuro olhar para o nosso tempo?

Uma vez Nietzsche afirmou: “... E zombei do mestre que não soube zombar de si”. Sei o quanto já zombamos de nós mesmos. Forte abraço.

FONTE: EMMANOEL GOMES, PROFESSOR, HISTORIADOR, MEMBRO DA ACADEMIA VILHENENSE DE LETRAS

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